O mercado contra a ciência: Alexandra Elbakyan rouba das editoras para dar aos cientistas

Publicação: 10 de julho de 2020

Insatisfeita com o modelo de publicação, Elbakyan fundou, em 2011, aos 23 anos, o site Sci-Hub, que proporciona livre acesso a milhões de publicações científicas que, legalmente, deveriam ser pagas

O modelo de negócio, exclusivo, torna o acesso à ciência somente possível por indivíduos muito ricos e desrespeita o Artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU)

Considerada a Robin Hood da ciência internacional, a programadora cazaquistanesa Alexandra Elbakyan, acima de tudo, é uma pirata da informática que luta pelo livre acesso universal aos estudos científicos. Pesquisadores do mundo inteiro tinham grande dificuldade de acessar a literatura científica porque os principais periódicos científicos exigem pagamento, seja para publicar, seja para acessar. E são caros. No Brasil, por exemplo, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) paga uma fortuna para as editoras de artigos científicos para permitir o acesso de seus pesquisadores. Insatisfeita com o modelo de publicação, Elbakyan fundou, em 2011, aos 23 anos, o site Sci-Hub que proporciona livre acesso a milhões de publicações científicas que, legalmente, deveriam ser pagas. Elbakyan revolucionou esse ambiente ao criar o website que quebra o controle digital e permite o acesso de milhões de usuários, de cientistas mundo afora, principalmente nos Estados Unidos aos principais periódicos do mundo.

Elbakyan explica que quando o Sci-Hub começou, havia um enorme problema para muitas pessoas acessarem documentos de pesquisa por trás de paywalls. “Havia comunidades de pesquisadores na Internet – fóruns – eles vieram antes do boom da mídia social – grandes seções desses fóruns foram dedicadas a solicitar ajuda para obter algum papel por trás do paywall. Eu queria escrever um software que as pessoas pudessem usar para obter esses papéis automaticamente. Em 2011, adquiri experiência em programação na Web e a ideia de como fazer isso. O Sci-Hub obtém trabalhos de pesquisa usando o acesso de universidades inscritas; ele se conecta a diferentes universidades – mais de 500 – para acessar sites de editores”, detalha.

A proposta do Sci-Hub é quebrar as barreiras científicas, facilitando o acesso à literatura científica e, consequentemente, o desenvolvimento de novas pesquisas. Pesquisadores e estudantes são favoráveis e amam realizar pesquisas no site. Elbakyan conta que a reação ao Sci-Hub foi uma emoção muito positiva desde o início. Segundo ela, muitos pesquisadores imediatamente começaram a enviar seus agradecimentos, notas e perguntas como eles poderiam doar para apoiar o projeto e orgulha-se em dizer que nunca houve feedback negativo.

Quanto às editoras, essas acham o repositório um absurdo e a guerra entre o Sci-Hub e as revistas científicas continua. Elbakyan diz haver uma guerra fria entre o Sci-Hub e os editores de pesquisa que continuam até hoje. Os domínios do repositório são rotineiramente bloqueados. E assim o Sci-Hub coleciona inimigos ao redor do mundo e a plataforma vai resistindo aos processos judiciais. “Até agora, eu ignorei todos os processos”, assegura Elbakyan.

Até o surgimento do Sci-Hub, o acesso aberto era promovido em grande escala, com relativo sucesso, apenas pelos movimentos do acesso aberto legal. Com o repositório, os estudantes e cientistas não precisam pagar fortunas em assinaturas de periódicos científicos e conseguem acessar conteúdos de qualidade para desenvolver suas pesquisas. Entretanto, como o próprio site diz, trata-se de um serviço pirata, portanto, ilegal. Isso faz com que a URL do Scihub seja alterada com frequência. Recentemente, intensificaram-se os avisos de que o Sci-Hub representa uma ameaça à segurança cibernética para as universidades. Questionada se o Sci-Hub é seguro, Elbakyan enfatiza que talvez esse tenha sido um problema técnico temporário quando o Sci-Hub atualizou seu certificado HTTPS e garante que o Sci-Hub é absolutamente seguro. “Ele não rouba nada do seu computador, como foi acusado por alguns editores”, destaca.

