Varíola dos macacos só assume relevância após ter acometido países ricos

Publicação: 14 de junho de 2022

Na atual situação de ameaças pandêmicas, a importância da doença não deve ser subestimada

Para garantir a preparação global no caso de ressurgimento da varíola, novas vacinas, diagnósticos e agentes antivirais estão sendo desenvolvidos, os quais também podem ser úteis para a prevenção e controle da varíola dos macacos

A imunidade coincidente ao vírus da varíola dos macacos foi previamente alcançada com a vacinação contra o vírus vaccinia (VACV); no entanto, a erradicação da varíola e a subsequente falta de esforços de vacinação abriram o caminho para a varíola dos macacos ganhar relevância clínica. Além disso, como a maioria dos casos de varíola ocorre na África rural, a suspeita de subnotificação pode se traduzir em uma subestimação da ameaça potencial desse patógeno, bem como o fato de os casos estarem ocorrendo em vários locais diferentes da sua origem podem estar sendo diagnosticados incorretamente ou não diagnosticados. Uma visita ao myMisdiagnosis.com, banco de dados global de diagnósticos incorretos, no dia 30 de maio mostrou que pacientes estavam sendo erroneamente diagnosticados – com catapora (varicela) –, quando na verdade o diagnóstico correto nos casos específicos seria varíola dos macacos. A doença compartilha muitas características com o vírus muito mais comum da varicela, sífilis e herpes. Portanto, há um perigo genuíno de que as pessoas a confundam. O risco de diagnóstico incorreto é preocupante. A varíola dos macacos pode ser diagnosticada por um teste de PCR e/ou sequenciamento.

Nas últimas 5 décadas, surtos de varicela dos macacos foram relatados em 10 países africanos e 4 países fora da África. Curiosamente, a infecção importada para o Reino Unido em maio de 2021 e para os Estados Unidos em julho de 2021 ocorreu em um momento em que os casos relatados de varíola na Nigéria estavam em um nível muito baixo. O mesmo ocorreu agora em 2022. Questionado sobre isso, o Dr. Jimmy Whitworth, professor de saúde pública internacional da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSTMH, na sigla em inglês), especializado em doenças infecciosas, epidemiologia e saúde pública, explica que a varíola dos macacos circula por uma vasta área da Nigéria e de outros países da África Ocidental e Central há vários anos. Segundo ele, os casos relatados no Reino Unido e nos Estados Unidos representam viajantes internacionais que haviam sido expostos à varíola dos macacos e estavam incubando a infecção quando viajavam. “Normalmente, a transmissão pessoa-a-pessoa é limitada, mas neste surto parece ser extensa, talvez porque tenha ocorrido em uma comunidade com muito contato próximo e mudança de parceiros”, completa.

O Dr. Whitworth lembra que a vacinação em massa com a vacina contra a varíola foi interrompida na década de 1980 e acredita-se que isso tenha permitido que os casos de varíola dos macacos na população humana aumentassem nas décadas seguintes. Ainda segundo ele, a vacinação proporciona uma boa proteção cruzada contra a varíola dos macacos, contudo, é provável que o número de casos confirmados continue a aumentar por algum tempo. “Isso ocorre porque as cadeias de transmissão ainda não foram totalmente descobertas, o que significa que a transmissão comunitária não detectada ainda está ocorrendo. Geralmente é uma doença muito óbvia, então esperamos que os casos sejam relatados aos sistemas de saúde”, destaca.

Entretanto, apesar de haver preocupações crescentes sobre a disseminação geográfica e o ressurgimento da varíola dos macacos, a doença parece ter assumido relevância apenas após ter acometido os países ricos. Indagado sobre a razão disso e se vivemos em dois (ou mais) mundos distintos, o professor da LSTMH justifica que as autoridades de saúde pública geralmente estão mais interessadas em doenças que ocorrem em seu país. “Isso é natural, e imagino que as autoridades sanitárias brasileiras não tenham, até recentemente, tido muito interesse na varíola dos macacos porque ela não ocorre dentro do País e ainda não foi importada. Mas entendo que existem muitas doenças tropicais negligenciadas precisamente porque elas não representam uma ameaça para os países ricos ocidentais. Esta é uma das razões pelas quais o apoio multilateral a agências como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo Mundial para a AIDS, tuberculose e malária é tão importante”, conclui o Dr. Whitworth.

Virologistas em alerta

A varíola dos macacos deixou os virologistas em alerta, embora cause doenças menos graves. Em meio às ameaças pandêmicas, a sua importância não deve ser subestimada. Para garantir a preparação global no caso de ressurgimento da varíola, novas vacinas, diagnósticos e agentes antivirais estão sendo desenvolvidos. Estes também podem ser úteis para a prevenção e controle da varíola dos macacos.

