Novo Boletim Epidemiológico Especial do Ministério da Saúde traz em perspectiva o Dia Mundial da Doença de Chagas e os impactos da pandemia por COVID-19

Publicação: 14 de março de 2021

Doença de Chagas é fator de risco potencial para casos mais graves de COVID-19 e teve suas ações de controle comprometidas pela pandemia

Dentro das atividades e dos registros relativos ao Dia Mundial da doença de Chagas, em 14 de abril, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde lançou o 2º Boletim Epidemiológico da Doença de Chagas.

A primeira edição do documento de 2020 trazia em perspectiva a relevância da inserção da notificação compulsória da doença de Chagas também para a fase crônica, além de demonstrar a sustentabilidade das ações de vigilância e controle da enfermidade.

Esta segunda edição inclui principalmente, entre outras informações, possíveis impactos da pandemia por COVID-19 frente ao perfil de morbimortalidade da doença de Chagas. As reflexões trazidas no documento traduzem evidências que apontam as doenças cardiovasculares como fatores de risco críticos para maior gravidade da síndrome clínica associada à COVID-19. Neste sentido, é ressaltado o fato de que as pessoas acometidas com doença de Chagas devem ser consideradas também como população de risco, demandando maior cuidado e atenção no SUS neste momento.

O 2º Boletim Epidemiológico da Doença de Chagas traz dados inéditos relativos ao período entre março e agosto de 2020, ainda em caráter preliminar, oriundos do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Chama muito a atenção de que do total de 125.691 óbitos registrados por COVID-19, 207 faziam menção à doença de Chagas enquanto comorbidade que contribuiu para a evolução para a morte.

Este boletim traz ainda uma análise de tendência temporal regionalizada em território Nacional relacionada à doença de Chagas que demonstra que no ano de 2020 houve tendência de redução estatisticamente significativa em relação aos valores estimados, tanto no coeficiente de incidência de casos na fase aguda, quanto no coeficiente de mortalidade específica pela doença.

Digno de nota é também o fato de que houve redução no número de requisições de exames laboratoriais para diagnóstico da doença de Chagas em 2020, comparando-as à média do período de 2017 a 2019. Este cenário de redução de diagnósticos teve importante impacto também no tratamento, avaliado por meio da redução da distribuição do medicamento utilizado para o tratamento – benznidazol – indicando uma possível redução da sensibilidade do sistema de vigilância epidemiológica da doença provavelmente relacionada aos esforços que foram deslocados para o enfrentamento da pandemia por COVID-19.

Outro importante aspecto trazido por este boletim remete-se às ações de vigilância entomológica (dos triatomíneos ou barbeiros, vetores da doença). Tendo em vista a necessidade iminente de readaptação das atividades de vigilância entomológica destinadas ao controle da doença recomendadas para redução do risco de transmissão de SARS-CoV-2 com a publicação da Nota Informativa No 9/2020-CGZV/DEIDT/SVS/MS , o Boletim demonstra com base nos relatos e informes de representantes estaduais da vigilância entomológica da doença de Chagas que, em muitos territórios não foi possível realizar, mesmo que parcialmente, as atividades propostas para o ano de 2020.

Apesar das limitações inerentes a esta modalidade análise, seja pela utilização de variável independente temporal, seja pela utilização de dados secundários oriundos dos sistemas de informação, esta é uma das poucas avaliações, mesmo que em caráter preliminar, que possibilita verificar mudança de padrões da morbimortalidade da doença de Chagas ao longo de uma série temporal. Com base nestes achados, abre-se espaço para a formulação de hipóteses quanto a eventuais fatores causais que justifiquem as variações observadas frente à COVID-19.

Estas e outras análises do Ministério da Saúde publicadas neste boletim inserem-se em uma estratégia mais ampla que vem sendo desenvolvida para fundamentar cada vez mais as ações da vigilância da doença de Chagas no país por meio de evidências, possibilitando a retomada e revisão de outras propostas construídas ao longo dos anos. Uma delas, culminou em maio 2020 com a inclusão da fase crônica da doença também como evento de interesse para fins de vigilância epidemiológica por meio da Notificação Compulsória (Portaria Nº 1.061, de 18 de maio de 2020 ), juntamente com a tradicional vigilância de casos na fase aguda.

Além disso, a partir da instituição do Dia Mundial dedicado ao controle da doença de Chagas, o Brasil vem resgatando o seu protagonismo no enfrentamento, ampliando a agenda de investimentos nacionais e internacionais por meio de projetos estratégicos de pesquisa. Com forte caráter operacional e de implementação, estas pesquisas objetivam ampliar e garantir acesso à detecção e, consequentemente, ao tratamento oportuno para as pessoas acometidas pela doença no âmbito da atenção primária integrada à vigilância, com ênfase no controle da transmissão vertical de Trypanosoma cruzi. Dentro destas iniciativas, o Ministério da Saúde também mobilizou financiamento para viabilizá-las visando aumentar a possibilidade de cura e prevenir a evolução para formas mais graves, além de promover e aumentar a qualidade de vida das pessoas que já vivem com a doença de Chagas, a partir do Sistema Único de Saúde (SUS).

Estes movimentos nacionais indicados por este boletim especial estão em sintonia com os grandes referenciais estratégicos para controle das doenças tropicais negligenciadas estabelecidos para o período 2021-2030 pelo novo roteiro da Organização Mundial da Saúde publicado em 2021 . Mais recentemente ainda, a Organização Pan-americana de Saúde Pública o documento: “Cuidados crônicos para doenças infecciosas negligenciadas: hanseníase, filariose linfática, tracoma e doença de Chagas – Um guia para a manejo da morbidade e prevenção de incapacidade para serviços de atenção primária à saúde” (Chapter 5: Chagas Disease. In: Chronic Care for Neglected Infectious Diseases: Leprosy/ Hansen’s Disease, Lymphatic Filariasis, Trachoma, and Chagas Disease A Guide for Morbidity Management and Disability Prevention for Primary Health Care Services –. No Capítulo 5 deste documento, sob a liderança do Prof. João Carlos Pinto Dias, vários aspectos fundamentais para cuidado às pessoas acometidas pela doença de Chagas são apresentados para as equipes de atenção primária e reforçam a importância da integração com as ações de vigilância.