Preocupação com carreira acadêmica se espalha pelo mundo

Publicação: 8 de dezembro de 2020

Não se sabe quantos desses pesquisadores acabarão deixando a academia – seja por escolha ou por necessidade – mas os observadores estão esperando um reajuste sísmico nas carreiras científicas

A pandemia está levando alguns pesquisadores em início de carreira a repensar suas esperanças de um cargo universitário

O impacto da pandemia de coronavírus agora se juntou à lista das principais preocupações dos pós-doutorandos, como prazos, créditos, concursos, publicações e bolsas de pesquisa. Uma pesquisa publicada na revista Nature revela que oito em cada dez pesquisadores de pós-doutorado tiveram sua capacidade de conduzir experimentos ou coletar dados prejudicados pela pandemia. E ainda, mais da metade está achando mais difícil discutir suas ideias de pesquisa ou compartilhar seu trabalho com o chefe do laboratório ou colegas, e quase dois terços acreditam que a pandemia afetou negativamente suas perspectivas de carreira.

Desenvolvida com 7.670 pós-doutorandos trabalhando na academia entre os meses de junho e julho, a pesquisa, criada em conjunto com a Shift Learning, empresa de pesquisa de mercado com sede em Londres, incluiu perguntas detalhadas sobre o impacto do COVID-19 na comunidade global de pós-doutorado. Confira a 2020 Nature Postdoc survey – COVID-19 insights” 

A vida de pós-doutorados agora apresenta mais preocupações do que as conquistas científicas. De acordo com a pesquisa, as preocupações com o futuro profissional são especialmente comuns na América do Sul, onde 70% dos entrevistados afirmam que suas carreiras já sofreram desde o início da pandemia. Questionados sobre os três principais desafios para a progressão na carreira, 40% dos entrevistados apontam para o impacto econômico do COVID-19, quase dois terços (64%) observam a competição por financiamento e 45% apontam para a falta de empregos em seu campo. Treze por cento dos entrevistados disseram que já perderam um emprego de pós-doutorado ou uma oferta devido à pandemia, e 21% suspeitaram que o vírus havia eliminado um emprego, mas não tinham certeza. Mais de um terço dos pesquisadores na América do Sul relatam já perder o emprego, em comparação com 11% na Europa e 12% na América do Norte e Central.

Sessenta por cento dos entrevistados estão atualmente trabalhando no exterior, uma circunstância que apenas amplifica o impacto potencial da pandemia. Além de tudo, muitos se preocupam com os efeitos da pandemia sobre seus vistos e sua capacidade de permanecer em seu novo país. Oitenta por cento dos entrevistados dizem que a pandemia prejudicou sua capacidade de realizar experimentos. Cinquenta e nove por cento dos entrevistados disseram que tinham mais problemas para discutir ideias com seu supervisor ou colegas, e 57% disseram que a pandemia tornou mais difícil compartilhar suas descobertas de pesquisa.

Sensação de instabilidade

O pós-doutorado tem se firmado como etapa determinante na vida profissional de pesquisadores que entendem que o mercado de trabalho acadêmico está muito competitivo. Entretanto, a pesquisa eu contou com respostas autosselecionadas de mais de 7.600 pesquisadores de pós-doutorado de 93 nações aponta desencanto com a vida profissional. A pesquisa revelou preocupações generalizadas sobre o presente e o futuro. Quando questionados se o período de pós-doutorado atendeu às expectativas, 32% dos entrevistados disseram que foi pior do que esperavam e apenas 12% disseram que era melhor. Mais da metade, ou 56%, tem uma visão negativa de suas perspectivas de carreira, e menos da metade recomendaria uma carreira científica para os jovens.

A pesquisa revelou preocupações generalizadas sobre o presente e o futuro: quando questionados se o período de pós-doutorado atendeu às expectativas, 32% dos entrevistados disseram que foi pior do que esperavam e apenas 12% disseram que era melhor. Mais da metade, ou 56%, tem uma visão negativa de suas perspectivas de carreira, e menos da metade recomendaria uma carreira científica para os jovens.

