Tuberculose em crianças: novo medicamento deve simplificar e facilitar o tratamento

Publicação: 2 de outubro de 2019

Um único remédio contra essa infecção vai ser administrado aos pacientes com menos de 10 anos de idade a partir de 2020

As alterações envolvem a oferta dos mesmos medicamentos disponíveis hoje por meio de uma dose única combinada, em uma espécie de comprimido ‘3 em 1’

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada dia, cerca de 650 crianças morrem de tuberculose no mundo, sendo 80% abaixo de 5 anos de idade. Os números revelam que são mais de 237 mil crianças que morrem por ano no mundo. A administração do tratamento utilizado atualmente é um dificultador e pode levar a falhas no tratamento, pois as doses administradas em casa pelo responsável pela criança nem sempre são adequadas (pode haver erros ao cortar os comprimidos, e a biodisponibilidade dos fármacos pode ser irregular). Além disso, esta dificuldade pode fazer com que o tratamento seja interrompido, se torne irregular ou seja abandonado. Hoje o tratamento infantil, na fase mais intensa, combina três medicamentos (rifampicina 75 mg, isoniazida 50 mg e pirazinamida 150 mg). Já na fase de manutenção, são dois remédios (rifampicina 75 mg e isoniazida 50 mg). Entretanto, somente um destes fármacos, a rifampicina, está disponível atualmente em apresentação líquida. A pirazinamida, apesar de existir em solução, encontra-se em falta no momento.

Mas essa realidade está próxima a mudar. O Ministério da Saúde anunciou em setembro do corrente ano um novo tratamento para crianças com tuberculose e um único comprimido será utilizado diariamente nos primeiros dois meses da doença (fase mais intensa) e outro nos quatro meses seguintes (fase de manutenção), o que deve facilitar a administração e diminuir possíveis erros de dosagem. Além disso, o comprimido também será solúvel em água e terá sabores mais palatáveis. A expectativa é que o novo formato esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2020. De acordo com a Pasta, em 2018, ocorreram no Brasil 75 mil novos casos da doença, destes, 1.552 foram em crianças de zero a 10 anos.

A Dra. Claudete Araújo Cardoso, da área de Coordenação de Pediatria da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, explica que o tratamento em crianças é mais complexo porque no momento não se dispõe de uma dose fixa combinada dos medicamentos como se tem em adultos. “As formulações pediátricas disponíveis na atualidade apresentam uma maior complexidade na administração dos fármacos em relação aos adultos, uma vez que se necessita oferecer três tipos diferentes de medicamentos para o tratamento. Embora os fármacos sejam os mesmos, a forma de apresentação diferente torna o tratamento atual mais complexo nas crianças com menos de 10 anos de idade em relação aos adultos”, enfatiza.

Sobre a eficácia do tratamento com dose combinada que passará a ser ofertada no próximo ano, o Professor Dr. Clemax Couto Sant’Anna, também da Coordenação de Pediatria da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, garante que eles são tão eficazes quanto os atuais. “Os fármacos são os mesmos, o que houve foi a formulação em um mesmo comprimido com apresentação dispersível, isto é, os comprimidos podem ser dissolvidos em pequena quantidade de água e não precisam mais serem macerados, e têm a vantagem de serem de fácil administração e com doses adequadas para crianças”, acrescenta.

Para a Dra. Claudete é fundamental a realização de estudos de custo-efetividade e de farmacocinética da nova formulação na população pediátrica com TB ativa e TB latente no País. “Somente por meio dos resultados alcançados em tais estudos será possível avaliar o real impacto da nova formulação na terapia anti-TB em crianças de forma mais fácil e apropriada, aumentando assim as chances de sucesso do tratamento”, ressalta. A especialista também considera essencial o repasse de informação sobre a nova apresentação aos profissionais de saúde que atuam na assistência a crianças com tuberculose “Isso deveria preceder a implementação da nova formulação, a fim de que a incorporação da mesma se dê de forma apropriada e integrada.”, observa.

Antes de ser ofertado para crianças, o modelo de dose única já estava disponível para adultos desde 2010, com outras formulações e na forma de comprimido. Questionado por que foram quase dez anos para que o medicamento fosse adaptado para o público infantil, o Dr. Clemax explica que houve algumas dificuldades técnicas na produção desses fármacos pelos laboratórios interessados. “O objetivo era garantir que as formulações de comprimidos dispersíveis pudessem manter as doses de cada antimicrobiano recomendadas pela OMS. Além disso, foi necessário o movimento internacional de ativismo (advocacy) pela causa das crianças com tuberculose. Vários movimentos de sensibilização de ONGs e de organismos ligados à saúde influenciaram o pensamento dos governantes nesse sentido. A OMS enfatizou a importância da tuberculose na infância a partir de 2012 e isso contribuiu muito para hoje se ter estes comprimidos dispersíveis”, reconhece.

