Varíola dos macacos: OMS acende sinal de alerta

Publicação: 8 de agosto de 2022

Contato sexual é uma via de transmissão, mas não é a única. A doença pode acometer pessoas de qualquer gênero ou sexualidade

Desde o dia 6 de maio, o mundo tem lidado com um surto global da doença, que começou na Europa

Enquanto o surto da varíola dos macacos se espalha rapidamente pelo mundo através de novos modos de transmissão, sobre os quais a ciência ainda sabe muito pouco, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a doença como emergência pública de preocupação global, em 23 de julho. “Embora eu esteja declarando uma emergência de saúde pública de interesse internacional, no momento este é um surto concentrado entre homens que fazem sexo com homens, especialmente aqueles com múltiplos parceiros sexuais”, disse o diretor-geral Tedros Adhanom, em entrevista coletiva em Genebra, ao acrescentar que o estigma e a discriminação podem ser tão perigosos quanto qualquer vírus. A chefe de epidemias e epidemiologia do Wellcome Trust, da Grã-Bretanha, Josie Golding, disse que o mundo enfrenta um duplo desafio: uma doença endêmica na África que foi negligenciada por décadas e um novo surto que afeta comunidades marginalizadas.“Os governos devem levar isso mais a sério e trabalhar juntos internacionalmente para controlar esse surto”, completou.

Mas afinal, o que os pesquisadores descobriram até agora sobre a transmissão? Uma equipe do Instituto Spallanzani de Roma, hospital e centro de pesquisa de doenças infecciosas, revelou pela primeira vez evidências do vírus no sêmen em quatro pacientes na Itália, no artigo intitulado Epidemiological, clinical and virological characteristics of four cases of monkeypox support transmission through sexual contact. Os primeiros resultados sugerem que o esperma pode ser um veículo para a infecção. Na Espanha, pesquisadores também descobriram altas cargas virais no sêmen, urina, saliva e outras amostras. A pesquisa Frequent detection of monkeypox virus DNA in saliva, semen, and other clinical samples from 12 patients  examinou 147 amostras clínicas de diferentes regiões, coletadas em 12 pacientes infectados, em diferentes momentos da infecção.

Embora a OMS não considere esse vírus como uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), as clínicas que tratam esse tipo de infecção nos Estados Unidos, as quais já lutam para conter um aumento explosivo de sífilis e gonorreia, por exemplo, agora se encontram na linha de frente na luta para controlar o surto de varíola dos macacos, que cresce rapidamente. David Harvey, diretor executivo da Coalizão Nacional de Diretores de DST (NCSD) explica que a varíola dos macacos não é tecnicamente uma IST, embora, com base em pesquisas em andamento, possa ser classificada como tal. “Estamos nos referindo à doença como uma ‘infecção sexualmente associada’ porque é transmitida através de um contato muito próximo, incluindo sexo, e parece se espalhar durante a atividade sexual”, acrescenta. Como a doença causa bolhas ou espinhas nos genitais, muitos pacientes procuram atendimento para o que parece ser herpes, sífilis ou outra IST. “As clínicas de IST estão severamente subfinanciadas nos Estados Unidos, mas se tornaram os pontos de atendimento na linha de frente neste surto. “Elas sabem identificar infecções comuns e sabem como abordar essas questões de forma não estigmatizante. Infelizmente, muitos pacientes estão recorrendo a profissionais de saúde que não têm o mesmo nível de experiência ou competência cultural que os clínicos que se concentram em ISTs, e alguns estão tendo experiências horríveis ao buscar testes ou tratamentos”, destaca.

Harvey atenta que foi solicitado ao governo dos Estados Unidos um financiamento imediato de US$ 100 milhões, incluindo US$ 30 milhões para clínicas de ISTs, para ajudar os sistemas a responder à varíola dos macacos. “A América já tem uma epidemia de ISTs mais comuns, como sífilis, gonorreia e clamídia, e essas epidemias estão sendo deixadas sem vigilância enquanto a nação também lida com esse último surto. Precisamos com urgência que o governo aja para interromper esse surto e nos ajude a controlar as epidemias existentes. Nosso sistema de saúde pública não pode suportar a pressão de mais uma epidemia sem mais recursos”, conclui. Especialistas em doenças infecciosas e defensores da saúde pública dos Estados Unidos dizem que a resposta à varíola dos macacos reflete as piores partes dos primeiros dias da pandemia da Covid-19, com testes severamente limitados e lento lançamento de vacinas que levam a um vírus que se espalha sem ser detectado.

