Repensando a BCG na pandemia

Publicação: 8 de outubro de 2020

BCG tem sido estudada em diversas situações ligadas à imunidade celular

Na pandemia ela se revelou como uma vacina que pode ensinar o sistema imunológico humano a prevenir ou amenizar a infecção pelo Sars-Cov-2

O número de mortes por COVID-19 no Brasil poderia ser 14 vezes maior se a vacina contra o bacilo Calmette-Guérin (BCG), que causa a tuberculose, não fosse obrigatória no País. A conclusão é de um estudo da Universidade de Michigan (EUA) publicado em agosto na revista Science. O trabalho revelou que taxas mais baixas de infecção e morte se repetem em todos os países onde a vacinação é recomendada. Foi analisada a taxa diária de infecções em 135 países e de óbitos em 134 ao longo dos primeiros 30 dias da pandemia em cada nação. Entre os países que têm a BCG recomendada estão China, Brasil e França. Algumas nações a recomendaram porque a tuberculose deixou de ser ameaça, como Austrália e Espanha. Outras nunca recomendaram, como EUA e Itália.

Em meio a muitas incertezas sobre a cura da COVID-19, pesquisadores brasileiros avaliam a eficácia desta vacina, velha conhecida do nosso Calendário Nacional de Vacinação, contra a doença. A professora titular de Pneumologia e Tisiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Dra. Fernanda Mello, coordenadora de um ensaio clínico sobre a BCG, explica que o estudo ProBCG Rio é um ensaio clínico fase IIB, ou seja, realizado em uma quantidade limitada de participantes, com o objetivo de avaliar a eficácia da vacina em situação de exposição natural à infecção, ou seja, em áreas onde há transmissão ativa do agente infeccioso. “Tendo em vista que os profissionais de saúde são a parcela da população de maior risco de contaminação, eles serão os participantes desse estudo, onde serão submetidos à vacinação com BCG ou com placebo, e acompanhados a fim de comparação entre os grupos a respeito da ocorrência da COVID-19 e/ou suas formas graves”, detalha.

O estudo tem a previsão de recrutar os participantes em dois a quatro meses e de acompanhá-los por um ano. De acordo com a Dra. Mello, em aproximadamente um ano e meio todos os resultados devem estar disponíveis. Ela destaca ainda que ao longo do estudo serão feitas análises parciais, que poderão indicar os possíveis efeitos da vacinação com BCG. Entretanto, não há previsão de liberação desta vacina para prevenir a COVID 19 e não se tem, no momento, dado de literatura disponível a respeito do seu efeito em animais infectados com SARS- CoV-2.

Questionada se a vacina pode proteger contra a COVID-19, a Dra. Mello lembra que ela é formalmente indicada em recém nascidos para a prevenção das formas graves de tuberculose. “No entanto, vários estudos comprovam que induz proteção cruzada para outros agentes infecciosos, inclusive agentes virais. Sendo assim, a BCG poderia auxiliar na resposta imune ao SARS-CoV-2” ressalta. Contudo, a professora esclarece que a vacina não é específica para a COVID-19, e poderá mostrar-se útil enquanto uma vacina específica não for disponibilizada em larga escala.

Em relação ao mecanismo imunológico, ele parece estimular a indução de resposta imune inata inespecífica, cujas alterações epigenéticas influenciariam a reação do ser humano a outros agentes infecciosos. A vacina BCG, ao estimular monócitos e linfócitos, poderia então contribuir para a resposta do sistema imune ao SARS- CoV -2.

Mas será que a revacinação BCG no Brasil (1994-2004) poderá ter impacto, visto que a idade era dos 6 aos 13 anos e isso pode fazer diferença com dados de outros países sem revacinação? De acordo com a Dra. Mello, a literatura sugere que a imunidade inata inespecífica mencionada precisa ser estimulada de tempos em tempos. Mas os dados sobre revacinação serão coletados no estudo, o que permitirá a análise deste fator. Por fim, ela alerta que neste momento, não há indicação de vacinação da população em geral com a BCG para prevenção da COVID 19 e que será preciso aguardar os resultados dos estudos que estão sendo realizados.

UFMG desenvolve vacina baseada no uso de BCG recombinante

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto Butantan-SP também estão utilizando a vacina contra tuberculose, para desenvolver um imunizante contra a COVID-19. A ideia é ter uma vacina dupla para proteger contra as duas doenças. O trabalho da equipe envolve a clonagem dos genes do vírus SARS-CoV-2 para que a bactéria consiga produzi-los. As principais vantagens, caso o imunizante consiga realmente ser desenvolvido, é a segurança da vacina e capacidade da BCG de proteger contra doenças heterólogas pelo fenômeno da Imunidade treinada. Os testes em animais devem começar apenas no fim do ano e ainda não há previsão para a testagem em humanos.

Quarteto aposta na BCG

Brasil, Austrália, Espanha, Holanda e Reino Unido decidiram testar a vacina BCG em uma tentativa de verificar se ela pode ser eficaz e segura no tratamento da doença viral. A vacina será testada em 10 mil profissionais da saúde em várias partes do mundo em um estudo de fase III. No Brasil, ela será reaplicada em 2 mil voluntários em Campo Grande e Mato Grosso do Sul, e em 1 mil voluntários no Rio de Janeiro sob a coordenação dos pesquisadores da Fiocruz, Dr. Júlio Croda e Dra. Margareth Dalcolmo.

Esse é o maior estudo de fase III que analisa a eficácia para avaliar se a BCG tem impacto na incidência da infecção, nas internações e óbitos associados ao COVID-19. Trabalhadores da saúde com mais de 18 anos, sem infecção prévia podem participar do estudo, assim como residentes no Rio de Janeiro e em Campo Grande. Os interessados devem realizar sua pré-inscrição no link: https://servicos.matogrossodosul.fiocruz.br/redcap/surveys/?s=WCEMCKLK97. A previsão é que o estudo tenha inicio no Brasil neste mês de outubro e acompanhe os voluntários por um ano.

O Dr. Croda salienta que ainda não há comprovação de que a BCG seja eficaz contra a COVID-19, nem por quanto tempo ela mantém o ser humano imune contra outras doenças respiratórias. “Por isso, as pessoas não devem tomar a vacina acreditando que possa evitar o novo coronavírus, e é necessário aguardar os resultados finais do estudo de fase III”, argumenta.

Outros países também decidiram testar a vacina BCG contra o novo coronavírus. É o caso de Moçambique. O Centro de Investigação e Saúde da Manhiça, província de Maputo, vai estudar a eficácia da vacina usada contra a tuberculose no país. A Holanda é outro país a seguir o exemplo. Os cientistas começaram um experimento em 22 hospitais-escola em todo o país sobre o impacto da vacina contra a tuberculose em idosos vulneráveis, para estabelecer se ela oferece proteção contra a COVID-19.