SBMT realiza webinários para discutir COVID-19 e doenças tropicais

Publicação: 8 de julho de 2020

Na quarta-feira, dia 22 de julho, será realizado o quarto webinar

O terceiro episódio de Trópicos Quentes falou sobre tuberculose, outras doenças respiratórias e arboviroses

Trópicos Quentes“, este é o nome do programa exibido a cada quinze dias pelos canais oficiais da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) que aborda tópicos de interesse da comunidade de Medicina Tropical, particularmente, nesse momento, a interface Medicina Tropical e a pandemia de COVID no Brasil. A proposta é abrir um espaço para discussão sobre o impacto desta pandemia no atendimento da população em diversos níveis de atendimento, enfatizando a importância do diagnóstico e o impacto em outras doenças, em condições tropicais, bem como a situação das doenças tropicais negligenciadas em tempos de pandemia.

No primeiro episódio, “Manejo Clínico do COVID-19 na atenção primária“, exibido no dia 10 de junho, o Dr. Humberto Sauro Machado, médico de família e comunidade clínica da família Zilda Arns – Complexo de favelas do Alemão, relatou a experiência em relação ao enfrentamento da pandemia de COVID-19 em sua Unidade Básica de Saúde (UBS) com foco no manejo clínico, com interface com a vigilância epidemiológica, articulação comunitária e reorganização dos fluxos em sua UBS. Esta unidade é composta por 14 equipes, cada uma com 3.300 usuários cadastrados, totalizando 45 mil pessoas atendidas. Na contextualização da da atuação da APS no atendimento de pacientes com suspeita de COVID-19, o Dr. Machado fez uma breve narrativa de um paciente atendido com síndrome gripal e que posteriormente apresentou síndrome respiratória aguda grave, sendo atendido na mesma UBS e encaminhado a unidade de internação. Após alta da internação o paciente apresentou quadro neurológico sendo diagnosticado Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico. Essa narrativa demonstra a importância da capacitação da atenção primária à saúde no atendimento inicial de pacientes com COVID-19, corroborando a atribuição da atenção primária em saúde, a longitudinalidade, durante todo o itinerário do paciente, desde a abertura do seu quadro gripal até uma complicação grave e por fim a sua reabilitação e a abordagem das sequelas.

O Dr. Kleber Luz, médico infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), destacou a importância da atenção primária no atendimento da COVID-19, pois para grande parcela da população e dos profissionais de saúde, esta doença é considerada de atendimento secundário e terciário, e como sendo uma doença de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O professor Luz lembrou que anterior ao atendimento em UTI, um percentual elevado de pacientes é atendido inicialmente em unidades de atenção primária à saúde. Para os médicos que atuam na atenção básica, o professor Luz chama atenção para a patogenia e fisiopatologia da COVID-19, atentando para o entendimento das diferentes fases clínicas da doença, o que de sobremaneira contribui para uma melhor compreensão da doença e do manejo clínico dos pacientes. O professor explicou que quando se fala em fases em doenças tropicais ou infecciosas, essas se referem a fases clínicas e não de fases de patogenia ou de fisiopatologia da doença. Esse imbróglio nesta diferenciação pode gerar confusão na equipe médica que atende pacientes com COVID ou com suspeita. Segundo ele, um paciente infectado pode apresentar manifestação grave da doença nos primeiros dias por uma descompensação causada, por comorbidades preexistentes, tal como diabetes, cardiopatia. Ou seja, não necessariamente, o fato do paciente estar na fase de viremia significa que ele esteja bem, e, não necessariamente, o fato de estar no 14º dia da doença significa que seja grave, pois pode haver manifestação de gravidade já no período inicial da doença, que corresponde ao período virêmico.

O webinar teve como debatedores o Dr. Angelo Lindoso e a Dra. Dorcas Costa, sob a moderação do Dr. Guilherme Werneck. Durante uma hora, os convidados (apresentadores e debatedores) instigaram inúmeras perguntas dos internautas: “Um paciente que apresenta IGG e IGM reagente após 40 dias do início dos sintomas, no momento assintomático. Como podemos fazer o manejo clínico do mesmo? Vocês observam, na prática, complicações tromboembólicas em pacientes co, COVID-19 sem fatores de risco? Qual o papel da anticoagulação no manejo? Qual manejo clínico para um paciente com IgG e IgM reagente após mais de 25 dias de doença? É segura a alta por critérios clínicos após 14 dias? Pacientes com RT PCR nasofaringe positiva após alta. fragmento viral ou risco de transmissão? IgG e IgM realizada após 40 dias, porém somente IgG positiva. O paciente como tomografia com 10% de comprometimento. É considerado positivo e transmissor? Esta webinar com as apresentações, debates e questões serviu para dirimir dúvidas em relação ao manuseio da COVID-19 na atenção primária à saúde.

