Resultados preliminares de estudo sobre dengue em crianças serão apresentados no MedTrop 2015

Publicação: 3 de junho de 2015

Objetivo do estudo é estimar a incidência de infecção pelo vírus da Dengue e da doença em crianças de até dois anos de idade

Em 2007, as crianças foram responsáveis por 65% do número total de casos graves na região Nordeste. Na epidemia de 2008, no Rio de Janeiro, 42% dos óbitos ocorreram em pessoas com menos de 15 anos

Em 2007, as crianças foram responsáveis por 65% do número total de casos graves na região Nordeste. Na epidemia de 2008, no Rio de Janeiro, 42% dos óbitos ocorreram em pessoas com menos de 15 anos

Um estudo em andamento na Fiocruz de Manguinhos, no Rio de Janeiro, que tem como objetivo e estimar a incidência do vírus da dengue (DENV) na região, deve apresentar os primeiros resultados durante o 51º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, (SBMT), que ocorre entre os dias 14 e 17 de junho em Fortaleza, no Ceará. É o que afirma a doutora em Biologia Parasitária Patrícia Brasil. Em entrevista à SBMT, a médica lembra que a maioria dos trabalhos neste sentido são conduzidos no Sudoeste Asiático.

“Dados importantes que subsidiem as avaliações econômicas de carga de doença e a análise custo-efetividade de estratégias alternativas de controle, seja por vacina ou por inovações no controle vetorial, poderão ser fornecidos”, explica.

A Drª Patrícia fala ainda sobre a situação atual da dengue no Brasil e a perspectiva para os próximos anos.

Veja, abaixo, a entrevista na íntegra.

SBMT: É preocupante a situação brasileira em relação aos casos de dengue, nos últimos anos?

Drª Patrícia: Estima-se que quase metade da população mundial viva em áreas sob risco de transmissão do dengue e que ocorram anualmente cerca de 67-136 milhões de casos em 128 países.

Dengue é a doença viral transmitida por vetores que se espalha mais rapidamente no mundo, com um aumento de 30 vezes na incidência global nos últimos 50 anos.

A dengue foi reintroduzida no Brasil em 1986, após uma ausência de pelo menos 20 anos (exceto por uma epidemia em Roraima em 1981 e por casos esporádicos). Desde então o País tornou-se responsável por mais de 70% dos casos notificados nas Américas. Na última década houve um aumento da incidência do dengue que reflete a ampla distribuição do Aedes Aegypti no território nacional, e uma elevação de casos graves da doença que tem sido atribuída à recirculação dos sorotipos DENV 1 e 2.

SBMT: É possível que ações mais específicas em relação às crianças pudessem diminuir drasticamente os casos da doença no País?

Drª Patrícia: Desde 2006 vem ocorrendo uma mudança no padrão epidemiológico da doença em alguns estados do Brasil, com aumento da morbidade e da letalidade em crianças. Em 2007, na região Nordeste, as crianças foram responsáveis por 65% do número total de casos graves. E na epidemia de 2008 no Rio de Janeiro, 42% dos óbitos ocorreram em menores de 15 anos.

Embora a causa desta mudança seja multifatorial, acredita-se que a circulação do DENV no Brasil há mais de 20 anos tenha resultado no acúmulo de imunidade em indivíduos mais velhos, desviando a idade média de infecção primária e secundária em direção aos grupos etários mais jovens. Este padrão, no entanto não é observado na região Centro-oeste ou Sul, onde a maioria da população adulta ainda é susceptível, como demonstra a atual epidemia na região Sul.

Apesar das medidas de controle de vetores há um aumento da taxa de incidência de dengue em todo o mundo e vários candidatos à vacina contra a doença estão em desenvolvimento. A estimativa da incidência é fundamental para avaliar a eficácia de uma vacina.

SBMT: Na Fiocruz, quais projetos estão em andamento em relação à dengue entre as crianças? Como é o seu trabalho na Fiocruz em relação aos estudos da doença?

Drª Patrícia: A maioria das pesquisas de coorte em crianças para o estudo da incidência da dengue é conduzida no Sudeste Asiático. Nas Américas, a Coorte da Nicarágua da doutora Eva Harris e, no Brasil, a Coorte de Recife da doutora Cynthia Braga (Fiocruz/Recife), foram os modelos de estudo em que me inspirei para a criação da Coorte de Manguinhos no Rio de Janeiro.

O objetivo principal deste estudo é estimar a incidência de infecção pelo vírus do Dengue (DENV) e da doença em uma coorte de lactentes nos primeiros dois anos de vida, por meio da realização de inquéritos sorológicos programados e de uma vigilância intensificada da doença febril. São identificados também os fatores de risco ambientais associados à infecção pelo DENV e verificada a distribuição espacial e temporal das formas imaturas e adultas de Aedes aegypti e sua relação com os casos de dengue, pela captura de mosquitos nos domicílios dos casos febris e arredores. O componente entomológico do projeto é fruto de uma parceria com a doutora Nildimar Honorio, do Instituto Oswaldo Cruz.

Alguns resultados preliminares do estudo serão divulgados no Congresso da Sociedade Brasileira e Americana de Medicina Tropical (SBMT e ASMTH). Planejamos estender por mais três anos o seguimento dessas crianças de modo a permitir a investigação da variação temporal na incidência de dengue; a imunidade cruzada entre sorotipos e os fatores associados à gravidade que decorrem de múltiplas infecções. Além disso, dados importantes que subsidiem as avaliações econômicas de carga de doença, e a análise custo-efetividade de estratégias alternativas de controle, seja por vacina, ou por inovações no controle vetorial, poderão ser fornecidos. A existência de equipe já estruturada e especializada permitirá a manutenção do estudo para a qual buscamos financiamento [P1].

O projeto foi iniciado em maio de 2012, graças à aprovação e financiamento pela chamada de pesquisa MCT-CNPq/FIOCRUZ Nº02/2011 – PROEP/Pesquisa Clínica e conta com a colaboração do TEIAS de Manguinhos, sob gerência da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). A equipe multiprofissional treinada no seguimento da coorte é formada por pesquisadores, pediatras, enfermeiros, flebotomistas, laboratoristas, especialista em assuntos regulatórios, pessoal de apoio de campo e visita em domicílio, entre outros.

SBMT: Qual a expectativa da doença no País nos próximos anos?

Drª Patrícia: A associação de um mapa de risco com informações longitudinais detalhadas dos estudos de coorte de dengue e superfícies de população são importantes para inferir o problema de saúde pública que é o dengue.

Se por um lado, a disseminação do dengue nos Trópicos com variações espaciais, locais de risco fortemente influenciadas por precipitação pluviométrica, temperatura e grau de urbanização pode ser prevista; por outro lado, inovações de controle (mosquitos transgênicos e wolbachia) podem ter resultados promissores.

Igualmente, a introdução da vacina tetravalente no mercado poderá reduzir as formas graves e as hospitalizações pelo dengue, enquanto novas vacinas têm sua eficácia testada.…