Relatório destaca impactos da pandemia no aumento da fome no mundo

Publicação: 7 de outubro de 2021

Avanços impulsionados pela ciência são necessários para enfrentar os desafios

O número de pessoas que enfrentaram a fome em 2020 aumentou em 118 milhões. África teve o maior aumento

Entre as consequências da Covid-19, a Organização das Nações Unidas (ONU) observou que a fome mundial passou por um agravamento dramático em 2020. Embora o impacto da pandemia ainda não tenha sido totalmente mapeado, o relatório O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI) 2021, destaca que um décimo da população do Planeta, ou seja, até 811 milhões de pessoas, estava desnutrida em 2020, um aumento de 118 milhões em relação a 2019. De acordo com o documento, a insegurança alimentar está sendo impulsionada pelas mudanças climáticas, conflitos e recessão econômica.  Segundo as projeções do relatório, aproximadamente 600 milhões de pessoas poderão passar fome em 2030, em parte como resultado dos efeitos de longo prazo da pandemia na segurança alimentar global, ou seja, 30 milhões a mais do que em um cenário sem pandemia. Para honrar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de acabar com a fome até 2030 será necessário um grande esforço.

O relatório aponta que mais da metade de todas as pessoas subalimentadas (418 milhões) vivem na Ásia; mais de um terço (282 milhões) na África; e uma proporção menor (60 milhões) na América Latina e no Caribe. Mas o aumento mais acentuado da fome foi na África, onde a prevalência estimada de desnutrição, em 21% da população, é mais do que o dobro de qualquer outra região. O documento informa ainda que 22% (149 milhões) das crianças com menos de cinco anos são afetadas por retardo de crescimento, em que se destacam os problemas de desenvolvimento cognitivo que afetarão suas vidas.

Cúpula dos Sistemas Alimentares

Para acelerar esforços em prol do cumprimento dos ODS, por meio da transformação dos sistemas alimentares rumo à sustentabilidade, foi realizada em setembro, durante a semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, a Cúpula dos Sistemas Alimentares (Food Systems Summit, ou FSS, na sigla em inglês). Convocada pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, no contexto da Década de Ação para alcançar os ODS até 2030, a iniciativa tem como objetivo fomentar avanços em todos os 17 ODS, aproveitando e alavancando a interconexão dos sistemas alimentares com os desafios globais, como fome, mudança climática, pobreza e desigualdade. Os trabalhos da Cúpula foram organizados em torno de cinco linhas de ação temáticas: Garantia do Acesso a Alimentação Saudável, Segura, Sustentável para Todos; Padrões de Consumo Saudáveis e Sustentáveis; Produção em Escala de Alimentos Positivos para a Natureza; Promover o Sustento e a Distribuição de Valor Equitativa; e Construção de Resiliência contra Vulnerabilidades, Choques e Tensões.

O que pode ser feito ainda

Conforme o relatório de 2019, transformar os sistemas alimentares é essencial para alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e colocar alimentações saudáveis ao alcance de todos. A edição deste ano vai além e traça seis caminhos de transformação:

– Integrar políticas humanitárias, de desenvolvimento e de construção da paz em áreas de conflito –por exemplo, por meio de medidas de proteção social para evitar que as famílias vendam bens escassos em troca de alimentos;

– Ampliar a resiliência climática em todos os sistemas alimentares –por exemplo, oferecendo aos pequenos agricultores amplo acesso a seguro contra riscos climáticos e financiamento baseado em previsões;

– Fortalecer a resiliência dos mais vulneráveis à adversidade econômica – por exemplo, por meio de programas em campo ou de apoio em dinheiro para diminuir o impacto de choques do tipo pandêmico ou volatilidade dos preços dos alimentos;

– Intervir ao longo das cadeias de abastecimento para reduzir o custo de alimentos nutritivos –por exemplo, incentivando o plantio de safras biofortificadas ou facilitando o acesso dos produtores de frutas, legumes e verduras aos mercados;

– Combater a pobreza e as desigualdades estruturais –por exemplo, estimulando cadeias de valor de alimentos em comunidades pobres por meio de transferências de tecnologia e programas de certificação;

– Fortalecer os ambientes alimentares e mudar o comportamento do consumidor –por exemplo, eliminando as gorduras trans industriais e reduzindo o teor de sal e açúcar no abastecimento alimentar, ou protegendo as crianças do impacto negativo do marketing alimentar.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o professor de Mudança Econômica e Tecnológica e Diretor do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Universidade de Bonn (Alemanha), Dr. Joachim von Braun, considerado um líder especialista internacional nos problemas de fome e desnutrição e soluções para esses problemas. Ele atuou como co-presidente do Conselho Alemão de Bioeconomia e é o iniciador do Global Bioeconomy Summits. O Dr. Joachim von é presidente do Grupo Científico da Cúpula de Sistemas Alimentares do Secretário-Geral da ONU e presidente da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano. É também membro do Conselho da Aliança para uma Revolução Verde na África (AGRA) e da Aliança Global para Nutrição Melhorada (GAIN), e vice-presidente da Welthungerhilfe, uma agência de ajuda não-confessional e politicamente independente alemã sem fins lucrativos e não governamental que trabalha nas áreas de cooperação para o desenvolvimento e ajuda de emergência.

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: O sistema alimentar global precisa de uma renovação. Em seu artigo, o senhor cita muitas saídas para enfrentar a crise da cadeia alimentar, mas não faz menção à da divisão entre o Norte e o sul, entre ricos e pobres. O senhor poderia nos falar sobre a política da divisão global, em que continuamos sendo colônias de um mar de riqueza, que são os países desenvolvidos, Estados Unidos, Europa Ocidental, basicamente, mais a Comunidade Europeia, Japão, Austrália e Nova Zelândia, que permite que os demais países sofram as consequências.

