Pesquisa aponta que IL-6 bloqueadores utilizados para artrite reumatóide reduzem risco de morte por COVID-19

Publicação: 5 de fevereiro de 2021

Além disso, pacientes que receberam tocilizumabe ou sarilumabe se recuperaram mais rapidamente, deixando a terapia intensiva cerca de 7 a 10 dias antes do que aqueles que receberam tratamento padrão

A implantação desses tratamentos pode contribuir significativamente para reduzir as pressões sobre os hospitais. Até agora apenas dexametasona e hidrocortisona eram indicadas para pacientes graves, além dos ventiladores

Pesquisadores descobriram que 2 medicamentos utilizados para tratar a artrite reumatoide (tocilizumabe e sarilumab) podem ajudar a salvar a vida de um em cada 12 pacientes que estão em terapia intensiva devido ao estágio grave da COVID-19. Os resultados divulgados no estudo intitulado “Interleukin-6 Receptor Antagonists in Critically Ill Patients with Covid-19 – Preliminary report”,  publicado no medRxiv, indicam 24% de redução do risco de morte. Os dados são de um ensaio clínico conhecido como Remap-Cap (plataforma adaptativa multifatorial incorporada para pneumonia adquirida na comunidade), que envolve mais de 3.900 pacientes com COVID-19 em 15 países. A equipe também descobriu que aqueles que receberam tocilizumabe ou sarilumabe se recuperaram mais rapidamente, deixando a terapia intensiva cerca de 7 a 10 dias antes do que aqueles que receberam o tratamento padrão.

De acordo com a pesquisa, a mortalidade hospitalar para os pacientes que receberam tratamento padrão foi de 35,8% (142 de 397), enquanto para os que foram tratados com o tocilizumabe foi de 28% (98 de 350) e com sarilumabe foi de 22,2% (10 de 45). A combinação dos resultados para os dois  medicamentos deu uma mortalidade hospitalar de 27,3% (108 de 395) –queda de 8,5 pontos percentuais no risco absoluto de morte, ou uma redução relativa de 24% em comparação com o grupo que recebeu tratamento padrão.

O NHS, serviço nacional de saúde do Reino Unido começou a utilizar o tocilizumabe para tratar pacientes com coronavírus a partir de 08 de janeiro. A decisão de utilizar o medicamento se deu depois que resultados de testes em cerca de 800 pacientes confirmaram que o medicamento traz benefícios, reduzindo o risco de morte em 24%.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), entrevistou o Dr. Anthony C. Gordon, pesquisador principal do estudo.

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: O senhor acha que já é hora de incluir as terapias anti-IL6 (particularmente o receptor anti-IL-6 na rotina de atendimento a esses pacientes?

Dr. Anthony C. Gordon: Mostramos um claro efeito benéfico (melhora da sobrevida e recuperação mais rápida) desses tratamentos em um grande ensaio de pacientes com COVID grave que precisaram de suporte respiratório em terapia intensiva. Portanto, acho que os médicos devem considerar o uso desses tratamentos se tiverem pacientes em situação semelhante.

SBMT: Como os preços dos dois medicamentos se comparam? O senhor tem notícias de que os medicamentos estão amplamente disponíveis para abastecimento mundial, pela Roche e Sanovi?

Dr. Anthony C. Gordon: Eles tem preços semelhantes. Não sei sobre o fornecimento global de drogas.

SBMT: O senhor acha que o principal ator da patogênese da SARS-CoV-2 é a hiperinflamação? Como você acha que a IL-6 atua no COVID-19?

Dr. Anthony C. Gordon: IL-6 é uma citocina inflamatória chave em muitas condições inflamatórias. Parece ter um papel importante no COVID-19 conduzindo grande parte da resposta inflamatória no pulmão. É provável que existam outras citocinas que são importantes e, portanto, outras drogas semelhantes podem ser importantes para avaliar em ensaios clínicos.

SBMT: A PCR é um marcador de resposta de fase aguda e não tem nenhum papel patogênico conhecido. No entanto, o senhor acha que essa molécula tem alguma ação na patogênese da COVID-19?

Dr. Anthony C. Gordon: Não sabemos se é patogênico ou apenas um marcador da resposta inflamatória.

SBMT: Algumas doenças tropicais, como malária severa, dengue, ebola, calazar e outras, mostram evidências de hiperinflamação. É hora de começar os testes com antagonistas do receptor de IL-6?

Dr. Anthony C. Gordon: Possivelmente, mas devemos selecionar os pacientes certos. Não cuido de pacientes com essas doenças tropicais, mas suspeito que apenas os pacientes com uma resposta hiperinflamatória podem se beneficiar. Estudos futuros devem considerar isso com cuidado.

SBMT: O senhor já tem os resultados com anti-IL1 (Anakinra) para COVID-19 como parte dos estudos REMAP-CAP?

Dr. Anthony C. Gordon: Não temos os resultados de Anakinra ainda.

SBMT: Como as descobertas para o receptor anti-IL-6 se relacionam com as impressionantes descobertas recentes dos benefícios da colchicina para COVID-19?

     Dr. Anthony C. Gordon: Só vi os primeiros resultados da colchicina e foi em uma população muito diferente. Acho que drogas diferentes têm papéis diferentes em grupos diferentes de pacientes.