REDE-TB: um novo conceito de cooperação

Publicação: 8 de janeiro de 2021

Sinergia das complementaridades da REDE-TB pavimenta o caminho da transferência do conhecimento à sociedade

Criação da REDE colocou a tuberculose em cena nas Políticas Públicas, nos Editais das Principais Agências de Financiamento do País, além de dar reconhecimento e visibilidade às pesquisas e aos pesquisadores, bem como à situação de catástrofe e negligência da doença e das pessoas acometidas por ela

Apesar do significativo progresso da pesquisa científica relacionada à tuberculose (TB) e outras micobacterioses existentes no Brasil, no início do milénio, o País ainda experimentava uma frágil cooperação entre os diversos atores dessa área: indústria, universidades, institutos de pesquisa, sociedade civil, e serviços de saúde, incluindo o Programa Nacional de Controle da TB (PNCT). Em 2001, a Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose REDE-TB foi criada como um grupo multidisciplinar de pesquisadores e estudantes brasileiros, tendo como parceiros a Sociedade Civil e os representantes dos serviços de saúde que trabalhavam com TB e HIV/Aids em todo o País. A REDE-TB ajudou a construir as pontes necessárias entre estes diferentes atores para promover a pesquisa e as atividades educativas de forma integrada.

Vice-presidente eleito da REDE-TB, Dr. Ricardo Alexandre Arcêncio, lembra a importante parceria entre a REDE-TB e o Centro de Pesquisas em Tuberculose da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto–USP, que tem utilizado várias estratégias inovadoras para o desenvolvimento de novas vacinas preventivas e terapêuticas para o controle da tuberculose. “Nesses últimos tempos, têm ficado cada vez mais evidenciado o senso de coletividade e coesão para o alcance de um bem comum para a sobrevivência humana, o desenvolvimento e a canalização de esforços para a superação de problemas hoje enfrentados em nossa sociedade, como a pandemia de COVID-19. A duras penas, com milhões de vidas ceifadas dia-a-dia, a pandemia nos desnudou à medida que evidenciou graves falhas no Sistema de Saúde para se organizar de forma inteligente, estratégica e sustentável’, reconhece.

O Dr. Arcêncio também chama a atenção para a falta de investimento que deixou instituições e pesquisadores em meio ao caos. “As Instituições de Ensino e Pesquisa, não contempladas com um plano de investimento por parte do Estado, tiveram sua capacidade instalada prejudicada com falta de equipamentos, insumos, reagentes etc. Faltou luz, faltou água, mas não faltou visão e compromisso no capital social dessas Universidades”, destaca. Ainda segundo ele, da pandemia, uma das muitas lições foi a sinergia entre atores, instituições e sociedade. “A superação da individualidade, da competitividade bem conhecida nos meios acadêmicos deu lugar à cooperação, solidariedade e coesão, valores fundamentais que norteiam e sustentam as Redes (do latim rete, que tem um padrão e estrutura característica, e operam com sinergia).

A presidente da REDE-TB, Dra. Ethel Maciel, enfatiza que a conformação de Redes de Cooperação em Pesquisa vêm sendo estimuladas há mais de 30 anos no Brasil, e importantes experiências sucederam nesse horizonte, a exemplo da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, que surgiu pela iniciativa de um grupo de pesquisadores líderes na área de tuberculose e foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), dos institutos do Milênio, que se organizaram em diferentes áreas para encontrar respostas e soluções à situação da tuberculose no País. “Essa Rede se estruturou em áreas estratégicas de medicamentos, testes diagnósticos, epidemiologia, recursos humanos, pesquisas operacionais e mobilização social, com destaque para a participação e envolvimento da Sociedade Civil Organizada, que deu grande impulso às ações políticas e visibilidade aos trabalhos da REDE-TB”, acrescenta.

De acordo com a presidente, a criação da REDE colocou a tuberculose em cena nas Políticas Públicas, nos Editais das Principais Agências de Financiamento do País, além de dar reconhecimento e visibilidade às pesquisas e aos pesquisadores, bem como à situação de catástrofe e negligência da doença e das pessoas acometidas por ela. “As principais produções científicas e tecnológicas conseguidas hoje na área da TB no Brasil são de membros que compõem essa REDE e da sinergia e coesão que há entre eles. Grandes projetos vêm sendo liderados por pesquisadores da REDE-TB, que trazem impacto no cenário nacional e notoriedade no cenário internacional. Um exemplo disso é a vacina da BCG para o enfrentamento da COVID-19, sob a liderança da Dra. Margareth Dalcolmo e do Dr. Julio Croda”, aponta.

A Sociedade Civil também traz um projeto de suma importância na medida que se propõe a avaliar o impacto da pandemia no contexto da TB. O êxito da REDE é tão significativo, que motivou países como Rússia, Índia, China e África do Sul a unirem esforços para lançamento da Rede de Pesquisas BRICS TB, que tem como objetivo promover e conduzir pesquisas científicas colaborativas em todo o espectro, do básico ao operacional, para o desenvolvimento e inovação em diagnósticos, vacinas, medicamentos e esquemas, controle de infecção por TB e prestação de serviços ao paciente, sob a inspiração da REDE-TB, e fortemente apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ainda de acordo com o vice-presidente, a REDE-TB em 2020 também se viu comprometida com a pandemia a fim de elucidar questões pouco compreendidas pela sociedade, organizando Webinars, que sempre contaram em seus painéis com especialistas renomados discutindo temas como o tratamento da COVID-19, as vacinas, a imunidade adaptativa decorrente do Sars-CoV-2 e o passaporte para a imunidade, entre outros, sempre embasados nas evidências científicas. “Incansavelmente nossos pesquisadores estiveram e estão à disposição da sociedade, prestando todo o tipo de esclarecimentos e orientações sobre a tuberculose, a COVID-19 e tantos outros agravos de relevante importância à saúde pública”, complementa o Dr. Arcêncio.

Por fim, ele admite que o trabalho desenvolvido pela REDE-TB se alinha ao princípio e compromisso com a saúde em busca da equidade. Por meio de pesquisas no âmbito da Rede, importantes consensos, que nutrem políticas públicas, decisões clínicas, ações em serviços de saúde, vêm sendo produzidos. “Também não poderia deixar de registrar o justo e merecido reconhecimento à Dra. Margareth Dalcolmo, membro da REDE-TB, como personalidade do ano por seus contributos na COVID-19, assim como o reconhecimento à Dra. Ethel Maciel, por sua atuação na área dos Direitos Humanos, ao dar voz e defender a inclusão das populações vulneráveis no plano de contingenciamento da pandemia”, comemora.

A inserção da REDE-TB também tem sido notável no Grupo de Trabalho (GT) para a vacina da COVID-19 no Brasil. A estratégica e profícua articulação junto às instâncias de poder no nível macro (Ministério da Saúde), meso e micro, foram expressivas, o que contribuiu sobremaneira para a capilaridade das pesquisas e assim, na translação de conhecimento. “A governança da REDE-TB é questão central para que ela seja sustentável e operacional, e ter a Sociedade Civil em sua estrutura é condição sine-qua-non para o alcance desse propósito. O modelo de integração e soma articulada de esforços, bem como o processo de criação, fomento, manutenção e objetivos observados na REDE TB podem extrapolar para outras áreas da saúde”, conclui a presidente, Dra. Ethel.