Dr. Joachim von Braun: O problema alimentar é, em grande medida, um problema de direitos, desigualdade e pobreza. É fundamental que o acompanhamento da Cúpula de Sistemas Alimentares aborde as questões que destacamos, por exemplo, inovações para superar os arranjos ineficientes e injustos de uso de terras, acesso a crédito, mão de obra e recursos naturais e para facilitar a inclusão, o empoderamento e os direitos das mulheres, jovens e povos indígenas. Entre as formas eficazes de erradicar a pobreza e a desigualdade de forma sustentável está o aumento das oportunidades e capacidades dos pobres e daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade, garantindo um acesso mais equitativo aos recursos, tais como  acesso a recursos naturais e ativos econômicos. Garantir um trabalho decente é uma área chave e exige regulamentação e transparência na cadeia de valor. O potencial para expandir significativamente os empregos verdes nos sistemas alimentares deve ser buscado com todas as forças. No entanto, eliminar a pobreza por si só não torna as dietas saudáveis acessíveis para todos. A mudança dos sistemas alimentares precisa garantir que as pessoas com baixa renda possam ter acesso a uma dieta saudável, permitindo-lhes ganhar salários dignos e ter acesso a redes de seguridade social. A transformação inclusiva da agricultura familiar será imperativa para os jovens. Os pequenos produtores não são um grupo homogêneo, e a transformação da economia da pequena fazenda em todo o mundo exigirá políticas diferentes para lidar com a heterogeneidade dos pequenos produtores.

SBMT: O senhor acredita que um dos grandes problemas dos sistemas alimentares hoje é que as corporações têm um enorme poder de influência em determinar os hábitos alimentares e o que se deve comer, sendo assim as grandes responsáveis pelos problemas que enfrentamos? Por quê?

Dr. Joachim von Braun: O setor empresarial participou de forma construtiva no processo da cúpula. Não houve captura da agenda. A sociedade civil e a comunidade de pesquisa observam isso.

SBMT: Podemos dizer que a alta concentração de poder corporativo em nossos sistemas alimentares permite que um grupo pequeno de pessoas modele mercados de uma forma que maximize os lucros em detrimento da saudabilidade alimentar e do bem-estar social?

Dr. Joachim von Braun: Precisamos estar atentos à concorrência sólida nos mercados de alimentos. Isso é essencial para consumidores e agricultores. A política antitruste baseada em evidências faz parte de uma política nacional sólida. Internacionalmente, isso também precisa de atenção. O setor varejista de alimentos precisa ser vigiado em nível global e nacional.

SBMT: Qual a sua opinião sobre o exercício de poder econômico dos países mais ricos sobre os países mais pobres a fim de impor a política alimentar que julgam ser a mais correta?

Dr. Joachim von Braun: Esta foi uma cúpula de sistemas alimentares das Nações Unidas. Os países mais pobres têm voz. No entanto, a transformação requer finanças. A desigualdade é particularmente problemática no sistema financeiro. O Banco Mundial e o FMI precisam lidar com isso de maneiras muito mais incisivas.

SBMT: Em relação à África, diante de seu contexto econômico, a fraqueza política, o que acarreta o empobrecimento extremo de seus países, como o senhor vê a interferência na defasagem da política alimentar e o consequente aumento das mais diversas doenças que demandam ações emergenciais de países parceiros e desenvolvidos?

Dr. Joachim von Braun: Estou otimista com a África. Na verdade, a África apresentou as maiores taxas de crescimento de sua agricultura em comparação com todos os outros continentes nos últimos 20 anos. No entanto, o desempenho de desenvolvimento é desigual. O acesso ao capital de investimento e ao comércio interno é muito restrito. O investimento em sistemas alimentares e melhoria da infraestrutura são fundamentais.

SBMT: Quando falamos sistemas alimentares globais, o que exatamente estamos discutindo? E por que eles são a chave para acabar com a fome no mundo?

Dr. Joachim von Braun: A Cúpula é necessária porque os sistemas alimentares em nível global e em muitos países e regiões não estão conseguindo acabar com a fome, não fornecem alimentos nutritivos adequados para dietas saudáveis, contribuem para a obesidade e não garantem a segurança dos alimentos. A maneira como produzimos e consumimos alimentos têm profundas implicações na saúde das pessoas, animais, plantas e do próprio planeta. Uma mudança na visão de mundo em apoio a uma série de ações é necessária para reorientar a dinâmica dos sistemas alimentares.

SBMT: De que forma a ciência pode garantir que as mudanças aconteçam?

Dr. Joachim von Braun: Um elemento central de tal mudança é uma ênfase muito maior na ciência para a inovação para transformar os sistemas alimentares em direção à sustentabilidade e equidade.

A declaração do secretário-geral da ONU enfatiza que a ciência e a pesquisa desempenham um papel importante para a transformação dos sistemas alimentares. Veja https://www.un.org/press/en/2021/sg2258.doc.htm

SBMT: A população mundial deve crescer para quase 10 bilhões até 2050. O senhor acredita que podemos produzir alimentos nutritivos, acessíveis e ambientalmente sustentáveis para todos?

Dr. Joachim von Braun: Se investirmos apropriadamente na educação, especialmente na educação de meninas, e na igualdade, chegará a 9 bilhões em 2050. E, sim, podemos atingir os objetivos da dieta saudável. Mas vegetais e frutas precisam de uma prioridade muito maior, porque são essenciais para dietas saudáveis e acessíveis.