Pesquisa reforça possível participação de gato doméstico na epidemiologia da LV

Publicação: 8 de outubro de 2022

Este foi o primeiro estudo a relatar a transmissão experimental de L. infantum de felinos para outro hospedeiro, tendo o flebotomíneo como vetor

A leishmaniose pode ser contraída tanto por cachorros quanto por gatos, embora a incidência em felinos seja menor

Causada por protozoário Leishmania spp, a leishmaniose visceral (calazar, em humanos) é uma doença parasitária de característica protraída, que, quando não tratada, leva à morte. Ao contrário do que muitos imaginam, gatos domésticos (Felis catus) também podem ser infectados por Leishmania spp, apesar dos cães domésticos (Canis familiaris) serem considerados como principal reservatório do parasita. O primeiro relato de leishmaniose visceral felina (LVF) foi, já em 1912, na Argélia, em um animal de quatro meses, que convivia com um cão e uma criança, portadores de leishmaniose visceral. O diagnóstico baseou-se no achado de formas amastigotas de Leishmania spp na medula óssea deste gato.

A leishmaniose em gatos, zoonose provocada pelo protozoário L. infantum e transmitida pelo mosquito-palha (Lutzomyia longipalpis), tem sido relatada em vários países. No Brasil o primeiro caso de gato doméstico infectado por L. infantum foi registrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O animal, um macho de oito anos, castrado, apresentou como sinais clínicos fraqueza, linfadenopatia, onicogrifose, caquexia, fadiga, anorexia e uma ferida perto do pavilhão auricular esquerdo. Recentemente o Centro de Controle de Zoonoses de Ribeirão Pires, região metropolitana de São Paulo, realizou um mapeamento (inquérito epidemiológico) para diagnóstico de casos da doença. Desde o primeiro relato de LVF, mais de 40 casos clínicos foram relatados na Europa, incluindo Portugal, Itália, França, Espanha, Grécia, bem como Israel e Palestina, Egito, Suíça, Irã, Guiana Francesa, Venezuela e Brasil, estes últimos com áreas endêmicas para Leishmania spp. Estudos na Itália e na Síria comprovaram, por meio da tipagem de DNA, parasitas idênticos no sangue dos felinos e no intestino dos flebotomíneos, que se infectaram naturalmente ao realizar repasto sanguíneo em gatos, comprovando a transmissibilidade do parasita. Esta evidência de transmissibilidade comprovada dos parasitas de felinos a um vetor sugere que os gatos podem exercer o papel de reservatórios domésticos da doença em vez de simplesmente um hospedeiro acidental.

No entanto, a transmissão da LVF para outro hospedeiro ainda não havia sido demonstrada. Para tentar esclarecer o assunto, um estudo intitulado Transmission of Leishmania infantum from cats to dogs, verificou a possibilidade de transmissão de L. infantum de gatos para cães por meio do xenodiagnóstico em um gato com a doença, utilizando 55 fêmeas de Lu. longipalpis. O sequenciamento do DNA do parasito isolado do gato confirmou a infecção por L. infantum e apresentou 99% de similaridade com sequências de DNA de L. infantum de cães. A partir deste estudo, foi possível confirmar a transmissão experimental de L. infantum de um gato doméstico para um cão doméstico pelo seu vetor biológico, Lu. longipalpis. Este foi o primeiro estudo a relatar a transmissão experimental de L. infantum de felinos para outro hospedeiro tendo o flebotomíneo como vetor e com ele foi possível demonstrar que Lu. longipalpis se alimenta de felinos, que se infecta com L. infantum enquanto se alimenta de gato doméstico infectado e que transmite L. infantum do felino para o cão.

Questionada por que os gatos parecem mais atrativos para Lu. longipalpis, a Dra. Ivete Lopes de Mendonça, do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária da Universidade Federal do Piauí (UFPI), uma das autoras do estudo, explica que no xenodiagnóstico realizado nos gatos, os flebotomíneos tiveram uma atração muito rápida e se ingurgitaram de sangue em aproximadamente 25 minutos. “Para se ter uma ideia, inquérito sorológico realizado em Teresina (PI), em 2018, demonstrou que 5% dos gatos estariam infectados, taxa está próxima da infecção canina. Isso significa que tanto os gatos quanto os cães podem atuar como reservatórios da doença”, atenta. A pesquisadora acredita que os gatos sejam muito atrativos na natureza, talvez até mais que os cães, devido a observação de que no xenodiagnóstico atraíram rapidamente os insetos. “Os gatos realmente são candidatos a serem reservatórios urbanos da LV, tal como os cães, e isso tem que ser estudado de forma mais ampla sob pena do programa de controle, focado apenas em cães, esteja fadado a não funcionar”, ressalta.

