Racismo na ciência: vulnerabilidade e inadequação do sistema de saúde

Publicação: 10 de julho de 2020

Médicos devem reconhecer os danos causados pela discriminação e pelo racismo e considerar esse agente ambiental da doença como um sinal vital

A habilidade médica permitiu responder rapidamente a um novo vírus para salvar vidas e essa experiência pode ser usada para lidar com o racismo e a injustiça protegendo as pessoas vulneráveis de danos

Ao longo da história, diversas teorias racistas foram elaboradas para justificar objetivos políticos. Apresentadas como fatos científicos, acabaram contribuindo e exacerbando o ódio e a intolerância. No século XVIII, inúmeros cientistas norte-americanos afirmavam que a pigmentação escura dos africanos era causada por uma doença genética similar a lepra. Com essa estanha hipótese, justificavam a cruel exploração de escravos e vários atos de racismo extremo. Os recentes acontecimentos de violência contra pessoas negras no Brasil e nos Estados Unidos demonstram que a relação entre ciência e racismo não está restrita a exemplos antigos e coloca à baila, com vigor, o debate sobre racismo em pleno século 21.

Para o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (DCP/UFMG). Dr. Cristiano Rodrigues, a atual onda de manifestações antirracistas, que teve início nos Estados Unidos após o assassinato de George Floyd por um policial branco, revela a persistência do racismo. Segundo ele, a magnitude e a internacionalização das manifestações, que reuniram milhares de pessoas em diferentes estados norte-americanos, Europa e América Latina, tem como aspectos dignos de nota o seu caráter multirracial, uma vez que congrega participantes de todos os segmentos étnicorraciais e contou com apoio quase imediato de uma parcela importante da elite política internacional.

No Brasil, o racismo se manifesta, por exemplo, em debates sobre cotas, quando com frequência é evocada a falácia da raça biológica ao alegar que, geneticamente, não há raças humanas. Entretanto, a inexistência biológica das raças não implica ausência de racismo ou da significância social das raças. “Quando se diz que o racismo é estrutural o que se afirma é que há sociedades que se estruturam com base na discriminação de um grupo e privilegia outro. No Brasil, brancos têm mais acesso à educação, à saúde, melhores posições no mercado de trabalho, acesso à representação política e ocupam quase que exclusivamente posições na elite do judiciário”, ressalta o professor Rodrigues ao complementar que a disparidade racial observada em praticamente todos os indicadores sociais demonstra a permanência de padrões de discriminação e a necessidade de construir políticas para mitigar os efeitos do racismo.

“Miscigenação genética não é um antídoto contra o preconceito, uma vez que a discriminação racial no Brasil é essencialmente fenotípica, ao ponto de alguns autores se referem ao País como uma pigmentocracia, em que o acesso a direitos está diretamente relacionado à cor da pele e demais características que denotem ascendência caucasiana. Nesse sentido a miscigenação não protege contra a discriminação, pois quanto mais escuro for o tom de pele da pessoa, mais sujeita a situações de preconceito e discriminação ela estará submetida, a despeito de sua ascendência”, conclui o Dr. Rodrigues.

Ciência como instrumento na construção do racismo no Brasil

A professora e pesquisadora em Saúde Pública Dra. Alda Maria Da-Cruz admite que a ciência certamente foi um instrumento na construção do racismo no País, uma vez que a ascensão a esse patamar de formação educacional no Brasil nunca foi estimulado por políticas afirmativas. “Agora temos uma possibilidade de inclusão com o projeto de cotas para cursos de pós-graduação. Ainda assim corremos sérios riscos, pois o projeto chegou a ser revogado, mas felizmente o processo foi revertido Ele tem um papel essencial, na medida em que os cientistas passem a fazer esse diagnóstico e reconhecer que há essa desigualdade”, destaca. Ainda de acordo com a professora, o ingresso na atividade científica exige atributos que não fazem parte da formação mesmo do brasileiro médio, como o domínio da língua inglesa, por exemplo.

Questionada se a ciência brasileira contribuiu para a construção do mito da democracia racial no País, a pesquisadora lembra a existência de grupos em que os cientistas sociais estudam as questões relacionadas às “minorias”, mas a divulgação científica, como um todo, é uma das fraquezas da área. “Logo, a falta de informação acaba fortalecendo a construção do mito da democracia racial”, garante. A pesquisadora chama atenção ainda para representatividade das mulheres negras na ciência. Segundo ela, o debate começa a aflorar, porém contempla duas faces difíceis: uma é justamente a inclusão da mulher, e outra é a inclusão de negros.

