Pierre Ambroise-Thomas (Paris 1937 – 2014)

Publicação: 24 de março de 2014

Uso-me do doloroso dever de comunicar o falecimento do nosso colega e querido amigo Doutor Pierre Ambroise-Thomas (MD 1963, DSc 1969), no dia 16 de março de 2014

FOTO 3 (1)

“Um amigo do Brasil”

Uso-me do doloroso dever de comunicar o falecimento do nosso colega e querido amigo Doutor Pierre Ambroise-Thomas (MD 1963, DSc 1969), no dia 16 de março de 2014, para render ao ativo professor de Parasitologia e engajado trabalhador da Medicina Tropical uma última homenagem pelo grande médico e extraordinária figura humana que foi.

Pierre era professor honorário de Parasitologia e Medicina Tropical da Faculté de Médecine de Grenoble (França), ex-chefe do Serviço de Parasitologia-Micologia do Centro Hospitalo-Universitário na mesma cidade, Presidente honorário da Académie Nationale de Médecine, membro da Académie Nationale de Pharmacie e Officier dans l’Ordre de La Légion d’Honneur.

Pierre nasceu em Paris em 15 de janeiro de 1937 e iniciou sua carreira em Alger (Argélia – ainda uma colônia Francesa) onde completou seus estudos médicos. Lá, não só teve suas primeiras experiências de médico em condições particularmente difíceis – o que parecia prenunciar o perfil de atuação profissional que escolheria ter pelo resto de sua vida, como se viu obrigado a deixar repentinamente o país, com sua esposa, praticamente suas roupas do corpo e alguns pertences pessoais, em 1962. Corajoso e obstinado como sempre, Pierre defendeu, entretanto, sua tese de Doutor em Medicina em Lyon no ano seguinte.

Docteur ès Sciences desde 1969, é nomeado para a recém-criada Faculté de Médecine de Grenoble em 1970, onde inaugura o primeiro serviço de Parasitologia, que se tornaria não só um Centro de Referência Nacional, mas, e, sobretudo, um “Centro Colaborador da OMS para Malária e Doenças Parasitárias”. Pierre torna-se professor e desenvolve uma carreira internacional em ensino, pesquisa e clínica hospitalar. “Verdadeiro embaixador da medicina francesa no exterior”, como o descreveu o Professor André Laurent Parodi, que o saudou em nome da Académie Nationale de Médecine, em seus obséquios. Pierre treinou muitos estudantes, na França (em Grenoble e em muitas outras universidades), e em vários países da Europa, África e Ásia, tendo sido Professor Honoris Causa da Universidade de Medicina de Xangai, onde lecionou por quase 30 anos.

Suas atividades de pesquisa versaram principalmente sobre a imunologia e o tratamento da malária por terapias combinadas à artemisinina (ACT), a toxoplasmose e várias outras doenças parasitárias e micóticas oportunistas. Seus trabalhos geraram mais de 300 publicações em revistas indexadas, cerca de 1.000 publicações em revistas francesas ou comunicações em conferências internacionais e 14 livros (incluindo o volume “As doenças infecciosas e parasitárias” para o Dicionário da Académie Nationale de Médecine).

Tais atividades e méritos lhe valeram a eleição para a Académie Nationale de Médecine. Primeiro, Membro correspondente em 1987 (como de regra naquela casa), e depois titular em 1999, ele tornar-se-ia seu Presidente em 2008. Na ANM, trabalharia particularmente na prática médica em hospitais e presidindo a Comissão “Exercício médico em meio hospitalar público e meio hospitalo-universitário”. Grande defensor da promoção da medicina geral e dos clínicos gerais, seu desejo era fazer entrar na Académie médicos generalistas como membros consultivos, convencido de que a experiência de campo desses seria enriquecedora para a Academia. Pierre liderou um grupo de trabalho nesse sentido.

Pierre Ambroise-Thomas contribuiu em várias ações administrativas e políticas de alto nível, tanto em nível nacional e internacional, como a Diretoria da Farmácia e do Medicamento (órgão Francês equivalente à FDA Americana) e a Presidência da Societé Française de Patologie Exotique; e integrou também o Conseil National des Univestités, os Conselhos Científicos do CNRS e do ORSTOM (atual IRD). Pierre presidiu ainda a International Federation for Tropical Medicine, foi membro do Conselho da Federation of European Societies for Tropical Medicine and International Health e, perito para a OMS desde 1974, foi nomeado pelo Diretor-Geral para o Grupo Assessor Técnico Estratégico, encarregado de aconselhar a Organização na luta contra as doenças tropicais negligenciadas.

Sempre desejoso de finalizar a pesquisa de bancada pelo trabalho no campo, Pierre realizou – em mais de 60 países diferentes e, frequentemente, com o apoio da OMS – numerosas missões sobre as principais doenças parasitárias (malária, amebíase, esquistossomose, oncocercose e filariose linfática).

No Brasil, Pierre participou de vários eventos criados ou organizados por nós, na Fiocruz: a 1a e a 7a Reuniões Nacionais de Pesquisa em Malária, o I Curso Internacional de Malariologia e muitas edições do Seminário Laveran & Deane sobre malária, que ocorre há 18 anos na Ilha de Itacuruçá e do qual era Professor habitual. Ele organizou o XVI International Congress on Tropical Medicine em Marseille (França) e foi por sua indicação e empenhada defesa que o XVIII International Congress seria organizado, sete anos depois, no Rio de Janeiro onde realizara-se, também por sua proposição e apoio junto à Fondation Internationale Laveran, o IV International Congress  on Malaria and Babesioses. Por proposição do Acadêmico José Rodrigues Coura, Ambroise-Thomas tornou-se, em 2009, Membro Honorário Estrangeiro da Academia Nacional de Medicina, em cerimônia na qual fez questão de participar de smoking, como manda o protocolo para a posse de Acadêmicos Brasileiros. Pierre deixa a sua amada esposa Colette, sete filhos e 16 netos.

Retomo aqui, mais uma vez e finalmente, os dizeres do Professor Parodi, por partilhar de sua opinião. Pierre Ambroise-Thomas era “… um homem de fé: fé em sua missão… fé em sua grande família, da qual tinha orgulho e que lhe fazia tão bem… fé na amizade, a que era fiel em todas as circunstâncias… e profunda fé religiosa… que exercia com igual convicção e discrição”.


Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro
Presidente de Federação Internacional de Medicina Tropical