Sarampo: surto mortal propaga-se como fogo na República Democrática do Congo

Publicação: 11 de setembro de 2019

Atual epidemia de sarampo, a mais grave no país desde 2011/2012, foi oficialmente declarada pelas autoridades em 10 de junho e atinge níveis críticos

Epidemia de sarampo afeta 23 das 26 províncias e já matou quase 3 mil pessoas desde janeiro, a maioria crianças. País também sofre com surto de Ebola e crise humanitária

Um total de 2.758 pessoas, a maioria crianças, morreu desde janeiro devido a um surto de sarampo que afeta 23 das 26 províncias da República Democrática do Congo (RDC). Os números foram revelados em meados de agosto pela Organização Humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF). Com dimensões críticas, esta epidemia, declarada pelas autoridades em 10 de junho, é a mais letal desde 2011/2012. Entre janeiro e início de agosto, mais de 145 mil pessoas foram infectadas.

A RDC defronta-se ainda, desde agosto de 2018, com a epidemia de Ebola, que avança a passos largos e pode se alastrar para os países vizinhos, inclusive para Angola. O Kivu do Sul é uma das províncias mais afetadas. De acordo com o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde Congolês, em 14 de agosto, desde o início da epidemia, o acúmulo de casos é de 2.842, dos quais 2.748 confirmados e 94 prováveis. No total, ocorreram 1.905 óbitos (1.811 confirmados e 94 prováveis) e 844 pessoas se curaram.

Entretanto e com menor visibilidade, o número de vítimas de sarampo no país africano já supera a quantidade de mortos pelo Ebola, com mais de 145 mil contágios. O coordenador da equipa de emergências da MSF na RDC, Fabrizio Andriolo, ressaltou o contraste impressionante que se verifica em relação ao surto de Ebola, que atrai várias organizações e centenas de milhões de dólares em financiamento. Em seu comunicado, a Organização destacou a necessidade de arrecadar mais fundos e lamentou que, apesar da escala da epidemia, haja uma alarmante falta de esforços e de financiamento para dar resposta à crise. “Dois meses após a declaração oficial e pouco antes do início do ano letivo, a epidemia de sarampo não dá sinais de desaceleração. De fato, desde julho a epidemia se agravou, com um aumento de novos casos registrados em várias províncias. Se quisermos conter o surto, é imperativo fortalecer a resposta imediatamente”, advertiu Karel Janssens, coordenador-geral de MSF na RDC.

Os esforços de resposta às duas epidemias são comprometidos pela insegurança, em uma zona repleta de grupos armados, e pela resistência por parte da população a se proteger adequadamente. Os ataques e combates de centenas de grupos armados que convivem no nordeste da RDC já deixaram nos dois últimos anos quase 2 mil mortos, 100 vítimas de estupros em massa e mais de 3 mil pessoas sequestradas, de acordo com relatório divulgado pela ferramenta de acompanhamento Kivu Security, um projeto conjunto da Organização Não-Governamental Human Rights Watch e do Grupo de Investigação sobre o Congo (GEC) da Universidade de Nova Iorque, com 15 investigadores congoleses no terreno, que falam com a população, autoridades e a sociedade civil para documentar o que consideram “uma crise esquecida”.

Ainda segundo a ferramenta, os números, por trás da crise humanitária mais longa da África, revelam que entre 1º de junho de 2017 e 26 de junho de 2019, foram registrados 3.015 incidentes violentos, nos quais houve 6.555 vítimas só nas províncias do Kivu do Norte e Kivu do Sul, duas das mais afetadas pela violência do nordeste do país. O epicentro da violência e onde ocorreram três de cada dez incidentes é o território de Beni, no norte do Kivu do Norte, sobretudo pelos enfrentamentos entre o exército e a insurgência de ugandenses muçulmanos radicais das Forças Aliadas Democráticas (ADF).

Enquanto o Congo esquecido, que se debate com crise humanitária, com o sarampo e com o Ebola, o número de crianças órfãs ou sozinhas cresce com a mesma velocidade das epidemias e dos conflitos. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançou uma advertência em um comunicado: Cerca de quatro mil crianças ficaram órfãs ou foram deixadas desacompanhadas somente em consequência da epidemia de Ebola. Para a Organização Humanitária MSF, a menos que haja uma mobilização maciça de fundos e organizações, o surto de sarampo pode ficar ainda pior. Um futuro incerto em uma dura e triste realidade aguarda essas crianças em meio a tanta devastação provocada por doenças e violência.