Psicoterapeuta moçambicano defende equidade social contra a epidemia de violência

Publicação: 15 de agosto de 2016

Doutor Boia Efraime, especialista em “psicologia da paz”, trabalhou na reabilitação de crianças-soldado em Moçambique

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Estatísticas mostram correlação positiva entre a distribuição de riqueza e que países nórdicos como Finlândia e Suécia são lugares com menos casos identificados de violência

A Medicina Tropical, além da atenção à infectologia, também atua no enfrentamento de problemas sociais dos países pobres, como a violência. Essa epidemia atinge Moçambique, na África, onde o clima de guerra é uma realidade diária para boa parte da população.

Por lá, a guerra entre os partidos FRELIMO e RENAMO fizeram e fazem vítimas diariamente – inclusive criando abominações como as crianças-soldado.

Para o psicoterapeuta moçambicano Boia Efraime Junior – que trabalhou na reabilitação de crianças-soldado entre 1994 e 2002, em Moçambique –, a solução para tratar dessa epidemia de violência é a chamada “psicologia da paz”. A área aplica os conhecimentos e métodos da psicologia na prevenção de conflitos e na promoção dos direitos humanos.

O doutor Carlos Costa, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), conversou com o doutor Efraime sobre o tema, onde o moçambicano explica como a justiça e a equidade social podem solucionar o grave problema da violência no mundo. Abaixo, veja alguns trechos da entrevista:

Quem é Boia Efraim?

Eu nasci em Maputo, capital de Moçambique, e tenho 55 anos de idade. Sou de família pequena, de quatro irmãos. Trabalhei primeiro como professor para o ensino secundário. Depois, cursei psicologia e clínica na antiga Alemanha democrática. Trabalhei primeiro em psiquiatria na cidade de Berlim, até 1994. A partir deste ano, trabalhei com crianças em Moçambique com o fim do conflito militar no país.

Atualmente, faço psicoterapia em prática privada. Trabalho em uma ONG chamada Reconstruindo a Esperança, onde fazemos prevenção de violência sexual contra crianças em escolas públicas.

O que é psicologia da paz? Como isso emergiu, em referência particular aos trópicos, e mais precisamente na África?

Antes de explicar o conceito de psicologia da paz, é preciso entender a situação de Moçambique.

O país foi colonizado na história recente por Portugal. Isto levou à deflagração de várias revoltas, sendo uma delas a da luta armada, que foi conduzida pela Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO, que culminou com a independência nacional em 1975.

Acontece que a FRELIMO, na sua frente de combate, solicitou apoio aos países socialistas. E quando Moçambique se transforma em país independente, é engolido pela dinâmica do conflito entre o Bloco Ocidental (capitalista) – que apoiou outra frente política, a RENAMO –, e o Bloco do Leste (socialista). O embate da FRELIMO com a RENAMO culminou numa guerra civil que durou entre 1976 e 1992.

Então, a história de Moçambique é escrita a partir de uma pauta não nacional, mas decorrente das relações internacionais.

Mesmo após o fim da guerra fria, tanto a FRELIMO quanto a RENAMO imbuíram um conflito que está ligado com o domínio dos meios de produção, garantindo um modus operandi monopolista que exclui as outras forças políticas do poder.

Essa ausência de tolerância e inclusão política, ausência de equidade e justiça social, cria para Moçambique um grande dilema que neste momento se manifesta pelo reacender do conflito político-militar, envolvendo o aumento da FRELIMO e a RENAMO, e que está custando vidas humanas no país.

Então, a psicologia da paz, na nossa compreensão como moçambicanos, é sair dessa polarização e encontrar um terceiro valor. E esse terceiro valor é humanidade, é justiça social, é equidade, é respeito pelo outro, é inclusão. Então, esta é nossa compreensão do que é psicologia da paz em Moçambique.

Quem são as vítimas da violência que precisam de atenção da psicologia da paz? Quem são essas pessoas?

Nosso país teve três milhões de moçambicanos que viveram deslocados internamente, fugindo do conflito militar. Outros 1,5 milhão de moçambicanos buscaram refúgio fora do país. Moçambique teve mais de um milhão de mortos no conflito entre 1977 e 1992. Além disso, muitas escolas e hospitais foram destruídos durante essa guerra civil.

Essas feridas não foram inteiramente saradas. O que aconteceu foi um novo processo de reconciliação nacional. E por isso é que temos um aumento da guerra. Portanto, as eleições e a confiança do sistema político permitiriam uma reconciliação nacional. As eleições permitiriam uma inclusão social, uma reconciliação seria inaugurada.

As vítimas da guerra são, de uma maneira geral, todos nós moçambicanos, que temos que conseguir uma reconciliação nacional. Os interesses da nação são maiores do que interesses partidários ou de pequenos grupos. Temos que conseguir um processo em que reconhecemos no outro ser humano alguém com direito a vida, com opções políticas e que ele é tão valioso quanto qualquer um de nós.

Fale um pouco sobre as crianças-soldado, que participaram na guerra civil. Como é a readaptação delas à sociedade? Como vão conseguir viver normalmente depois dessa experiência?

As comunidades moçambicanas, principalmente as rurais, têm um repertório de técnicas de cura, de reconciliação etc. Devemos levar em consideração que houve outras guerras na história do povo, das populações do território hoje considerado Moçambique, e que essas práticas são normalmente utilizadas.

Tivemos crianças que foram instrumentalizadas, usadas como soldado pelo exército governamental [FRELIMO]; pelo exército rebelde guerrilheiro da RENAMO; as forças paramilitares, chamadas milícias populares.