O segundo episódio de Trópicos Quentes “Diagnóstico de COVID-19: uso clínico e inquéritos epidemiológicos”, exibido no dia 24 de junho, contou com a participação, como debatedoras, da Dra. Ester Sabino, ex-diretora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), e da Dra. Silvia Figueiredo Costa, professora associada do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os apresentadores foram o Dr. Benedito Antônio Lopes da Fonseca, professor associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e o Dr. Bernardo Lessa Horta, professor associado da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A moderação foi do Dr. Júlio Croda, infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor associado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Em uma de suas primeiras colocações, o Dr. Fonseca desmistifica que o ideal é coletar do swab para detecção do vírus a partir segundo para o terceiro dia ou a partir do terceiro. Ele ressalta que em sua experiência isso não é necessário, uma vez que o vírus é detectado desde o primeiro dia. O professor cita um trabalho publicado no The New England Journal of Medicine (NEJM) em que foi realizada a avaliação de um surto que ocorreu em uma casa de longa permanência de idosos e nele foi demonstrado que o vírus é detectável antes das pessoas apresentarem os sintomas. O Dr. Fonseca menciona ainda sua experiência em fazer o diagnóstico no dia zero. Para ele, o ponto principal é que o RT-PCR é detectável por longo período, às vezes, até por quatro semanas. O professor esclarece que fica difícil manter um paciente do isolamento se pensar apenas na detecção do RNA, até porque esse vírus é de RNA, ou seja, detectando o RNA em si não significa que tenha replicação viral e transmissão do vírus, diferente do caso das bactérias.

O Dr. Horta falou sobre os Inquéritos, que surgiram a partir da necessidade de se saber mais sobre a real carga da COVID-19 no Brasil. Ele detalhou que é sabido até agora que casos mais severos são os que costumam buscar os serviços; parte dos óbitos é diagnosticada; existe uma série de evidências indiretas de subregistros; o que o sistema oficial mostra é só uma parte do iceberg. Diante disso, ficou evidente que a realização de um inquérito soro-epidemiológico seria fundamental, até mesmo porque inquéritos similares estão sendo feitos em vários países, alguns inclusive não são de base populacional, como por exemplo, o de Nova Iorque, feito em lojas, mercados e afins. Outros foram realizados de forma rápida com pessoas em drive-thru. Já a Espanha também optou pelo inquérito com base populacional. O objetivo do inquérito brasileiro EPICOVID-19 executado pela Ufpel é saber: qual o percentual da população que já foi infectada? (já teve contato com o vírus?), como é a evolução dessa pandemia?, quando comparadas as regiões do País, quais seriam as mais afetadas?, quando há um indivíduo positivo na residência, qual a taxa de transmissão intrafamiliar?. De acordo com o professor Horta, devido à urgência do estudo utilizaram um teste rápido e não coletar sangue para o teste de Elisa que implicaria dificuldades relacionadas à logística e tempo de análise. Ainda segundo ele, a agilidade e a simultaneidade necessárias para a realização do inquérito, tanto o que serviu de base, o do Rio Grande de Sul (RS), quanto o nacional, optou-se trabalhar com cidade sentinela, conceito proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em que um sitio é escolhido como sentinela do que ocorre naquela região. No caso, foram utilizados os municípios sede das mesorregiões do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tanto no RS quanto no Brasil. Nas 133 cidades estudadas são sorteados aleatoriamente 25 setores censitários, em cada um destes setores 10 domicílios são sorteados, e destes, um morador é sorteado aleatoriamente para participar da pesquisa e este morador responde o questionário e realiza um teste rápido.

As perguntas vieram do Brasil e do exterior. Separamos algumas aqui: A produção de um quadro mais próximo possível só é conseguido com o uso dos indicadores epidemiológicos que foram alimentados com dados fidedignos. Hoje sabemos que muitas empresas testam os seus funcionários, não seria interessante que essas empresas fornecessem esses resultados para que a real situação da Covid no Brasil fosse melhor entendida? Pode haver reação cruzada nos testes rápidos, com outros virus como zika, dengue ou outros coronavirus? Levando em conta o menor percentual de positividade nos assintomáticos, a testagem em pool deve/pode ser considerada? Se dois resultados negativos consecutivos de PCR devem ser obtidos para alta de um paciente com COVID-19, sabendo que o RNA pode persistir por 6 semanas, mesmo sem indicar infecciosidade? Como se pode explicar indivíduos com PCR positivo por mais de 50 dias. Porque esse paciente ainda possui RNA viral? Estudos recentes (China e Itália) mostraram maior prevalência de IGA comparado a IGG e IGM, quais principais diferenças destes anticorpos? Um dos tratamentos para pacientes graves é a transfusão de soro/plasma de convalescente. Fico me perguntando:será que estamos oferecendo “placebo-like” para estes pacientes, tendo em vista que estes anticorpos podem não ser neutralizantes? É realizado algum exame que confirme que os anticorpos dos doadores são neutralizantes?

A SBMT acredita que através dos seminários on-line, considerado um eficiente formato de conteúdo, e muito utilizado ultimamente, tenha dado mais um importante passo em sua história.

O webinário é aberto e gratuito, com acesso pelos canais da SBMT no YouTube (https://www.youtube.com/sbmttv) e Facebook (https://www.facebook.com/sbmtoficial/)

Link de acesso às lives no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=Wwl9TpoZxTc

https://www.youtube.com/watch?v=YQSd4hLYnN8

Link de acesso a live Facebook:

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