Doenças da pobreza: as dores que o mundo não vê

Publicação: 2 de outubro de 2019

Para a pesquisadora Andrea Lund, investir em soluções ambientais pode ser a única maneira de reduzir o risco de esquistossomose em locais onde a incidência da doença permanece alta

Pesquisadores pedem mais atenção para o papel dos sistemas socioeconômicos e ambientais e no envolvimento das comunidades no desenho de programas de controle de doenças

Considerada a segunda doença parasitária mais devastadora socioeconomicamente do mundo, a esquistossomose contribui para a manutenção do quadro de desigualdade e exclusão social. Presente nos países em que há maior número de pessoas que vivem em condições de extrema pobreza e vulnerabilidade, que convivem com esgotos a céu aberto e contato diário com ambientes sem higiene, como os países do continente africano, a doença assola cidades e mantém milhares de pessoas na invisibilidade. É uma doença da pobreza que o mundo não enxerga suas dores.

Para saber mais sobre a relação entre determinantes sociais e ambientais da transmissão de esquistossomose, um grupo de pesquisadores de Stanford realizou uma pesquisa em quatro vilarejos no norte do Senegal. A autora Andrea Lund, explica que em cada vilarejo foram recrutadas pessoas para participar em discussões de grupo especializadas para contar sobre as fontes de água em suas comunidades e como as pessoas lidavam com ela. Como os comportamentos em relação à água variam muito, a depender da idade e do sexo das pessoas, foram realizadas três discussões em cada vilarejo: com homens, com mulheres e com jovens.

A pesquisa revelou três principais achados. “Primeiramente, descobrimos que as pessoas com quem conversamos nesses quatro vilarejos eram conhecedoras da natureza do risco de contrair a esquistossomose. Depois, com base nesse conhecimento, foram desenvolvidas estratégias para minimizar a exposição ao parasita. Porém, mesmo com essas estratégias, a subsistência dependente dos recursos torna difícil evitar completamente a exposição”, relata. De acordo com a autora, essas descobertas reforçam a multidimensionalidade da transmissão e do risco de contrair a doença. “Fatores ambientais são determinantes importantes do risco, mas as normas socioeconômicas e as circunstâncias que levam à exposição e à sua perpetuação também são. Essas complexidades, apesar de inconvenientes, não podem ser ignoradas ao criar e implementar intervenções para reduzir o dano causado pela esquistossomose e controlar a transmissão do parasita”, destaca. O estudo (“Unavoidable Risks: Local Perspectives on Water Contact Behavior and Implications for Schistosomiasis Control in an Agricultural Region of Northern Senegal“) foi publicado no Jornal Americano de Medicina Tropical e Higiene.

Os pesquisadores concluíram que envolver as comunidades na criação de programas de controle de doenças poderia ajudar. Segundo Lund, intervenções para controlar a esquistossomose são frequentemente de natureza cima-baixo, vindo na forma de campanhas de distribuição de medicamentos por governos ou entidades de fora das comunidades afetadas. “Nossa pesquisa mostrou não somente que as pessoas dos vilarejos que estudamos estavam cientes e tinham conhecimento sobre o risco da doença ao seu redor, mas que também frequentemente agiam para reduzir seus riscos”, assinala. Para ela, isso demonstra que os programas de controle da esquistossomose podem diversificar suas ações ao envolver as comunidades na mitigação de riscos enquanto se distribui os medicamentos. O envolvimento das comunidades pode ser um complemento baixo-cima às intervenções cima-baixo prevalecentes.

Questionada por que a administração de medicações fracassou no Senegal, a autora enfatiza que é difícil saber exatamente porque a administração em massa de medicamentos no país não atingiu níveis significativos de redução. Mas isso não é um caso isolado. Há outros lugares onde a prevalência e a intensidade da doença se manteve alta apesar de vários anos de distribuição de medicamentos. “A identificação desses hot-spots persistentes é relativamente recente e é difícil identificar as causas dessa persistência, mas provavelmente uma série de condições sociais e ambientais coloca as pessoas em contato com a água contaminada com o parasita, levando a reinfecção após o tratamento. Talvez tenha algo a ver com a ecologia das populações de caramujos torna o risco especialmente elevado. Talvez as pessoas tenham poucas alternativas além dessa água. Talvez seja uma combinação dos dois”, pondera.

Riscos inevitáveis e invisibilidade dessas populações

A equipe de pesquisadores tenta entender os obstáculos à cura e as formas de contorná-los. Entretanto, em locais em que a subsistência está fortemente ligada ao meio ambiente e as pessoas contam com poucas alternativas, além de estar em contato com a água, não é razoável esperar que elas evitem esse contato, porque compreensivelmente sempre escolherão atender as necessidades econômicas mais urgentes ao aceitar as consequências à saúde inerentes a esse comportamento, cujos impactos acumulam gradativamente com o tempo.

“Quando esse é o caso, torna-se fundamental pensar em como reduzir o risco de infecção no meio ambiente. Nós podemos controlar as populações de caramujos de forma ecologicamente correta?”, indaga Lund ao reconhecer que no Senegal, a esquistossomose se tornou problemática por conta de impactos ambientais resultantes da construção de barragens. Para isso, sua equipe analisa formas de mitigar esses impactos que possam ajudar a reduzir a doença – recuperar predadores de caramujos, que se perderam quando as barragens foram construídas e remover a vegetação aquática, que se torna invasiva e provê um habitat adequado para eles. Um foco maior no papel dos sistemas socioeconômicos e ambientais e no envolvimento das comunidades no desenho de programas de controle de doenças pode contribuir.

Em relação à cura, na opinião da Lund, o maior obstáculo se dá porque o tratamento resolve as infecções existentes, mas não protege contra novas. Ela é enfática ao apontar que pessoas sempre estarão em risco de infecção e reinfecção enquanto caramujos infectados estiverem no ambiente. “Em locais de alta incidência, onde o tratamento não reduziu os efeitos da doença, devemos aceitar a complexidade inconveniente dos determinantes sociais e ambientais dos riscos da esquistossomose e passar a pensar criativamente sobre como reduzi-los no ambiente ao mesmo tempo em que se permita que as pessoas subsistam”, conclui.

A pesquisadora lamenta a facilidade de não vermos um problema que não nos afeta diretamente. Segundo ela, também é fácil gravitar em torno da ideia de que soluções simples como campanhas de tratamento funcionarão em todo lugar. As campanhas de tratamento têm reduzido o fardo da esquistossomose em muitos lugares e isso não deve ser menosprezado. Mas, segundo ela, em locais de alta incidência, as campanhas têm falhado e se faz necessário o uso de estratégias complementares, que incluem controle das populações de caramujos, mudança de comportamento quando possível e envolvimento da comunidade.