Sífilis: estudo genético revela que doença está de volta

Publicação: 8 de janeiro de 2022

Maior e mais abrangente estudo dos genomas da sífilis até hoje mapeou o recente ressurgimento da doença em todo o mundo

Análise detalhada das linhagens fornece informações sobre a diversidade genética da doença, que pode implicar em projeto de vacinas e resistência antimicrobiana

A incidência da sífilis, doença silenciosa e de caráter sistêmico, diminuiu durante as décadas de 1980 e 1990, em parte devido a práticas sexuais mais seguras na esteira da epidemia de HIV / Aids. Entretanto, o mundo acompanha o retorno da doença, que segue provocando morbidade e mortalidade. Na última década, o aumento da incidência pode estar ligada ao comportamento sexual irrestrito com contato desprotegido entre múltiplos parceiros, inclusive do mesmo sexo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a sífilis, atinge mais de 12 milhões de pessoas em todo o mundo. Os dados são preocupantes já que a presença de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) aumentam em até 18 vezes o risco de uma pessoa ser infectada pelo HIV.

Para melhor compreender a doença, pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM, na sigla em inglês), Instituto Wellcome Sanger, Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido e colaboradores mapearam o recente ressurgimento da doença em todo o mundo. “Global phylogeny of Treponema pallidum lineages reveals recent expansion and spread of contemporary syphilis” é considerado o maior e mais abrangente estudo dos genomas da sífilis até hoje e fornece dados sobre como as cepas estão se movendo ao redor do mundo. Para realizá-lo, os pesquisadores utilizaram 726 amostras de sífilis de 23 países, as quais incluíram áreas bem amostradas, como Estados Unidos e Europa Ocidental, além de regiões mal amostradas, como Ásia Central, Austrália e África.

A equipe descobriu que todas as amostras vieram de apenas duas linhagens profundamente ramificadas, Nichols e SS14. Ambas as linhagens estão circulando atualmente em 12 dos 23 países amostrados, e amostras quase idênticas estiveram presentes em 14 desses países. Também foram encontradas algumas sub-linhagens mais raras, como cepas únicas ou privadas de um único país. Embora isso possa ser esperado em locais com pouca amostragem e geograficamente distantes, como Cuba, Haiti, México e Zimbábue, a pesquisa mostrou que a maioria das sub-linhagens privadas e cepas únicas eram, na verdade, do Canadá, Reino Unido ou EUA, sugerindo que uma amostragem mais profunda em outros lugares também pode encontrar uma nova diversidade.

O Dr. Mathew Beale, do Instituto Wellcome Sanger, primeiro autor do estudo, explica que foram encontradas evidências de transmissão generalizada de cepas entre países e que a maioria das cepas de todo o mundo são extremamente semelhantes. “Isso porque compartilham uma fonte comum que data de apenas algumas décadas (final dos anos 1990 / início dos anos 2000). Embora também tenhamos sequenciado algumas cepas mais antigas, elas não estão intimamente relacionadas à sífilis atual e parece que novas cepas (linhagens) de sífilis substituíram as mais antigas”, ressalta. Ainda segundo o pesquisador, as linhagens de sífilis dominantes que infectavam pacientes antes de 1983 não são as mesmas que infectam hoje. “Nossa análise mostra um gargalo populacional ocorrido no final da década de 1990 que indica um grande declínio no tamanho da população de T. pallidum, provavelmente como resultado da crise de HIV / Aids”, destaca. Para ele, isso acende um alerta do ponto de vista da saúde pública. “O preocupante é que a presença de amostras quase idênticas em vários países sugere que a doença está sendo transmitida internacionalmente de forma regular. A sífilis está de volta e é global”, atenta o Dr. Beale.

Questionado sobre o que as amostras revelam sobre a origem da epidemia de sífilis e sobre o ressurgimento da doença, o pesquisador diz que a atual pandemia da doença parece estar ligada a certas cepas (sublinhas) que surgiram durante a década de 1990 e no início dos anos 2000 e, desde então, se disseminaram pelo mundo. “As linhagens que se espalharam por muitos países em nossa análise também tendem a ser resistentes a antibióticos como a azitromicina – medicamentos macrolídeos. Não está claro se este é o motivo da disseminação – a resistência aos macrolídeos pode permitir que uma bactéria em particular sobreviva ao tratamento e continue a se transmitir e se espalhar, mas também é possível que as cepas já estivessem se espalhando amplamente de qualquer maneira, e por causa disso, muito provavelmente, podem ter sido expostas a antibióticos”, aponta.