Insatisfação com o modelo de publicação científica

Mas será que o entusiasmo pelo Sci-Hub demonstra a insatisfação com o modelo de publicação científica que envolve pesquisadores de todas as disciplinas? Elbakyan acredita que o entusiasmo pelo Sci-Hub advém da capacidade de ter acesso a artigos de pesquisa e de lê-los. “Eu sinto que a maioria dos estudantes e pesquisadores não se preocupa com o funcionamento do sistema de publicação. Ao mesmo tempo, você dificilmente encontra alguém que apóie os editores; apesar disso, muitas pessoas estão muito ocupadas, relutantes ou temem mudar o sistema ou adotar novos modelos de acesso aberto, pelo menos na Rússia”, complementa. Além disso, Elbakyan acredita que não deve haver barreiras para o acesso à ciência e que o modelo de negócios das editoras científicas é falho. “Caso contrário, por que eu começaria o Sci-Hub em primeiro lugar? O modelo de negócios baseado em paywalls é defeituoso porque cria obstáculos à comunicação e ao desenvolvimento da ciência”, justifica. O fato é que a demanda por acesso livre ao conhecimento científico é grande demais e será difícil impor leis regionais em uma internet descentralizada. O mais provável é que se fechar um site, aparecerá outro´.

Lei impede o desenvolvimento da ciência e o futuro das publicações científicas

Não é de hoje que legalidade, gratuidade e acesso dos artigos científicos é debatida no meio acadêmico e científico e há quem garanta que o Sci-Hub prejudica a ciência e que o dinheiro que as editoras científicas recolhem é vital para o sistema. Entretanto, na opinião de Elbakyan, as editoras estão coletando enormes somas de dinheiro. “Consulte, por exemplo, às custas do bem público. Eles impedem o acesso à pesquisa para coletar renda extra. e os pesquisadores não podem trabalhar sem acesso. É isso que prejudica a ciência e não o Sci-Hub!”, argumenta.

Para Elbakyan, a lei impede o desenvolvimento da ciência e essa lei deve ser revogada.  De acordo com ela, o Sci-Hub é um projeto não legal porque não obedece à chamada ‘lei de direitos autorais’. Essa lei garante que a literatura de pesquisa seja uma ‘propriedade privada’ de alguns editores de pesquisa e não um bem público. Nesse terreno, um sistema de paywalls foi estabelecido na ciência e vimos como ele se tornou um obstáculo para o progresso da ciência. A ciência é a razão e a lei não pode ir contra a razão”, ressalta.

Em relação ao futuro das publicações científicas, Elbakyan comenta que um trabalho de pesquisa ou um livro é uma forma de comunicação. As primeiras revistas de pesquisa surgiram como ferramentas usadas pelos cientistas para comunicar suas descobertas e pensamentos. E hoje, as novas tecnologias transformam radicalmente a maneira como as pessoas se comunicam. Talvez os periódicos desapareçam no futuro e, em vez disso, algum tipo de mídia social especial para a ciência seja usada.

Já sobre o impacto do Sci-Hub sobre a ciência nos países pobres, em especial dos países tropicais, como o Brasil, Elbakyan lembra que atualmente, o Brasil é o terceiro país em número de usuários do Sci-Hub, depois da China e da Índia! “Nas últimas duas semanas, publiquei meu email no site Sci-Hub e de repente recebi muitos emails de usuários no Brasil, incluindo o da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT)”, comemora. Ainda segundo ela, muitos pesquisadores escrevem que estão animados e felizes por ter o Sci-Hub e que estão usando para obter acesso ao periódico.

A Robin Hood da ciência contra o império editorial

Todo mundo usa o Sci-Hub, mas ninguém agradece a Elbakyan e assim ela foi perdendo visibilidade. Tudo seguia assim até poucos dias atrás quando ela enviou um “alô” de seu website e de fato, alguns comentários públicos e de pesquisadores apareceram. “Claro que o impacto real do Sci-Hub é muito maior do que você pode assumir se apenas contar comentários públicos sobre isso. Óbvio que quero mudar isso, para que o Sci-Hub seja amplamente reconhecido e aceito como uma solução legal para o problema do paywall. Eu acho que também temos um problema de mídia. Por alguma razão, a discussão sobre o Sci-Hub foi pequena e injusta, em comparação com o impacto. Imagine se o Large Hadron Collider não fosse discutido, mas silenciado”, conclui Elbakyan.

O Sci-Hub precisa daqueles que precisam da ciência. Deseja fazer uma doação?: https://sci-hub.tw/.