Nova doença pode chegar aos cinco continentes, alerta infectologista

Publicação: 10 de setembro de 2022

Não é Covid-19, também não é varicela e pode ser confundida com a síndrome Mão-Pé-Boca, novo vírus causa erupção cutânea vermelha, com bolhas dolorosas, semelhantes à varíola dos macacos

Segundo o estudo, assim como a gripe, a nova doença é bastante contagiosa. Entretanto, a infecção viral aparentemente não é fatal

Os problemas de saúde não terminam e até aumentaram recentemente. Depois da Covid-19, da hepatite infantil de origem desconhecida que já causou a morte de alguns bebês, da varíola dos macacos, do reaparecimento da poliomielite em Nova York depois de mais de uma década desde o último caso relatado, agora mais uma patologia que recebeu o nome de “gripe do tomate” foi adicionada à lista. A descoberta foi revelada em um artigo publicado na revista científica The Lancet, em 17 de agosto, intitulado “Tomato flu outbreak in India”. Atualmente a doença é considerada um surto na Índia.

De acordo com o Dr. Kleber Luz, professor do Departamento de Infectologia do curso de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), embora esteja restrita à Ásia, por ser uma doença de transmissão respiratória e bastante contagiosa, ela pode se disseminar. “Sempre há o risco de uma doença se espalhar e, embora, só afete crianças, ela pode se difundir e se tornar epidêmica na Ásia, pode se propagar para os cinco continentes e assim se tornar pandêmica, ou ficar restrita a uma região e da Ásia e se tornar endêmica”, destaca. Contudo, o Dr. Luz recomenda tranquilidade. Segundo ele, a doença, apesar de ter uma morbidade importante, de trazer sofrimento importante às crianças, não está associada à letalidade. “Como não foram registrados casos no Brasil até o momento, não há recomendação especial nem para as crianças nem para os pais”, completa.

Ainda não há medicamento específico para tratá-la e a recomendação do ponto de vista terapêutico é o uso de sintomáticos, como o paracetamol ou a dipirona para o controle da febre ou da dor. “Por se tratar de uma doença que produz manifestação cutânea, bolhas, o ideal é que estas sejam mantidas limpas. Sempre que possível, pelo menos uma vez ao dia, lavá-las com água e sabão líquido para mantê-las limpas e, caso obviamente, surja alguma inflamação na pele, o que chamamos de celulite, que provoca bastante dor, a criança deverá fazer uso de antibiótico, já que pode ter havido invasão por estreptococos ou por estafilococo, tal como ocorre na varíola do macaco”, explica o infectologista. Além disso, a criança doente deverá ficar isolada até que haja uma resolução completa das manifestações clínicas. Os principais sintomas observados nesse público incluem febre, dor muscular, dor de cabeça, dores articulares (astralgias), fadiga, náuseas, vômitos, diarreia, febre, desidratação, erupção cutânea. “No início, tudo remete a uma doença infecciosa viral. O que se deve ficar atento é para a dengue, já que ela é a doença mais grave de todas”, adverte.

Diagnóstico diferencial

Em relação ao diagnóstico diferencial da gripe do tomate, o Dr. Luz ressalta que este vai se estabelecer entre as doenças febris, por exemplo, dengue, chikungunya, zika, ou outras doenças infecciosas febris. “Como a doença tem sintomas respiratórios, deve-se sempre realizar o diagnóstico diferencial com o resfriado comum e, principalmente, com a Influenza (gripe), e também com o SARS-CoV-2. Caso a criança apresente sintoma respiratório, deverá ser submetida a coleta do RT-PCR em swab nasal ou a pesquisa de antígeno na boca ou no nariz para investigar se é Covid-19”, detalha. A varíola do macaco também faz parte do diagnóstico diferencial, embora seja classicamente uma doença de adultos e não de crianças pequenas, é importante que se faça a coleta de material (swab) para a realização do teste RT-PCR. Ainda segundo o infectologista, um diagnóstico importante e diferencial é a síndrome Mão-Pé-Boca, enfermidade contagiosa que se disseminou no mundo inteiro no último ano, causada pelo vírus Coxsackie, pertencente à família dos enterovírus que habitam normalmente o sistema digestivo. Essa doença em geral é benigna. “Entretanto, nos últimos anos têm surgido vírus Coxsackie mais agressivos e que podem produzir, por exemplo, quadros de inflamação no músculo cardíaco (miocardite), pericardite aguda que pode se traduzir em uma gravidade maior e esse paciente pode necessitar, por exemplo, de internação”, pondera.

Para o Dr. Luz, possivelmente a gripe do tomate é uma doença em si mesma e não não deveria ser uma consequência da chikungunya nem da Covid-19. “Acredito ser um enterovírus ou um vírus parecido com o Coxsackie, e que esse vírus tem um comportamento próprio e ele mesmo vai produzir as dores musculares, articulares, os sintomas respiratórios e as lesões de pele. Embora as publicações sobre o assunto ainda sejam poucas e as referências são muitas notícias de jornal, creio realmente ser uma doença em si mesma”, enfatiza. Por enquanto as dúvidas sobre a origem do problema permanecem sem resposta e vamos ter de aguardar um pouco para termos algumas definições.

Questionado se poderia ser uma nova variante do vírus Coxsackie, o Dr. Luz reconhece que pode ser um Coxsackie, que pode produzir lesões da cavidade oral exclusiva, ou pertencer ao grupo dos enterovírus, vírus transmissíveis que habitualmente produzem doenças no grupo pediátrico que se caracterizam por febre e manifestação cutânea e mucosa. “Os enterovírus produzem rash (exantema), vesículas, como por exemplo a síndrome Mão-Pé-Boca. O Coxsackie. “Geralmente estes vírus têm um tropismo para a produção de lesões cutâneas ou cutâneo-mucosa ou só de mucosas. No início da doença, nos primeiros dois a três dias, pode haver o surgimento de sintomas gerais como febre, mal estar, dores muscular e articular, sintomas comuns a essas doenças produzidas pelos enterovírus, em especial o Coxsackie”, esclarece.

Assim como a gripe, a nova infecção é bastante contagiosa e a transmissão é semelhante às doenças respiratórias, ou seja, por meio do contato direto entre uma criança doente e outra sadia, e também por gotículas. Para evitar o contágio, é importante manter o indivíduo doente absolutamente isolado, não ter tocar as lesões, manter pelo menos de um metro de distância, manter as mãos limpas, não tocar objetos e superfícies e levar a mão diretamente à boca. “Como a doença é extremamente transmissível, a chance de ocorrer muitos casos é grande”, alerta o Dr. Luz.

Origem do nome

O termo “gripe do tomate” foi dado à infecção devido às bolhas de cor vermelha que se formam no corpo dos indivíduos afetados. Elas se assemelham às observadas com o vírus da varíola do macaco em indivíduos jovens. A doença foi descrita como uma infecção causada por um vírus não identificado. O primeiro caso ocorreu no distrito de Kollam, em Kerala, na Índia, em 6 de maio de 2022. Em 26 de julho de 2022, 82 crianças com menos de cinco anos foram registradas com a infecção no país asiático. Já no estado de Odisha, 26 crianças entre um e nove anos foram diagnosticadas com a doença, de acordo com o Centro Regional de Pesquisa Médica em Bhubaneswar. Até o momento a infecção está em estado endêmico.