Em entrevista publicada no O Globo, a virologista Dra. Clarissa Damaso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Comitê Assessor para a Pesquisa da Varíola da OMS, detalhou que o vírus da varíola é considerado uma arma biológica e que por razões de biodefesa a vacina ainda existe e há estoques de segurança. Também informou que recentemente foi aprovada nos Estados Unidos e na Europa uma vacina mais moderna, que não forma pústula, feita com um vírus vaccínia mais atenuado, o BN-MVA, que não se replica em seres humanos, com indicação para militares e pessoas que pesquisam vírus Pox. Em relação ao tratamento, a especialista disse que há dois novos medicamentos antivirais, também desenvolvidos para biodefesa em militares e pesquisadores de vírus Pox. Eles foram aprovados em 2019 e 2021 nos EUA, e, se necessário, podem ser produzidos em quantidade, assim como a vacina.

Antiviral pode tratar varíola dos macacos

Um estudo publicado na revista The Lancet intitulado Clinical features and management of human monkeypox: a retrospective observational study in the UK demonstrou a redução de sintomas e do tempo de contágio da doença em um paciente tratado com um antiviral tecovirimat. O medicamento é o primeiro com indicação para o tratamento da varíola comum.

O Dr. Hugh Adler, pesquisador da Universidade de Liverpool e um dos autores do estudo, disse, em um comunicado à imprensa, que a pesquisa oferece alguns dos primeiros insights relacionados ao uso de antivirais para o tratamento da doença, os quais podem ser bastante úteis no combate à enfermidade. A falta de conhecimentos mais aprofundados sobre a doença foi um obstáculo enfrentado pela equipe britânica.

Além da varíola dos macacos, a varíola humana, que apresenta desafios únicos, também requer estudos prospectivos de antivirais urgentes. Enquanto a varíola não ocorre mais naturalmente, o setor de saúde global permanece vigilante no caso de reaparecer por meio de mecanismos naturais, acidente de laboratório ou liberação deliberada.

Saiba mais

Surtos de Ortopoxírus zoonótico já ocorreram diversas vezes em todo o mundo, incluindo varíola dos macacos na África e nos Estados Unidos, varíola das vacas na Europa, varíola dos camelos no Oriente Médio e na Índia, varíola dos búfalos na Índia, vaccinia na América do Sul e novas infecções emergentes por Ortopoxírus nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América do Sul.

O vírus da varíola dos macacos é um vírus de DNA de cadeia dupla envelopado que pertence ao gênero Orthopoxvirus da família Poxviridae. Existem dois clades genéticos distintos do vírus da varíola dos macacos: o clade da África Central (Bacia do Congo) e o clade da África Ocidental. O clade da Bacia do Congo causou historicamente doenças mais graves e foi considerado mais transmissível. A divisão geográfica entre os dois clades têm sido, até agora, nos Camarões, o único país onde ambos os clades de vírus foram encontrados.

A varíola dos macacos é uma doença de importância global para a saúde pública, uma vez que afeta não só os países da África Ocidental e Central, mas também o resto do mundo. Em 2003, o primeiro surto de varíola dos macacos fora da África foi nos Estados Unidos e foi ligado ao contato com cães de pradaria de estimação infectados. Estes animais tinham sido alojados com ratos de bolso gambianos e arganazes que haviam sido importados para o país a partir de Gana. Este surto causou mais de 70 casos de varíola dos macacos nos EUA. A doença também foi relatada em viajantes da Nigéria a Israel em setembro de 2018, ao Reino Unido em setembro de 2018, dezembro de 2019, maio de 2021 e maio de 2022, a Singapura em maio de 2019, e aos Estados Unidos em julho e novembro de 2021. Em maio de 2022, vários casos de varíola dos macacos foram identificados em países não endêmicos. Atualmente, estudos estão em andamento para entender melhor a epidemiologia, as fontes de infecção e os padrões de transmissão.

Os cuidados clínicos para a varíola dos macacos devem ser totalmente otimizados para aliviar os sintomas, controlar as complicações e prevenir sequelas a longo prazo. Os pacientes devem receber fluidos e alimentos para manter o estado nutricional adequado. Infecções bacterianas secundárias devem ser tratadas conforme indicação. Um agente antiviral conhecido como tecovirimat que foi desenvolvido para combater a varíola foi licenciado em 2022 pela Associação Médica Europeia para varíola dos macacos baseado em dados animais e estudos em humanos. Ainda não está amplamente disponível. Se utilizado para tratamento, o tecovirimat deve ser monitorado em um ambiente de pesquisa clínica com coleta prospectiva de dados.

Links para consultas

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/monkeypox

https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/transmission.html

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34563454/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35148313/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34662033/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33012864/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7463189/#:~:text=Monkeypox%20could%20therefore%20emerge%20as%20the%20most%20important%20orthopoxvirus%20infection%20in%20humans.&text=We%20use%20mathematical%20modelling%20to,of%20monkeypox%20will%20continue%20increasing.

https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/monkeypox—united-kingdom-of-great-britain-and-northern-ireland-ex-nigeria

https://www.cdc.gov/media/releases/2021/s0716-confirm-monkeypox.html

https://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/An%20Update%20of%20Monkeypox%20Outbreak%20in%20Nigeria_210521_21.pdf

https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/monkeypox—united-kingdom-of-great-britain-and-northern-ireland