Nova descoberta abre caminho para vacina contra esquistossomose

Publicação: 9 de novembro de 2021

Em testes com animais, anticorpos gerados na primeira infecção reconhecem mais rápido parasita causador da doença e aceleram cura em casos de reinfecção

A esquistossomose é doença parasitária que afeta anualmente mais de 200 milhões de pessoas no mundo; atualmente, não há vacina disponível para prevenir a doença

Considerada uma das 17 doenças tropicais negligenciadas (DTNs) no mundo, a esquistossomose ainda é um importante problema de saúde pública no Brasil. No entanto, o único medicamento usado no tratamento foi descoberto há mais de 40 anos. Agora um artigo publicado no final de outubro na revista Nature Communications intitulado Rhesus macaques self-curing from a schistosome infection can display complete immunity to challenge abre caminho para o desenvolvimento de novas terapias e até mesmo de uma vacina contra essa doença parasitária que afeta anualmente mais de 200 milhões de pessoas nos países pobres. No Brasil, ela está presente em 18 estados e no Distrito Federal, sendo que oito apresentam transmissão endêmica (Alagoas, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais). De acordo com dados do governo federal, 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas sob o risco de contrair a doença. Nas regiões Nordeste e Sudeste a ocorrência está diretamente ligada à presença dos moluscos transmissores. Entre 2009 e 2019, o País registrou 423.117 casos de esquistossomose, segundo o último boletim do Ministério da Saúde divulgado em março.

Os resultados da pesquisa mostraram que os macacos rhesus (Macaca mulatta) possuem naturalmente uma forte resposta imunológica contra a esquistossomose e, ao se curarem espontaneamente, são capazes de gerar anticorpos poderosos contra os parasitas que promovem a autocura após a primeira infecção, e que atuam de forma ainda mais rápida em uma segunda exposição aos parasitas, tornando os macacos protegidos de sofrerem uma segunda infecção.

Para o estudo, o Dr. Murilo Sena Amaral, pesquisador do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan e primeiro autor do artigo, e o Dr. Sergio Verjovski-Almeida, coordenador do estudo, pesquisador do Instituto Butantan e professor da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com diversos outros pesquisadores, acompanharam macacos infectados e reinfectados com o parasita que causa a doença para entender se a memória imune dos macacos funcionava depois da exposição a uma segunda tentativa de infecção. O objetivo era usar esse conhecimento como base para o desenvolvimento de uma possível vacina. Para isso, 12 macacos rhesus foram infectados, cada um com 700 parasitas de Schistosoma mansoni. Foi observado que todos se curaram entre a 12a e a 17a semanas. Depois de 42 semanas, os pesquisadores monitoraram os macacos após uma segunda infecção.

Então, eles foram expostos a uma reinfecção por 700 cercárias e monitorados por mais 20 semanas (até 62 semanas após a infecção inicial). O sangue foi coletado para estimativa da carga de vermes usando o nível de antígeno anódico circulante (CAA, sigla em inglês), e para a medida de marcadores inflamatórios e hematologia. As fezes também foram analisadas para determinar o número de ovos por grama. Os parasitas da segunda infecção foram eliminados entre a 2ª e a 4ª semanas após a exposição, e não chegaram a se desenvolver ou a depositar ovos na circulação. Ao final, os macacos foram submetidos à perfusão das veias do intestino, e foi analisada a carga real do verme em cada primata. Cerca de 2 a 3 parasitas foram detectados em apenas alguns macacos. Além disso, os cientistas fizeram, in vitro, ensaios com plasma contendo anticorpos do macaco e incubaram com parasitas jovens, detectando a morte deles.

Ao monitorar os níveis na corrente sanguínea do antígeno derivado do parasita, foi constatado que a partir da 10ª semana uma infecção primária estabelecida com Schistosoma mansoni é eliminada, gerando resistência à reinfecção. Os perfis de anticorpos sugerem que a proteção mediadora de antígenos são os produtos liberados do desenvolvimento de esquistossômulos. Na cultura, eles são mortos pela adição do plasma do macaco, coletado a partir da 8ª semana após a infecção, e ainda mais eficientemente com plasma da reinfecção. Além disso, os esquistossômulos cultivados perdem marcas de ativação da cromatina e mostram diminuição da expressão de genes relacionados aos lisossomos envolvidos na autofagia.

Agora, os pesquisadores planejam identificar proteínas do parasita que são atingidas pelos anticorpos dos macacos para serem testadas como possíveis candidatas vacinais em camundongos.

Sobre a esquistossomose

A esquistossomose é uma doença tropical comum no Brasil. Por ano, cerca de 200 milhões de pessoas são afetadas no mundo todo e mais de 200 mil morrem anualmente em decorrência da doença. Os parasitas infectam pessoas que têm contato com água contaminada e se instalam no interior dos vasos sanguíneos do intestino e fígado, onde se acumulam os ovos depositados. Inicialmente é assintomática, mas capaz de evoluir e causar graves problemas de saúde crônicos, podendo haver internação ou levar à morte. A contaminação geralmente ocorre no contato com água doce onde existam caramujos infectados pelos vermes. Quando os vermes atingem o corpo da pessoa, passam a colocar ovos e a viver nos tecidos do corpo. Os sintomas incluem febre, dor de cabeça, calafrios, fraqueza, dor muscular, tosse, diarreia entre outros. O medicamento recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é o Praziquantel, que é ineficaz contra formas jovens do parasita e não previne a reinfecção.