Malária: MMV e parceiros trabalham no desenvolvimento de novos medicamentos eficazes e economicamente acessíveis

Publicação: 13 de março de 2013

David Reddy

Países com maior incidência de malária estão entre os mais pobres do mundo, e normalmente têm taxas muito baixas de crescimento econômico

 

No Brasil, 40 milhões de pessoas correm o risco de contrair malária. Em 2010, aOrganização Mundial da Saúde (OMS) estimou 334.618 casos confirmados no Brasil, dos quais 283.383 foram de P. vivax e 47.406 de P. falciparum. Em entrevista à Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), o Dr. David Reddy, diretor-executivo da Medicines for Malaria Venture (MMV), fala sobre os desafios e o que tem sido feito para tentar erradicar a doença.

 
SBMT: Qual é a missão da MMV? Por que foi criada?

 
Dr. David Reddy (CEO da MMV): Medicines for Malaria Venture (MMV) é uma parceria público-privada sem fins lucrativos, estabelecida como fundação suíça, em novembro de 1999, sob a égide da Organização Mundial de Saúde (OMS). A missão da MMV é reduzir o fardo da malária em países endêmicos por meio da descoberta, desenvolvimento e facilitação da distribuição de novas, eficazes e acessíveis drogas antimaláricas nestas localidades. Trabalhamos para um mundo em que estes medicamentos inovadores ajudarão a finalmente erradicar esta doença terrível.

Em1999, amalária estava tirando a vida de mais de um milhão de pessoas por ano nas regiões mais pobres do mundo. O “pipeline” de novos medicamentos antimaláricos era praticamente inexistente, devido à falta de incentivo comercial ao investimento em pesquisa e desenvolvimento. MMV foi criada para preencher essa lacuna fatal.

Desde 1999, MMV e nossos parceiros construíram o maior “pipeline” de medicamentos antimaláricos e de drogas candidatas já alguma vez reunidas na história. O sucesso da MMV em desenvolver e em gerir um portfólio tão grande e dinâmico, a tornou o ponto focal inquestionável no âmbito dos esforços globais para desenvolver novos medicamentos para o tratamento, prevenção e erradicação definitiva da malária.

Até hoje, os sucessos da parceria da MMV incluem o lançamento de quatro novos medicamentos: o primeiro ACT (artemisinin combination therapy) pediátrico com mais de 137 milhões de doses distribuídas em países endêmicos até hoje, o primeiro artesunato injetável a receber pré-qualificação pela OMS, com qualidade garantida, para o tratamento da malária grave e dois novos ACT rigorosamente desenvolvidos que irão contribuir para o objetivo do tratamento universal nos países endêmicos com malária e ajudar a conter a resistência à Artemisinina.

Além disso, MMV tem vários projetos em desenvolvimento clínico abordando importantes necessidades médicas não atendidas no domínio da malária. Ao longo dos últimos três anos, e tendo em conta os dados relativos à distribuição de medicamentos e à eficácia clínica, podemos estimar conservadoramente que as drogas co-desenvolvidos pela MMV salvaram 350 mil vidas até agora e tem reduzido a morbidade e a perda econômica em escala significativa.

De1999 a2012, as mortes por malária caíram 50% graças ao uso de mosquiteiros tratados com inseticida, pulverização residual de interiores e ACT. Apesar desses ganhos, 655 mil pessoas morreram de malária em 2010, das quais 91% se encontravam na África.

Mais pesquisas são necessárias para continuar com esta luta. MMV está trabalhando para mudar esta estatística e contribuir para a derrota da malária.

SBMT: Qual é o modelo PDP? Como isso funciona?

David Reddy (MMV): A parceria para desenvolvimento de produto (PDP) é um modelo de gestão extremamente eficaz e inovador estabelecido no final de 1990, que utiliza recursos de parcerias público-privadas para pesquisar novos medicamentos para doenças negligenciadas. Reconhecido como a PDP de liderança no campo da pesquisa e desenvolvimento de drogas anti-maláricas, a MMV atualmente consolida projetos de todo o mundo em uma carteira centralizada de drogas contra malária.

Graças a vários anos de investimentos de doadores-chaves, a década passada marcou um ponto de virada na história do desenvolvimento de drogas contra a malária. MMV e seus parceiros acadêmicos e farmacêuticos têm rejuvenescido pesquisa e desenvolvimento de drogas anti-maláricas, demonstrando sua capacidade coletiva de descobrir e desenvolver medicamentos com padrões da indústria, mas a custos reduzidos para os doadores e, em última instância, para as populações que precisam dos tratamentos.

Como uma PDP, MMV reúne valiosa experiência, conhecimento e instalações tanto da indústria (setor privado) e pesquisadores (setor público), explorando a força de cada um na busca por novos medicamentos contra a malária. Esses recursos podem incluir acesso a bibliotecas de compostos para aumentar a diversidade de nossas drogas candidatas em pesquisa de descoberta, ou na profunda experiência da indústria na fabricação e distribuição para a preparação do lançamento de um dos nossos produtos. Juntamente com uma rigorosa gestão de carteira estilo-indústria, o modelo PDP torna MMV altamente rentável e produtiva.