O que aconteceu é que essas crianças regressaram às suas comunidades e as comunidades utilizaram suas práticas de cura. Por exemplo, rituais de purificação, para limpar essas crianças de maneira metafórica da experiência negativa que elas tiveram, de rituais de passagem primitivos que essas crianças voltassem a ser integradas na comunidade, resolvendo problemas pacificamente como os outros cidadãos locais. Por outro lado, a comunidade as aceitou novamente no seu ceio.

Algumas dessas crianças cometeram ou foram forçadas a cometer atrocidades mesmo nas suas aldeias, fazendo assaltos a seus vizinhos.

O Brasil hoje é uma nação em guerra entre grupos sociais diferentes, com uma profunda hostilidade de opiniões entre as duas. A reconciliação, neste momento, não parece uma coisa fácil. De que forma os instrumentos utilizados pela psicologia da paz poderiam se aplicar a povos que sofrem de situação tão extrema como os brasileiros estão sofrendo hoje?

Penso que o abismo que separa os moçambicanos é tão grande como o que separa os brasileiros

Porque em Moçambique, inclusive, negamos o direito à vida por ser opositor político. Então, esse tipo de exclusão social, essa crença que interesses de um grupo podem sobrepor os interesses da nação. Que um grupo pode privatizar o poder e fazer uso do poder de recursos econômicos, políticos, financeiros do país e colocá-los apenas ao seu serviço e levar à marginalização dos outros cidadãos.

Penso que esse é um dos principais entraves para nós conseguirmos ter países onde impere a justiça social e a equidade social, que garanta a todos os cidadãos o direito à justiça, a uma parte dos recursos sociais disponíveis.

E como a psicologia da paz pode contribuir para que as nações consigam resolver conflitos dessa natureza?

No nosso trabalho em Moçambique, identificamos o conflito, as causas do conflito e conscientizamos as pessoas sobre o que o conflito significa.

Nós vamos a um bairro pobre e perguntamos às pessoas o que significa paz, o que significa conflito para essas pessoas. Quais são os entraves que elas têm para ter uma vida em paz. As pessoas apontam problemas como a pobreza, a falta de recolhimento do lixo, a água contaminada etc.

A questão seguinte é como elas podem mover um processo de transformação do meio do qual eles vivem para conseguir resolver esses problemas. É um processo deles se colocarem como sujeitos da sua própria história, de se organizarem, para que lutem pelos seus direitos.

O senhor acha que a conceituação de viver em paz é capaz de ter impacto em povos que estão tão conflitados, como os moçambicanos, os brasileiros, os africanos, os asiáticos? A psicologia da paz pode trazer paz para esses povos?

Penso que sim, embora nós achemos que, se houver justiça social e equidade, nós teremos paz. Mas é preciso entender que há também uma paz negativa.

No Chile, por exemplo, no período colonial, tínhamos a paz no regime do Pinochet, mas era uma paz negativa. Uma paz militarizada, um Estado de sítio, um Estado ditatorial etc.

É possível ter uma paz negativa, em que reprimimos a livre expressão e garantimos o monopólio de recursos existentes a um grupo muito pequeno. O Brasil também teve a sua ditadura militar. Então, temos a “paz do cemitério”.

A paz positiva tem que ser a que todos nós temos a ganhar. A que eu não excluo o outro. É verdade que é difícil apontar exemplos. Cada país deve fazer sua história.

Nos países nórdicos é onde há menos violência. Mas são lugares onde as pessoas têm a percepção de que há oportunidades equitativas para todos. Não há abismo na diferença entre pessoas ricas e mais pobres, onde as pessoas todas têm acesso ao trabalho e uma vida honesta, com dignidade, com respeito aos seus direitos etc.

Com essa sua referência aos países nórdicos, o senhor está dizendo que a violência é um problema tropical? A violência é uma doença tropical?

De fato, as estatísticas mostram uma correlação positiva entre a distribuição de riqueza e mostram que países nórdicos como Finlândia e Suécia são lugares com menos casos identificados de violência.

Podemos olhar dentro dos próprios países. Por exemplo, nos bairros mais homogêneos no acesso às riquezas, como os de classe alta. Possivelmente, nesses locais, os níveis de violência são menores do que em zonas onde temos uma área muito rica e uma favela ao lado – os sítios onde temos mais conflitos.

Então a violência é uma doença tropical, em sua opinião? Uma vez que o abismo de renda, o abismo de poder é uma característica tipicamente tropical. Então a psicologia da paz, na verdade, é um mecanismo de controle das doenças tropicais?

Veja o caso dos Estados Unidos. Não é um país tropical, mas há índices de violência incríveis.

Porém, é verdade que possivelmente temos, neste momento, olhando para as estatísticas, países tropicais onde há maiores focos de riqueza e de pobreza. Ou seja, é também uma doença tropical.

Que sugestões o senhor daria para os brasileiros neste momento de muito conflito e para outros povos que vivem situação similar?

Eu penso que, na história do Brasil, os brasileiros já deram exemplos aos outros povos que vivem nessa zona tropical e ao resto do mundo lições de cidadania, lições de respeito ao próximo.

É preciso lutar pela utopia de construção de cidades mais justas, mais equitativas, onde o ser humano seja valorizado. Onde vejamos no próximo um capital de um valor inestimável para o nosso crescimento como civilização, como comunidade, como humanidade. E eu espero que o Brasil se reconcilie com esses valores.

Tenho confiança no Brasil e no povo brasileiro. E tenho confiança na capacidade dos brasileiros de construir um país mais justo e com mais equidade social.…