No Brasil, a situação parece pior. O infectologista Dr. Marcelo Daher, responsável pelo programa municipal de DST/AIDS e hepatites virais em Anápolis (GO), reconhece que pode haver a subnotificação dos casos, tendo em vista a demora na realização dos testes laboratoriais que estão com alta demanda. “A média de tempo para o resultado de exames diagnósticos aqui em Anápolis é de dez dias (improvável que o paciente fique isolado por todo esse tempo). Já na rede privada, temos o resultado em 24 horas”, enfatiza. Para ele, é preciso desburocratizar a coleta dos exames e fazê-los de forma rápida, bem como agilizar os resultados. Em relação às vacinas, o infectologista é categórico ao afirmar que o problema é tê-las, mas é urgente o Brasil negociar a compra, pelo menos para que o País entre na fila de espera. “Por exemplo, Portugal e Espanha já estão vacinando, principalmente os homens que fazem sexo com outros homens. Além disso, o governo deveria negociar medicamentos (tecovirimat, brincidofovir, cidofovir), os quais não temos disponível hoje”, defende. Por fim, o Dr. Daher aconselha que os pacientes não tenham receio de procurar atendimento médico, pois quanto antes for feito o diagnóstico, melhor.

O Ministério da Saúde disse em nota que o controle da varíola dos macacos é prioridade para a pasta, que realiza o constante monitoramento e analisa diuturnamente a situação epidemiológica para orientar as ações de vigilância e resposta à doença no Brasil. Ainda segundo o MS, os testes para diagnóstico estão disponíveis para toda a população que se enquadre na definição de casos suspeitos, sendo atualmente realizados em quatro laboratórios de referência no País. O ministro Marcelo Queiroga, informou que o governo federal já negocia a compra do imunizante por meio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Entretanto, em reportagem veiculada na Folha de São Paulo, o infectologista David Uip, secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Governo do Estado de São Paulo, lembrou que há uma disputa acirrada no mundo todo pela vacina e que ela não deve chegar ao Brasil a curto prazo. Ele também citou que ações contra o estigma e o preconceito que podem cercar a doença, já que a maior prevalência tem sido maior entre homens que fazem sexo com homens, são importantes.

A varíola dos macacos pode contaminar pessoas de qualquer gênero ou sexualidade, embora os casos recentes provoquem lesões em órgãos genitais, na região perianal e vaginal, entende-se que contato sexual é uma via de transmissão, mas não é a única. Se as cadeias de transmissão da doença não forem quebradas, eventualmente a doença vai se espalhar para outros segmentos da população. O surto começou em homens que fazem sexo com homens, mas não está restrito a eles. Apesar da maior incidência ser neste grupo, algumas mulheres já estão infectadas (https://globalnews.ca/news/8990360/1st-female-monkeypox-case-ontario/ e

https://medicalxpress.com/news/2022-06-france-monkeypox-woman-infected.html). Além delas, os Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos declarou duas crianças infectadas – uma na Califórnia e uma residente não americana, mas que foi testada na área de Washington DC. Os primeiros casos nesse público foram relatados à medida que a epidemia toma um novo rumo. Ainda de acordo com as autoridades de saúde local, crianças com menos de oito anos correm maior risco de varíola símia grave.

Cientistas pressionam por nomenclatura não discriminatória

Em um artigo publicado no portal Virological, em 10 de junho, intitulado Urgent need for a non-discriminatory and non-stigmatizing nomenclature for monkeypox virus, um grupo de 30 cientistas de 11 países solicitou a mudança de nomenclatura para se referir à varíola dos macacos. Segundo eles, além da terminologia utilizada para a doença, também há problemas quanto a algumas referências ao continente africano e seus países, consideradas incorretas, discriminatórias e estigmatizantes. Para o grupo, ao levar em consideração que desde maio uma nova versão do vírus circula pelo mundo, a denominação deveria ser apenas hMPXV (h por humano). Eles observaram que a cepa circulante nos 32 países fora da África é, provavelmente, diferente do vírus encontrado em animais. Outra defesa sugerida é quanto ao nome das variantes do vírus, que são associadas à África Ocidental (West clade), e à África Central na região do Congo (Congo clade). A proposta é que seja adotado “Cepa 1”, no lugar de Congo clade e “Cepa 2 e 3”, no lugar de West clade. As discussões sobre uma mudança do nome da doença ganharam o apoio da OMS. O objetivo não é apenas mudar o nome do vírus causador da doença, mas também de suas variantes e até mesmo da própria doença. Tedros Adhanom confirmou que o vírus será renomeado. Segundo ele, a OMS tem trabalhado com parceiros e especialistas de todo o mundo na mudança do nome do vírus e que o anúncio será feito o mais rápido possível. O Dr. Daher também manifesta total apoio à mudança da nomenclatura. “É importante que se mude, em Goiânia, por exemplo, alguns moradores mataram macacos com medo da doença”, lamenta.

