Pesquisadores buscam melhores evidências científicas para o enfrentamento da pandemia

Publicação: 9 de maio de 2020

Resultados preliminares do primeiro estudo sobre cloroquina contra covid-19 apontaram riscos à vida dos pacientes que receberam altas doses da substância

Resultados apresentados servem como um alerta, oferecendo evidências mais robustas para protocolos de tratamento da covid-19

Conduzido por mais de 70 pesquisadores brasileiros, que pertencem aos quadros de importantes Instituições em pesquisa como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Brasília (UnB), Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), os resultados iniciais do estudo CloroCovid-19, mostram que pacientes graves com Covid-19 não devem usar doses altas de cloroquina. A pesquisa, que tem como objetivo avaliar a segurança e a eficácia de duas dosagens diferentes do medicamento e analisou 81 pacientes com síndrome respiratória aguda grave (SRAG). Os resultados apresentados servem como um alerta, oferecendo evidências mais robustas para protocolos de tratamento da Covid-19.

Há enorme pressão para utilização da cloroquina no tratamento, entretanto, os pesquisadores descobriram que a aplicação de doses mais altas (600 miligramas) duas vezes ao dia por dez dias, teve efeito desfavorável e gerou efeitos colaterais, como arritmia cardíaca ou até mesmo a morte. O estudo permanece em andamento e está sendo desenvolvido por uma equipe que há anos faz estudos de pesquisa em malária, HIV/Aids, tuberculose e outras doenças emergentes, com reconhecimento mundial e participação em organizações internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A pesquisa foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), sob CAAE 30504220.5.0000.0005. Integram o comitê médicos especialistas, brasileiros e estrangeiros, que passaram a acompanhar diariamente os resultados. Um comitê de acompanhamento e segurança independente foi montado.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), entrevistou o infectologista Dr. André Siqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) que fez parte do estudo CloroCovid-19.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

SBMT: A interpretação equivocada sobre o estudo CloroCovid-19 por parte do ativista, investidor e CEO da Yuko Social, Michael Coudrey, responsável pelo controle de mídia para políticos e organizações, publicada no Twitter, gerou uma onda de reações de natureza ideológica. E na comunidade científica, qual foi a repercussão?

Dr. André Siqueira: O estudo CloroCovid-19, como foi já bastante debatido se propôs a estudar duas doses de cloroquina no tratamento do coronavirus: a dose recomendada pelo Ministério da Saúde, de até 450 mg por dia, e a dose de 1200 mg por dia, chineses maior dose utilizada em humanos com segurança, que é usada no tratamento de pacientes com câncer de pâncreas. Havia necessidade científica e prática de avaliação de doses altas que podem atingir altas concentrações nos pulmões diante da letalidade da doença em casos graves. Então a repercussão foi bastante grande na imprensa e também com alguns grupos. A reação da comunidade científica é positiva no termo da necessidade desse estudo e de ter seguido critérios éticos e metodológicos adequados. Críticas sempre existem no processo científico.

SBMT: Algo que vem sendo pouco comentado sobre este estudo é o conflito de interesse entre o governo federal e a pesquisa clínica. Qual a sua opinião sobre isso?

Dr. André Siqueira: Uma das questões importantes em pesquisa clínica dando ideia da unidade é a relação com patrocinador e quem executa pesquisa. Então obviamente sabemos que muitos ensaios clínicos são financiados pelo produtor do medicamento. Então é fundamental analisar qual o papel do financiador, se participou do desenho, da análise, da escrita do manuscrito. Esses são os fatores que nos levam a julgar a possibilidade de conflito de interesse. No nosso caso, o interesse sempre foi o bem-estar dos pacientes, de forma que o comitê de acompanhamento agiu prontamente ao menor sinal de toxicidade da dose mais alta.

SBMT: A razão das críticas poderia ser uma questão de conflito de interesse, uma vez que a pesquisa, foi financiada pelo Governo do Estado do Amazonas, Fundação Oswaldo Cruz (Farmanguinhos), Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e fundos federais concedidos por uma coalizão de senadores brasileiros e o presidente da república já haver publicamente se manifestado em favor do uso da cloroquina?

Dr. André Siqueira: A pesquisa foi financiada por este conjunto de entes que não teve qualquer participação no desenho, execução e analise dos dados. Repetindo, o interesse foi de realizar o estudo, seguindo os padrões éticos e metodológicos adequados para dar resposta o mais rápido possível à pandemia.

SBMT: Vivemos uma situação de emergência que demanda respostas rápidas da ciência. Ao mesmo tempo, não temos o direito de cobrar da sociedade a expertise para avaliar a qualidade do estudo CloroCovid-19 e precisamos contar com o bom senso dos pesquisadores envolvidos, bem como nos jornalistas, formadores de opinião. Como filtrar notícias de cunho torpe, mentiroso e de má fé?

Dr. André Siqueira: Realmente estamos enfrentando uma pandemia que vai marcar o nosso tempo, já está marcando em diversos aspectos, o que acaba por gerar grandes repercussões tanto na saúde quanto na sociedade, na economia e, obviamente, as pessoas estão na expectativa de estudos, sobre o que pode ser feito, resultados, prevenção, vacina, e medicamentos, ou seja, tudo o que esperamos ter. Aí entra a questão importante da comunicação, de não darmos atenção aos meios de sensacionalistas, tanto muito positivos quanto muito negativos, sempre procurar fontes oficiais para se inteirar dos estudos e evitar as fake news. Neste sentido vale o ceticismo quando receber mensagens sem fontes claras muito positivas ou muito negativas. Procurar os meios oficiais é sempre a conduta mais adequada. Esse também é um grande desafio para os pesquisadores, de encontrar formas para explicar ao público leigo de forma mais clara o que as pesquisas realmente revelam, o que tem gerado muita repercussão: alguns resultados de estudo in vitro, com cultura de células, que são muito preliminares e que não são ainda muito distantes da aplicação para o tratamento das pessoas infectadas. Todas essas etapas do desenvolvimento e da avaliação de tratamento têm de ser conhecidas e explicadas de uma forma melhor para o púbico leigo.