Dados da OMS reportam que em 2017, um milhão de crianças adoeceu no mundo com tuberculose. Todo ano, globalmente, 7,5 mil crianças abaixo de 15 anos se infectam pelo bacilo. Estas crianças estão sob o risco de desenvolver a doença em algum momento da sua vida. Os coordenadores da área pediátrica da REDE-TB acreditam que a incorporação de comprimidos dispersíveis nas doses propostas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) na Consulta Pública Nº 36 de 24/06/2019 trará significativo avanço ao tratamento da tuberculose na infância, aumentando a adesão ao tratamento.

Tuberculose mata três pessoas no mundo a cada minuto

Em relação à incidência da doença na infância, o Professor Clemax destaca que não se pode dizer que a incidência de tuberculose em crianças tem aumentado, mas sim, que não houve queda significativa, principalmente entre as de baixa idade. “A redução da incidência não foi expressiva. Vários movimentos sociais, da gestão dos serviços de saúde e dos programas de controle da tuberculose em todo o mundo vêm se empenhando nessa redução para cumprir as metas da OMS para eliminação da tuberculose até 2050”, assinala. Nesse sentido, o Brasil desenvolve o “Plano Brasil sem Tuberculose”. Na opinião da Dra. Claudete, a redução do abandono do tratamento pode ser obtida com suporte financeiro para o acesso ao serviço de saúde quando necessário, de visitas domiciliares para Tratamento Diretamente Observado (TDO) da tuberculose, além de atendimento próximo do domicílio do paciente. As consultas mensais com reforço da necessidade de adesão também contribuem para a diminuição do abandono do tratamento das crianças.

De acordo com dados da OMS, a tuberculose mata três pessoas no mundo a cada minuto. Ela é uma das dez principais causas de morte. O Brasil está entre os 30 países com maior incidência da doença. Tornar o atendimento da tuberculose na rede de saúde mais eficaz pode mudar essa situação. Mas, de acordo com a Dra. Claudete, isso só deve acontecer na medida em que se disponibilizar o tratamento em locais mais próximos à residência do paciente. Para ela, tal proximidade do domicílio proporciona uma melhor adesão ao tratamento e consequentemente um desfecho clínico de cura mais significativo. “Outra medida para melhorar a eficácia do atendimento é através das visitas domiciliares para administração do TDO, além da abordagem interdisciplinar por meio de avaliação conjunta de profissionais médicos, de enfermagem, de farmácia e de serviço social, o que proporciona sem dúvida um atendimento mais eficaz ao paciente”, conclui a especialista.

Conquistas do Brasil no combate à doença

O Brasil tem avançado nas ações contra a tuberculose. Reduziu metade dos casos e vai liderar a estratégica de luta global contra a doença nos próximos três anos. O Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, assume, ainda neste ano, a presidência do Conselho da Stop TB Partnership, organização internacional que atua para eliminar a tuberculose no mundo. A instituição é vinculada ao Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS/ONU) e conta com cerca de 1.700 representantes em mais de 100 países, incluindo governos, organizações internacionais, agências de pesquisa e financiamento, além de fundações e ONGs.

“Estamos colocando o Brasil na vanguarda da luta contra a doença, porque é um parceiro da Stop TB. Estamos levando o mundo a eliminar a tuberculose, por isso, estamos trazendo não apenas o ministro da saúde, com sua formação e liderança, mas também a experiência que o Brasil fez ao longo de tantos anos em um esforço para combater a TB e conseguir alcançar tanto em um País com uma carga tão alta”, declarou Lucica Ditiu, diretora-executiva da Stop TB.

Neste ano, o Brasil está na presidência pro tempore dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – grupo de países formado por economias emergentes. E, assim, também preside a Rede de Pesquisa em Tuberculose, criada em 2017, no âmbito do BRICS. Até o final do mandato brasileiro, o Ministério da Saúde tem como objetivo fortalecer a atuação dos pesquisadores e dos países para o avanço e desenvolvimento de iniciativas inovadoras em tuberculose. Os BRICS concentram 40% dos óbitos por tuberculose no mundo e, por isso, o empenho do bloco é fundamental para eliminação da doença como problema de saúde pública.

Em julho, durante a cerimônia de abertura do MEDTROP-PARASITO 2019, Luiz Henrique Mandetta anunciou o investimento de R$ 16 milhões para financiar o desenvolvimento de pesquisas sobre tuberculose no âmbito do Grupo Econômico BRICS. A ideia é fomentar novas intervenções, esquemas terapêuticos e medicamentos, além de novos métodos de diagnóstico e acesso ao tratamento da doença. A chamada pública será lançada no final do ano e deve contemplar instituições brasileiras que atuarão em parceria com, pelo menos, outros dois pesquisadores dos países do bloco. Os resultados da iniciativa brasileira podem contribuir para intervenções nos sistemas de saúde dos BRICS.