Prêmio Jovem Pesquisador: Estudo pode auxiliar medidas de controle contra vírus HTLV

Publicação: 15 de setembro de 2015

Pesquisa mostra prevalência alta do vírus em comunidade japonesa de Campo Grande

A ocorrência da infecção pelo HTLV-1 foi detectada em 34% dos indivíduos estudados. A análise filogenética associada aos dados epidemiológicos sugeriu a ocorrência de transmissão intrafamiliar

O HTLV é um vírus que infecta a célula T humana, importante para o sistema de defesa do organismo, sendo pouco conhecido até entre os seus portadores. Pertence à mesma família do HIV, porém é mais antigo e a maioria dos indivíduos infectados não desenvolve doenças. No entanto, o surgimento de enfermidades pode levar à morte, sendo um problema de saúde pública. Para auxiliar nas medidas de controle, é fundamental a elaboração de estudos sobre o tema. Em junho, um desses trabalhos, a dissertação de mestrado desenvolvida pela agora doutoranda em Doenças Infecciosas e Parasitárias Larissa Melo Bandeira, foi reconhecido com o terceiro lugar no Prêmio Jovem Pesquisador 2015.

O foco foi a prevalência do vírus entre os imigrantes japoneses e seus descendentes residentes em Campo Grande (MS). Os resultados obtidos poderão auxiliar no delineamento de medidas de prevenção e controle da infecção dessa comunidade.

“A idéia do projeto surgiu devido ao fato do HTLV tipo 1 ter sido descrito no Brasil, pela primeira vez, em uma comunidade japonesa residente em Campo Grande, em 1986. Após 28 anos de sua identificação, a nossa equipe se interessou em pesquisar a epidemiologia atual desta infecção nesta mesma comunidade”, explicou a Larissa.

A população de imigrantes okinawanos é considerada vulnerável à infecção pelo HTLV devido a sua procedência das Ilhas de Okinawa, região endêmica no Japão onde a prevalência do vírus pode variar entre 14% e 31%. Em Campo Grande, reside a segunda maior comunidade japonesa okinawana do Brasil.

A doutoranda estudou a infecção pelo tipo 1 do vírus, que está associado a doenças graves neurológicas degenerativas (paraparesia espástica tropical) e hematológicas, como a leucemia e o linfoma de células T humana do adulto (ATL). No mundo, há mais de 10 milhões de pessoas infectadas, sendo que apenas 2 a 3% dos indivíduos infectados desenvolvam ATL e entre 1% e 2% desenvolvam paraparesia espástica tropical.

Ao todo, 219 imigrantes e descendentes de japoneses, ou familiares residentes em Campo Grande, foram entrevistados e submetidos à coleta de sangue. Todas as amostras foram submetidas à detecção de anticorpos anti-HTLV-1/2, utilizando o método imunoensaio enzimático (ELISA) e confirmadas pela metodologia de imunoblot.

“A prevalência global da infecção pelo HTLV-1 foi de 6,8%. Essa taxa é considerada alta, sendo 40 a 52 vezes maior do que as encontradas em primodoadores de sangue (0,17%) e gestantes (0,13%) em Campo Grande”, explicou a pesquisadora. Após a análise descritiva dos fatores comportamentais de risco, foi observado que ter idade igual ou superior a 45 anos está associada a infecção pelo HTLV-1.

Para o estudo do relacionamento filogenético entre os isolados do HTLV, foram investigados 38 membros de cinco grupamentos familiares da população estudada – 20 indivíduos do sexo masculino e 18 do feminino, identificados a partir de 5 casos índices anti-HTLV-1 positivos.

“A ocorrência da infecção pelo HTLV-1 foi detectada em 34% dos indivíduos estudados. A análise filogenética associada aos dados epidemiológicos sugeriu a ocorrência de transmissão intrafamiliar, indicando as vias sexual e vertical [mãe para filho] como importantes rotas de transmissão do HTLV-1 na população estudada”, explicou Larissa.

A equipe que auxiliou a pesquisadora contou com farmacêuticos, enfermeiros e médicos. O trabalho, orientado pela doutora Ana Rita Coimbra Motta, foi desenvolvido entre abril de 2012 e outubro de 2013.