SBMT: Há anos a questão entre cientistas e jornalistas é discutida. Em sua opinião, a divulgação dos resultados do estudo CloroCovid-19 se deu de forma politizada e não científica, aproveitando-se dos resultados negativos? Por quê?

Dr. André Siqueira: Certamente estamos em um clima, principalmente no Brasil, bastante politizado e polarizado, então diferentes lados do espectro político enfatizam o que acham ser mais importante e isso acaba muitas vezes levando a interpretações errôneas. Não temos esse conflito político, e o que queremos é avaliar de uma forma científica, criteriosa, qualquer tratamento, intervenção realizada para fundamentar com boas evidências as práticas e as políticas a serem adotadas. O clima de muita polarização leva às distorções e a vieses que se afastam do critério científico. É preciso poder distanciar-se destes fatores e analisar os dados de forma transparente e objetiva, mesmo que não apontem para o “desejado”.

SBMT: Em nenhum momento o estudo fala em “overdose”, apenas em “dose mais alta” e “dose mais baixa”. Ambas foram quantificadas com base em estudos do exterior. Além disso, esse foi o primeiro estudo realizado com a cloroquina comprovando a dose ideal. Ademais, a cloroquina é fabricada pela Fiocruz/Farmanguinhos (Brasil), e, ainda, mais barata que outros medicamentos. O senhor acredita que esses seriam alguns dos motivos para terem politizado o medicamento e a tentativa de desacreditar o estudo? Por quê?

Dr. André Siqueira: Não se fala overdose porque não houve overdose. Como dito anteriormente, dose baixa recomendada pelo Ministério da Saúde e dose alta recomendada pelo governo chinês e que havia sido usada em outros contextos. Então não houve overdose. A cloroquina é uma droga bastante conhecida e utilizada. Sabíamos dos potenciais eventos adversos, não nesse público específico do Covid, por isso, foi realizada uma avaliação precoce de possíveis desfechos negativos, o que de fato foi observado e mudado imediatamente. Ademais, tem cada vez mais sido descrito que pessoas com covid-19 podem ter miocardite e outras alterações cardíacas que podem ter predisposto a tais complicações. Havia tendência de alterações no eletrocardiograma em pacientes com a dose mais alta, tanto que este braço do estudo (com a dose mais alta) foi suspenso e isso pode ter ocorrido por diversos fatores, entre eles, poderia ser o fato dos pacientes com covid estarem em estado crítico ou poderiam já ter alterações cardíacas ou outras co-morbidades, que é são circunstâncias muito diferentes daquelas outras condições que tratamos normalmente com a cloroquina e a hidroxicloroquina.

SBMT: Quais as bases científicas para a dose alta recomendada pelos chineses e quais eram os fundamentos para o uso de cloroquina em baixas doses?

Dr. André Siqueira: A questão relacionada às doses diz respeito a tentar encontrar um esquema terapêutico com potencial de maior benefício para uma doença nova e desconhecida com o menor perfil possível de toxicidade e eventos adversos. Daí advém a utilização tanto de doses altas quanto baixas, em tentar encontrar uma boa razão benefício/segurança, o que apenas estudos controlados podem responder com segurança.

SBMT: A cloroquina morreu para o covid-19?

Dr. André Siqueira: Ainda não se pode afirmar. Há estudos acontecendo com doses mais baixas para pacientes graves bem como o uso de cloroquina em fases iniciais de pacientes ainda sem complicações e o uso profilático em profissionais de saúde. Ainda não se pode dizer que a cloroquina é de fato efetiva em qualquer destes cenários, para isso teremos que esperar os resultados destes estudos.

SBMT: O Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul instaurou inquérito civil para buscar elementos e informações a respeito dos fatos tratados e conclusões obtidas nos estudos realizados por pesquisadores brasileiros. O senhor poderia falar a respeito?

Dr. André Siqueira: É preciso entender e defender o procedimento científico adequado. A pesquisa clínica de qualidade é feita seguindo padrões internacionais de metodologia e ética e com toda transparência. Foi isso que fizemos e seguiremos procedendo com os melhores padrões existentes.

SBMT: Qual a mensagem mais importante que precisa ser transmitida à sociedade sobre o estudo CloroCovid-19?

Dr. André Siqueira: A mensagem mais importante do estudo CloroCovid-19 e de todos os estudos clínicos que sejam feitos pela sociedade em geral é que os cientistas estão extremamente engajados em encontrar as melhores estratégicas de tratamento, manejo, controle da infecção pelo coronavírus. Queremos que cada vez menos pessoas adoeçam e aquelas que adoeçam tenham maior chance de sobreviver a essa infecção que tem consequências tão deletérias. Então confiem na “Boa Ciência, pois o Brasil tem excelentes cientistas e, à medida que os resultados forem sendo encontrados, eles vão ser divulgados de forma a melhorar o desfecho em quem ainda está sendo acometido pela doença ou vai ser acometido no futuro.