Os parasitas foram observados na pele e nos linfonodos do cão do experimento, mas não na medula óssea, baço e fígado, talvez possa ser respondido devido ao padrão da resposta imune eficiente desenvolvida pelo animal, que pode ter controlado a infecção nesses órgãos. É possível que, no gato, a L. infantum tenha mais predileção pela pele. “Cada animal tem sua resposta imunológica. Acredito não ser possível que os gatos tenham a mesma resposta dos cães. Nestes, a resposta dos linfócitos T é que exerce a maior influência sobre a infecção. Como a Leishmania é um parasito intracelular obrigatório, as defesas do hospedeiro dependem da atividade dessas células, que se encontram reduzidas durante a infecção. Entretanto há a proliferação intensa de linfócitos B e a produção de anticorpos é imensa, porém, não protetora”, explica a Dra. Mendonça. Ainda segundo ela, é necessário, também, considerar a possibilidade de que apenas uma pequena quantidade de parasitas tenha sido transmitida ao cão, retardando a disseminação em quantidades suficientes para serem detectadas nos métodos utilizados. “São necessários novos estudos para melhor compreender o comportamento de L. infantum em cães, que apresentam diferentes perfis de resposta imune quando infectados com parasita originário de gato”, complementa.

Discutível forma de controle vetorial x crueldade humana contra  animais

Não foi demonstrado até hoje risco para o ser humano em conviver com um animal infectado com L. infantum na ausência de insetos transmissores, embora a transmissão direta tenha sido demonstrada em pessoas que usam drogas endovenosas. Isso porque a leishmaniose visceral, assim como a dengue, requerer a presença do vetor uma doença transmitida por vetor. Logo, o fato do animal estar no mesmo ambiente que humanos não indica risco da doença na ausência do transmissor da doença. O foco principal da prevenção e do controle da doença deve ser o controle vetorial. Entretanto, as discutíveis normas brasileiras para eliminação de cães com a doença causam estranheza quando comparadas às de outros países. Apesar do cuidado de cães infectados serem comuns na Europa, onde há tratamentos eficientes, no Brasil, o entendimento é o de que a utilização de drogas destinadas a seres humanos com LV é considerada um risco. Das 88 nações do mundo onde a doença é endêmica, o Brasil é o único que utiliza o sacrifício dos cães como instrumento de saúde pública.

A pergunta agora é se os gatos representam algum papel importante na transmissão da LV? E se as medidas que se aplicam aos cachorros devem ser estendidas aos felinos também? O Dr. Carlos Henrique Nery Costa, coordenador do Laboratório de Leishmaniose da Universidade Federal do Piauí (UFPI), referência para o mundo no tema, lembra que o combate ao vetor é utilizado apenas como complemento à estratégia de eliminação de cães. “Vários estudos mostram que sacrificar animais não é eficiente. Sacrificar cachorros ou gatos não afeta e nem vai reduzir a transmissão aos seres humanos, pois o grau de competência de infectar o vetor é um parâmetro menos importante. O mais importante é sempre a capacidade vetorial, que envolve parâmetros mais complexos, e o combate aos vetores deve fazer parte das principais estratégias de controle da doença”, justifica. No Subcontinente Indiano, por exemplo, que não tem LV em animais, adota como uma de suas principais estratégias o uso de diclorodifeniltricloroetano (DDT) e outros inseticidas para controle. “Lá a doença está acabando, houve redução de mais de 90% dos casos com a utilização de várias medidas de saúde pública e, talvez a doença possa ser erradicada em poucos anos. Isso demonstra que, realmente, o combate ao vetor é mais eficiente do que o sacrifício de animais. Infelizmente no Brasil ainda persiste a cultura de sacrificar animais”, conclui o Dr. Costa.

A Dra. Mendonça concorda. “O manejo animal e ambiental são fundamentais para interromper a cadeia de transmissão. É fundamental educar a população sobre a posse responsável do animal, destino adequado do lixo, uso de coleiras impregnadas com inseticidas, uso de vacina”. Assinala. Em relação ao desenvolvimento de uma vacina específica para gatos, a pesquisadora não vê essa possibilidade em curto prazo, visto que estudos precisam ser realizados para esclarecimento dos aspectos imunológicos da leishmaniose felina. No entanto, segundo ela, as vacinas que existem para cães talvez possam ser testadas em gatos para avaliar o impacto sob a transmissão para seres humanos.

No Brasil há pouca mobilização governamental em torno do calazar, que apesar de matar mais que a dengue, permanece com pouca visão política e interesse por parte dos administradores do poder, fazendo com que esta doença tropical permaneça com pouca visibilidade, o que se traduz em ausência de investimentos para controle, conhecimento e pesquisa, bem como ausência de investimentos para medicamentos capazes de tratá-la. Talvez isso ocorra porque o calazar afete a parcela mais pobre e negligenciada da população.