A professora revela ainda que há orientadores que são elitistas e fazem restrições para aceitar determinados perfis de alunos. Para ela, esse tipo de comportamento acaba desembocando em atitudes excludentes, como por exemplo, preferir alunos de universidade pública, que não morem muito distante, ou que possuam carro, ou que tenham fluência no inglês. “Não investem ou valorizam o aluno que pode ter um potencial imenso e que não teve oportunidade de aditar outras habilidades na sua formação acadêmica por questões socioeconômicas”, lamenta.

Além da crise sanitária, o Brasil passa por outras crises envolvendo questões sociais, e o racismo também é pauta dos movimentos mais recentes, nas ruas e nas redes sociais, mas a professora Da-Cruz acredita que estamos avançando nesse debate, que se tornou um fenômeno mundial. “Cada vez que o tema vem à luz, ainda mais com a força de movimentos de rua, mais pessoas tomam conhecimento que a questão existe. Isso é importante, pois ascende, sobretudo, naqueles que são alvos de racismo”, argumenta.

Papel do médico em tempos de injustiça e angústia social

É inegável a existência do racismo, visto que ele sempre existiu. Entretanto, não encontra nenhuma justificativa científica. Além dos diversos problemas sociais conhecidos como seu resultado, ele também pode afetar a saúde. Vários estudos apontam que o preconceito racial está conectado a doenças cardiovasculares em negros, além de ser a possível causa da depressão, da ansiedade e de outros problemas de saúde em pessoas que são vítimas de racismo. Alguns estudos científicos evidenciam que esses problemas podem surgir como resultado de uma vida sob o estresse de conviver com a discriminação racial. O negro brasileiro, além de sofrer o racismo nas ruas, também é discriminado no sistema público de saúde. O próprio Ministério da Saúde lançou a campanha “Não fique em silêncio. Racismo faz mal à saúde” que reconheceu que o racismo é um determinante social em saúde.

Então como os médicos podem reconhecer os danos causados pela discriminação e pelo racismo e considerar esse agente ambiental da doença como um sinal vital? Para a Dra. Da-Cruz, a prática da medicina para a maioria das especialidades pressupõe a inter-relação humana e pesquisas cientificas podem identificar vulnerabilidades e determinantes de adoecimento. A pesquisadora entende que a participação em sociedades cientificas, por meio de suas reuniões periódicas, são também canais para troca de informações, divulgação de problemas regionais ou circunscritos a determinados grupo, e de mapeamento de problemas que podem ser encaminhados aos poderes constituídos e que tem capacidade de tomada de decisão. “A habilidade médica-científica vem permitindo respostas rápidas a novos vírus e ajudando a salvar vidas. Essa experiência pode ser utilizada para lidar com o racismo e a injustiça de forma a proteger as pessoas vulneráveis de danos”, complementa. Por fim, a professora salienta a importância da interdisciplinariedade, sobretudo no campo das humanidades. Para ela, isso amplia os olhares do médico para além dos consultórios e enfermarias e permite uma compreensão mais ampla dos determinantes de saúde-adoecimento.

Agora, em meio a uma aguda crise de saúde pública que está transformando a medicina, talvez haja oportunidade de redefinir as prioridades para enfrentar também essa crise profunda e crônica chamada racismo. Entre nós, humanos, não há etnia, raça ou cultura que seja superior a outra. Há, sim, culturas, etnias e heranças genéticas diversas, nada mais.

Diversidade étnica na ciência necessita orientação sobre medidas antirracistas

De acordo com a pesquisa “Ten simple rules for building an anti-racist lab” há uma sub-representação grave de negros, latinos e indígenas, tanto no trabalho quanto no corpo estudantil, em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, sigla em inglês) nos EUA e na Europa. Ainda segundo o estudo, entre as causas da persistente falta de diversidade em STEM, estão preconceito, discriminação e assédio de membros de grupos minoritários sub-representados. “As questões persistem devido à marginalização contínua, desequilíbrios de poder e falta de políticas adequadas contra a má conduta em instituições acadêmicas e outras instituições científicas”, relata o trabalho. De acordo com a publicação, todos os cientistas podem desempenhar papéis importantes na reversão dessa tendência, mudando a cultura dos locais de trabalho acadêmicos para implementar intencionalmente políticas equitativas e inclusivas, estabelecer normas para uma conduta aceitável no local de trabalho e oferecer oportunidades para orientação e networking. “Como os cientistas estão cada vez mais reconhecendo a falta de diversidade racial e étnica na ciência, há uma necessidade de orientações claras sobre como tomar medidas anti-racistas”, assinala o artigo.

Saiba mais:

African Americans and Kidney Disease

Ten simple rules for building an anti-racist lab

Perceived Discrimination and Hypertension Among African Americans in the Jackson Heart Study

Racism and health

Psychometric Properties of the Race-Related Events Scale

Racism Could Negatively Impact Your Health, Study Finds

Diagnosing and Treating Systemic Racism

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