Rubéola e poliomielite: doenças eliminadas voltam ameaçar o Brasil

Publicação: 11 de setembro de 2019

Em junho, a OPAS emitiu alerta epidemiológico em relação ao risco de importação e reintrodução do vírus da rubéola na Região das Américas

Argentina e Chile registraram casos de rubéola em 2019. A vacinação deve ser intensificada

O retorno do sarampo mostrou que qualquer doença eliminada ou controlada pode voltar. “O seu reaparecimento é o exemplo da vulnerabilidade para qualquer doença não erradicada, incluindo a rubéola e a poliomielite”. O alerta é do presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Dr. Juarez Cunha. Para ele, o regresso dessas doenças é um retrocesso muito grande em termos de saúde pública e de saúde coletiva. São doenças que podem ter consequências muito graves: a poliomielite pode levar à paralisia infantil e a rubéola pode levar o feto a ter sérios defeitos congênitos, como surdez, cardiopatias e problemas neurológicos.

O alerta do especialista se justifica. No final de junho, a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) emitiu um alerta epidemiológico em relação ao risco de importação e reintrodução do vírus da rubéola na Região das Américas. A Organização pediu para que os Estados Membros fortaleçam a vigilância e intensifiquem as atividades de vacinação para alcançar níveis de cobertura acima de 95% em todas as crianças com menos de 5 anos e que também respondam rapidamente aos casos importados. De acordo com o documento, os últimos casos de rubéola no Brasil foram registrados em 2009. No entanto, em 2019, a Argentina e o Chile apresentaram casos confirmados da doença.

O Dr. Juarez Cunha explica que o alerta tem como objetivo chamar a atenção das pessoas que coordenam os programas de imunização e dos governos de toda América para uma doença que está eliminada, mas que tem grande possibilidade de retornar. “É um alerta para que se adotem as medidas necessárias para aumentar a cobertura vacinal, a melhor e a única forma de manter essa situação de eliminação da doença em todo o continente”, acrescenta ao ressaltar que todos os municípios brasileiros são considerados lugares de risco para essas doenças. “As coberturas vacinais têm diminuído nos últimos anos e, desde 2018, o Ministério da Saúde começou a chamar a atenção da comunidade científica e da população para os riscos que corremos.

Já a preocupação com a poliomielite se dá porque houve registro da doença na Venezuela e a circulação do vírus em 23 países nos últimos três anos. Os casos de poliovírus selvagem diminuíram em mais de 99% desde 1988, quando foram estimados 350 mil casos em mais de 125 países endêmicos. Em 2018, foram notificados 29 casos e, em 2017, 22 casos. De acordo com a OMS, a erradicação da pólio exige altas coberturas vacinais em todo o mundo para que se consiga bloquear a transmissão do vírus, extremamente contagioso. Infelizmente, algumas crianças permanecem sem acesso às doses adequadas por motivos diversos, incluindo falta de infraestrutura, localidades remotas, migração, conflitos, insegurança e resistência à vacinação.

No Brasil, não existem casos de circulação do vírus desde 1990, situação que se encontra ameaçada com a queda da cobertura vacinal em todo o País. No ano passado, o Ministério da Saúde emitiu um alerta para a baixa vacinação: 312 cidades não vacinaram nem metade das crianças com menos de 1 ano em 2017. Até a erradicação da poliomielite, foram registrados 26.827 casos entre 1968 e 1989. Os anos 70 registraram a maior parte. Houve um pico em 1975, com 3.596 registros. Em 1979 também foram notificados vários casos, 2.564. Segundo o Datasus, as vacinas contra poliomielite não alcançam a meta de vacinação no Brasil desde 2011. Em 2016, os municípios tiveram menor taxa de vacinação: apenas 43,1% das cidades atingiram a meta.

De acordo com o presidente da SBIm, a forma de lidar com surtos que temos visto nos países vizinhos é aumentar as nossas coberturas vacinais. “Todas as doenças que têm ocorrido são imunopreveníveis, e se tivermos cobertura vacinal adequada, evitaremos o retorno de doenças como a rubéola e a poliomielite. A volta de doenças eliminadas ou controladas não é culpa das pessoas ou dos países vizinhos, elas ocorrem porque a nossa cobertura não está adequada. Precisamos lembrar que não temos mais essas doenças graças à vacinação, então, não vacinar significa alto risco delas voltarem”, destaca o Dr. Juarez Cunha.

Vacinas

Existem dois tipos de vacina poliomielite no Brasil, sendo uma oral e outra injetável. A Vacina Oral Poliomielite (VOP) é uma vacina oral atenuada bivalente, ou seja, composta pelos vírus da pólio tipos 1 e 3, vivos, mas “enfraquecidos”. A Vacina Inativada Poliomielite (VIP), por ser inativada, não tem como causar a doença. É uma vacina trivalente e injetável, composta por partículas dos vírus da pólio tipos 1, 2 e 3. A imunização deve ser iniciada a partir dos 2 meses de vida, com mais duas doses aos 4 e 6 meses, além dos reforços entre 15 e 18 meses e entre os 4 e 5 anos de idade.

Já a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola (SCR) também é fundamental, é uma vacina atenuada, contendo vírus vivos “enfraquecidos” do sarampo, da rubéola e da caxumba. Para ser considerado protegido, todo indivíduo dever ter tomado duas doses na vida, com intervalo mínimo de um mês, aplicadas a partir dos 12 meses de idade.

Para crianças, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a SBIm recomendam como rotina duas doses: uma aos 12 meses e a outra entre 15 meses e 24 meses, junto com a vacina varicela, podendo ser usadas as vacinas separadas (SCR e varicela) ou a combinada (tetraviral: SCR-V). Para crianças mais velhas, adolescentes e adultos não vacinados ou sem comprovação de doses aplicadas recomendam-se duas doses com intervalo de um a dois meses. Na rotina do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para a vacinação infantil, a primeira dose é aplicada aos 12 meses de idade; e aos 15 meses (quando é utilizada a vacina combinada à vacina varicela [tetraviral: SCR-V]).

Também podem se vacinar gratuitamente indivíduos até 29 anos (duas doses, com intervalo mínimo de 30 dias) e indivíduos entre 30 e 49 anos (uma dose). As vacinas estão disponíveis de forma gratuita nos postos públicos de saúde e são altamente efetivas na prevenção, as vacinas são seguras e eficazes.