Macacos não são responsáveis pelas transmissões da doença

Apesar do nome da infecção, macacos não transmitem a doença. Um comunicado emitido em junho pela Sociedade Brasileira de Primatologia e outras entidades reforçou que a transmissão não está associada aos primatas. O documento ressalta que os macacos (primatas não-humanos) não são “vilões”, e sim vítimas como nós (humanos), e não devem sofrer nenhuma retaliação, tais como agressões, mortes, afugentamento, ou quaisquer tipos de maus-tratos. “O receio de contágio por transmissão desta e de outras doenças, como a febre amarela, pela proximidade com os macacos não se justifica. Muitos microrganismos afetam a saúde de primatas humanos e não-humanos, sendo que muitas vezes os primatas adoecem antes e isto nos alerta antecipadamente sobre a presença de uma doença que pode causar impacto sobre a saúde das pessoas. Ou seja, os macacos servem como animais sentinela sobre o risco de estarmos expostos a doenças”, frisa o comunicado.

Patógeno recebeu nome de Monkeypoxvirus

Pertencente ao gênero Orthopoxvirus, que também compreende os patógenos responsáveis pelas varíolas humana e bovina, o MPXV foi descoberto em 1958, quando pesquisadores investigavam um surto infeccioso em macacos oriundos da África que estavam sendo estudados na Dinamarca. O patógeno até então desconhecido recebeu o nome de Monkeypoxvirus por ter sido encontrado em amostras desses primatas. Posteriormente, cientistas verificaram que os macacos não participavam da dinâmica da infecção como animais reservatórios do vírus e que também eram afetados pelo patógeno assim como outros mamíferos. Ainda hoje não se sabe com exatidão as espécies reservatórias do MPXV, nem como sua circulação é mantida na natureza. Segundo o Manual MSD para Profissionais de Saúde, suspeita-se que pequenos roedores de florestas tropicais da África sejam os reservatórios. Segundo a OMS, a maioria dos animais suscetíveis a este tipo de varíola são roedores, como ratos e cão-da-pradaria. Os macacos, assim como os humanos e outros animais, podem ser infectados por esses roedores e desenvolver a doença. O primeiro caso humano foi identificado em uma criança na República Democrática do Congo (RDC) em 1970.

Transmissão

A transmissão se dá principalmente pelo contato íntimo e troca de secreção entre pessoas: abraços, beijos, contato sexual, compartilhamento de objetos pessoais (toalhas e roupas de cama) e higiene pessoal (maquiagem e lâminas de barbear), talheres etc. Além disso, o vírus também pode se espalhar pelas secreções respiratórias de pessoas infectadas, menos comum. Por isso, o uso de máscara continua importante. A higiene pessoal é uma forte aliada para evitar a varíola dos macacos, assim como também para grande parte das doenças infecciosas. A velocidade da transmissão e as formas de contágio  alertam a comunidade científica. E nada impede que o vírus se torne mais forte e mais contagiante, conforme adverte o estudo publicado na Nature Medicine intitulado Phylogenomic characterization and signs of microevolution in the 2022 multi-country outbreak of monkeypox virus.

Vacina de terceira geração da farmacêutica Bavarian Nordic

O IMVANEX ® (MVA-BN ou Modified Vaccinia Ankara-Bavarian Nordic) é uma vacina não replicante contra varíola desenvolvida em colaboração com o governo dos Estados Unidos para garantir o fornecimento de uma vacina contra varíola para toda a população, incluindo indivíduos imunocomprometidos que não são recomendados vacinação com vacinas replicantes tradicionais contra a varíola. A vacina foi aprovada pela Comissão Europeia em 2013 para imunização contra a varíola em adultos com 18 anos ou mais e, posteriormente, obteve aprovações regulatórias no Canadá (comercializada como IMVAMUNE ®) e nos Estados Unidos (comercializada como JYNNEOS ®), onde as aprovações foram estendidas incluir a indicação da varíola dos macacos como a única vacina que a obteve até a data.

Surto de varíola em 2022: tendências globais

Confira o documento 2022 Monkeypox Outbreak: Global Trends, o qual fornece uma visão global gerla da situação epidemiológica da varíola, conforme relatado à OMS em 22 de julho de 2022. O relatório se concentra em casos confirmados em laboratório.