Metade dos respondentes da pesquisa relatou que sua satisfação no trabalho diminuiu nos últimos 12 meses, um período que viu o surgimento e disseminação do COVID-19 em todo o mundo (para resultados de pesquisas sobre os impactos abrangentes da pandemia em pós-doutorandos.

Os resultados da pesquisa sugerem que a satisfação com a vida pós-doutorado tende a diminuir com o tempo. Pós-doutorandos mais jovens com idades entre 26-30 tiveram a maior taxa de satisfação, de 66%. A satisfação também foi relativamente alta (64%) para os entrevistados que trabalharam como pós-doutorado por menos de dois anos, mas diminuiu para aqueles com mais experiência.

Inquietos e inseguros, pesquisadores de pós-doutorado em todo o mundo estão passando por grande angústia em torno de suas perspectivas de carreira, carga de trabalho e cultura do local de trabalho, entre outras questões. Saiba mais sobre sobre a pesquisa Nature Post-Doctoral Survey.

Depressão e ansiedade maiores na pós-graduação

Em 2018, uma pesquisa, também publicada na revista Nature, intitulada Evidence for a mental health crisis in graduate education alertava para índices de depressão e ansiedade  maiores em alunos de pós-graduação. De acordo com a pesquisa desenvolvida com 2.279 estudantes de pós-graduação de mais de 26 países, 39% e 41% deles apresentavam sintomas de depressão e ansiedade, respectivamente, enquanto na população geral esses índices ficavam em 6%.

Os impactos totais da pandemia COVID-19 nas carreiras científicas podem não ser conhecidos há anos, mas o congelamento de contratações e outros sinais de turbulência nas universidades já abalaram a fé na academia como opção de carreira. Enquanto as universidades tentam se adaptar e sobreviver em um mundo pandêmico, um número crescente de alunos de doutorado e outros pesquisadores em início de carreira procuram carreiras na indústria, governo e outros setores. Vale lembrar que os principais problemas dos entrevistados não são novos: aqueles que trabalham em posições com pouca segurança no emprego, baixa remuneração e um caminho pouco claro para um posto permanente. A preocupação crescente na pós-graduação e os dados das pesquisas podem ajudar a academia e os formuladores de políticas a considerar novas estratégias.

Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias e doutor em Medicina Tropical, o professor Dr. Carlos Graeff-Teixeira lembra outra reportagem com tema parecido publicada na revista Nature que trazia como título “O que estamos fazendo com nossos alunos de doutorado? “Agora outro tema muito relevante volta ao debate: “como estão nossos pós-doutorandos?”. Para o professor, são temas totalmente interligados entre si e com o tema geral: “o que estamos fazendo com nossa educação, desde a infância”.

Mas ao focar nos doutorandos e pós-doutorandos, o Dr. Graeff-Teixeira ressalta em primeiro lugar, o erro de considerar “Pós-Doutorado” como “título”, em uma comunidade muito dominada pelos números e hierarquias de poder. Em segundo lugar, o abuso de usar bolsistas, desde a iniciação científica até o pós-doutorado, como mão-de-obra barata, com minúscula dedicação dos orientadores para o crescimento e a boa formação dos orientados. Em terceiro lugar, a falha imensa dos cientistas em comunicar-se melhor com a sociedade e atuar politicamente, o que, para ele, é uma das origens principais do descaso com a ciência como um todo, além, é claro, da falta de recursos para pesquisa e contratação dos jovens.

“Mais grave ainda, esta falha de atitude e ações dos cientistas orientadores, que os jovens acabam reproduzindo a partir do exemplo, que cria o vazio que favorece o nascimento das absurdas teorias conspiratórias, movimentos anti-ciência e anti-vacinas. Mas as crises têm uma grande utilidade: a oportunidade de reflexão e mudança”, conclui o professor Graeff-Teixeira.