Seis décadas dedicadas ao estudo de doenças nos trópicos

Publicação: 11 de setembro de 2014

SBMT entrevista um dos principais contribuintes nos estudos de patologias como esquistossomose, Chagas e calazar

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Ao longo de sua carreira, foi ainda autor de 34 capítulos de livros, 14 dos quais publicados no exterior e editor de quatro livros publicados no Brasil

O principal homenageado na abertura do 50º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2014), que ocorreu no final de agosto em Rio Branco (AC), foi um dos maiores contribuintes na área de patologia no Brasil, doutor Zilton de Araújo Andrade, que estudou doenças como esquistossomose, Chagas e calazar (leishmaniose visceral). Ele foi o vencedor do Prêmio Pesquisador Sênior da SBMT – uma honraria, aliás, que ele faz questão de dividir com outra grande cientista brasileira, a sua esposa doutora Sônia Gomes Andrade, com quem trabalha em pesquisas há seis décadas. Aliás, esta entrevista conta com a participação de ambos, devidamente creditados nas respostas. Ainda hoje, aos 90 anos, o Dr. Zilton contribui na formação de alunos e professores.

Ao longo de sua carreira, foi ainda autor de 34 capítulos de livros, 14 dos quais publicados no exterior e editor de quatro livros publicados no Brasil. Seus numerosos trabalhos científicos resultaram em conceitos que norteiam o conhecimento de moléstias tropicais de grande relevância para o País. Destacam-se as questões referentes à progressão e regressão da fibrose hepática e da angiogênese, inicialmente estudadas na esquistossomose mansônica e atualmente aplicadas a outras entidades nosológicas.

SBMT: Nesses 64 anos de trabalho acadêmico, quais foram as principais contribuições dadas à ciência?

Dr. Zilton: Sempre foi na área de doenças tropicais. No Hospital Edgar Santos, em que trabalhei, via casos de indivíduos com mielorradiculopatia esquistossomótica, que é uma forma grave da esquistossomose (infecção causada pelo S. mansoni e que afeta muitos indivíduos no Nordeste brasileiro. Isso me chamava a atenção porque era uma doença muito disseminada no estado da Bahia. As formas graves, felizmente eram relativamente raras. O meu interesse pela doença me fez ganhar uma bolsa de estudos para passar um ano, em 1961, no Mount Sinai Hospital (New York City, USA), onde trabalhei durante um ano sob a orientação do famoso hepatologista Dr. Hans Popper. Aí pude fazer uma investigação quanto à patologia do fígado, principal órgão afetado pela esquistossomose  de Manson, o que me possibilitou os estudos, sobretudo das alterações vasculares que a enfermidade causa no órgão. Outra enfermidade parasitária que me chamou muito a atenção foi a doença de Chagas, devido à sua alta frequência entre os casos de autópsias no Hospital Universitário. Estes casos foram minuciosamente estudados na sua patologia trazendo importantes informações sobre esta doença. Este trabalho foi feito em colaboração com a minha esposa Sonia G. Andrade em um dos primeiros números no boletim da Fundação Gonçalo Moniz – instituição que hoje faz parte da Fundação Oswaldo Cruz.

SBMT: Quais foram as linhas de pesquisa quanto à doença de Chagas?

Dr. Zilton: A sistematização das lesões que ocorriam nos indivíduos infectados, o que já havia sido estudado por Carlos Chagas. Mas houve a possibilidade de esclarecer e acrescentar novos dados a antigos problemas. Esses trabalhos foram em auxílio ao grande conhecimento que já vinha se formando sobre a patologia da doença de Chagas.

Drª. Sônia: Acrescentaria ao que você disse o fato de que esses casos humanos foram estudados em pacientes internados em um Hospital Universitário com todas as manifestações clínicas bem estudadas e registradas, com informações sobre se os pacientes tinham sido tratados ou não. Ou seja, uma grande contribuição no sentido de interpretar a doença e de sua evolução, até o óbito. Ou nos casos cirúrgicos, se poderia também interpretar lesões que não levavam à morte, mas a cirurgia mostrava a patologia que estava ali envolvida, o porquê da pessoa estar doente. Muita gente pensa que essa é só doença do coração, mas na realidade ela afeta outros importantes setores do organismo, como o tubo digestivo (megas) e o tecido nervoso central e periférico.

SBMT: Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Dr. Zilton: Foi quando trabalhávamos no Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia e estudávamos esses casos em mesas de autópsia. Fazíamos sessões anátomo-clínicas com os estudantes, discutíamos muitos aspectos e tivemos a oportunidade de contribuir para esclarecer vários assuntos, acentuar os conhecimentos de outros temas relativos à patogenia e às lesões causadas nos órgãos por doenças, como calazar, doença de Chagas e esquistossomose.

SBMT: Qual foi a sua linha de trabalho em relação ao calazar?

Dr. Zilton: Foi um período onde ocorreram descobertas de muitos casos clínicos de uma hora para a outra. Era uma doença a qual, na época, ninguém se referia – era coisa do passado. Sabia-se que existia, mas em locais como a Grécia, a Itália e a Síria. Mas os registros apareceram e foi identificada uma patologia importante para os brasileiros. Então várias pessoas começaram a se dedicar ao problema. Gostaria de acrescentar que o pioneiro destes estudos na época foi o doutor Aluizio Prata, que começou a estudar essa doença na Bahia com a colaboração de outros cientistas. Ele me dizia: “Tem que estudar o calazar, é importante também”. E foi aí que comecei a me interessar pelo tema. O Dr. Prata me estimulou para que eu fizesse uma Tese de Livre Docência diretamente sobre os estudos que fizemos relacionados com o calazar. A contribuição brasileira foi muito grande, pois ocorreu em uma época em que muitos estudos sobre essa enfermidade foram publicados por diferentes pesquisadores brasileiros.

SBMT: Atualmente, o que o senhor acha que precisa melhorar nos estudos das doenças tropicais?

Dr. Zilton: Os brasileiros têm produzido pesquisas muito interessantes sobre essas enfermidades. Há um estímulo geral e acho que os avanços agora dependem das ações de governo, para tomar medidas preventivas a partir da base científica produzida pelos pioneiros. Base essa que hoje permite aos patologistas e parasitologistas fazerem estudos para ter excelente material de discussão com os seus alunos.

SBMT: Mesmo aposentado, o senhor continua atuante no meio científico?

Dr. Zilton: O meu papel principal hoje está na formação de professores e de pesquisadores por meio de cursos de pós-graduação. Hoje em dia, essas atividades são desenvolvidas em um ritmo muito menor, mas ainda são bem estimulantes para mim.…