Além disso, o pesquisador lembra que houve uma grande mudança de comportamento nas últimas décadas, em termos de como as pessoas encontram parceiros sexuais. O aumento de aplicativos de namoro, chemsex (se refere ao sexo sob influência de drogas psicoativas, prática que vem se popularizando nos últimos anos) e outros fatores podem ter contribuído para o aumento de muitas IST, incluindo sífilis. “Muitas dessas infecções podem ser difíceis de detectar e diagnosticar, incluindo a sífilis. Elas são sempre difíceis de erradicar, porque dependem do comportamento humano e, claro, as pessoas continuam a fazer sexo. Mensagens de sexo seguro, uso de proteção, testes regulares etc podem ajudar. Sabemos que a crise do HIV nas décadas de 1980 e 1990 levou a uma mudança de comportamento, e postulamos que isso estava relacionado ao declínio das taxas de sífilis que ocorria em todo o mundo naquela época. Com o desenvolvimento de tratamentos eficazes para o HIV, e o fato de talvez as pessoas terem perdido o medo, tudo isso combinado com o impacto dos aplicativos de namoro e da mídia social, pode ter levado ao atual aumento de IST”, conclui o Dr. Beale.

O estudo é um recurso valioso para a compreensão da diversidade genética do T. pallidum que pode ter implicações para o desenvolvimento de vacinas e resistência aos medicamentos. Além disso, o estudo é importante ao mostrar a associação com o aumento da sífilis congênita, que decorre do aumento do número geral de casos. Uma limitação do estudo é o número muito limitado de amostras de certas partes do mundo, incluindo a América Latina. Não há genomas disponíveis atualmente no Brasil e por isso a equipe está em busca de laboratórios no Brasil ou países vizinhos que tenham interesse em colaborar com a genômica da sífilis.

Brasil: Casos de sífilis aumentam 16 vezes em 11 anos

Um total de 64.301 casos de sífilis adquirida foram registrados no Brasil somente no primeiro semestre de 2021, segundo o recente Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. O número é 16 vezes maior do que em todo o ano de 2010, quando 3.936 pessoas foram diagnosticadas com a doença. Os homens representam mais de 62.8 % dos casos. O Sudeste representa 45,1% dos casos, em seguida o Sul, com 22,3%, Nordeste com 16,5%, Norte com 8,4% e, por último, o Centro-Oeste com 7,6%. Neste período, 27.213 mulheres tiveram sífilis durante a gravidez, a maior parte tinha entre 20 e 29 anos. Nestes seis primeiros meses, um total de 10.968 crianças com menos de um ano de idade tiveram sífilis congênita, sendo que quase todas (96,2%) receberam o diagnóstico positivo para a doença com até uma semana de vida.

Ainda de acordo com o Boletim Epidemiológico da doença, no ano de 2020 foram registrados 115.371 casos de sífilis adquirida, 61.441 de sífilis em gestantes e 22.065 de sífilis congênita com 186 óbitos. O documento aponta que 38,8% das notificações de sífilis adquirida ocorreram em indivíduos entre 20 e 29 anos, e 56,4% das gestantes também tinham essa idade. Além disso, 56,4% das crianças que nasceram com sífilis congênita vieram de mães com idade entre 20 e 29 anos.

Segundo o Boletim, é possível observar que no ano de 2020, comparado ao ano de 2019, houve redução de todas as taxas: 26,6% na taxa de detecção de sífilis adquirida, 9,4% na taxa de incidência de sífilis congênita e 0,9% na taxa de detecção em gestantes. A redução no número de casos pode decorrer de uma subnotificação dos casos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) devido à mobilização local dos profissionais de saúde ocasionada pela pandemia.

A sífilis tem cura e o tratamento é simples, por meio de uma a três doses de penicilina, dependendo da fase da doença, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). Quando não é tratada, a bactéria permanece no organismo e a doença evolui para os estágios de sífilis secundária (quando podem ocorrer manchas, pápulas e outras lesões no corpo, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés, além de febre, mal-estar, dor de cabeça e ínguas) ou então sífilis latente (fase assintomática, quando não aparece mais nenhum sinal ou sintoma). Após o período de latência, que dura de dois a 40 anos, a doença evolui para a sífilis terciária, uma condição grave que leva à disfunção de vários órgãos e pode provocar a morte do paciente. Costuma apresentar lesões ulceradas na pele, além de complicações ósseas, cardiovasculares e neurológicas.