Ao longo dos últimos 10 anos, MMV desenvolveu uma rede de 280 parcerias científicas da indústria e de pesquisadores em cerca de 50 países. Nossos parceiros são a nossa força. Como parceiros científicos eles têm acesso a nossa extensa rede de trabalho e, em troca, nós esperamos que eles contribuam em espécie (por exemplo, por meio de custos de pessoal, espaço de laboratório, equipamentos, despesas gerais), maximizando assim os recursos financeiros da MMV.

SBMT: Que trabalho vocês desenvolve para tentar combater a malária? Como este trabalho é feito?

David Reddy (MMV): Nós não vemos a malária como uma doença única. Duas das espécies mais virulentas do parasita, P. falciparum e P. vivax, são juntamente responsáveis pelo massivo fardo da malária do mundo de hoje. P. falciparum é tipicamente endêmico na África e P. vivax, ou a malária recidivante, é largamente predominante na América do Sul e Sudeste da Ásia.

MMV construiu um forte “pipeline” de novos e inovadores medicamentos antimaláricos que abordam as principais carências e apóiam a eliminação, a longo prazo, e erradicação da doença. Nós desenvolvemos quatro novos medicamentos: duas novas ACT, a primeira ACT pediátrica de alta qualidade e uma droga para o tratamento da malária grave. Esses medicamentos são atualmente eficazes, mas, dada a ameaça emergente de resistência à Artemisinina, novos medicamentos serão necessários.

MMV agora está se concentrando no desenvolvimento e facilitação do acesso a medicamentos melhorados, incluindo medicamentos para malária não complicada, novos medicamentos para as populações vulneráveis (crianças, mulheres grávidas e pacientes com malária grave), e medicamentos que irão apoiar a eliminação e erradicação da malária. A eliminação/erradicação da malária não será possível sem abordar o P. vivax. No entanto, até o momento a malária por P. vivax permanece praticamente ignorada pela comunidade de desenvolvimento global.

P. vivax é a espécie mais prevalente em todas as regiões endêmicas fora da África Subsaariana (leia-se na América Latina e no Sudeste Asiático) e prevalece em regiões de baixa endemia com a interação do complexo vivax/falciparum. Em nível global o número de casos é sub-relatado e há evidências crescentes de infecções graves e até mesmo fatais. Malária por P. vivax tem também um impacto negativo significativo na educação e na produtividade em países endêmicos.

Se quisermos cumprir o nosso objetivo final para ajudar a eliminar/erradicar a malária, temos de enfrentar os desafios da resistência aos medicamentos atualmente utilizados, tais como a Cloroquina, SP, e derivados de Artemisinina, que são hoje o padrão ouro. Devemos desenvolver produtos que serão eficazes contra P. vivax (incluindo cura radical), e medicamentos que possam bloquear a transmissão de pessoa para pessoa.

Além disso, como o processo de descobrir, desenvolver e trazer um novo medicamento normalmente demora entre 13-15 anos, também estamos explorando formas de acelerar o processo de pesquisa, por exemplo, por meio de testes de compostos promissores em voluntários usando um modelo de desafio humano, que rapidamente nos darão informações sobre a dose correta para o desenvolvimento de uma nova molécula.

 
SBMT: Por que MMV está interessada em investir tempo e conhecimento para resolver problemas comuns dos países pobres?

David Reddy (MMV): Na virada do século, a comunidade global concordou em combater a pobreza, o subdesenvolvimento, e a falta de saúde, ao aderir às metas das Nações Unidas de Desenvolvimento do Milênio (ODM). MMV considera-se parte dessa comunidade. Achamos que é inaceitável que a malária, apesar de ser uma doença infecciosa prevenível e tratável, ainda é uma das principais causas de morte no planeta.

Mais da metade da população do mundo está exposta ao risco de infecção, principalmente em países em desenvolvimento na África subsaariana. Em 2010, 655 mil morreram da doença, 86% dos quais eram crianças com menos de 5 anos de idade. A correlação entre a incidência da malária e do subdesenvolvimento é gritante. Países com maior incidência de malária estão entre os mais pobres do mundo, e normalmente têm taxas muito baixas de crescimento econômico.

SBMT: Existe algum estudo específico atualmente em desenvolvimento? Qual é o objetivo? Quantas pessoas estão envolvidas? Quem são seus parceiros?

David Reddy (MMV): Nós temos um número empolgante de novas moléculas em desenvolvimento que servirão como alternativas para a terapia usada atualmente. Uma molécula que está sendo desenvolvida em colaboração com pesquisadores brasileiros que pode ser de interesse é Tafenoquina – em desenvolvimento pela MMV em parceria com a GlaxoSmithKline (GSK) para a cura radical da malária por P. vivax. Um estudo começou a definir a dose correta de Tafenoquina para ser administrada com Cloroquina em mais de 320 pacientes. Este estudo será seguido por outro para testar a segurança e eficácia de Tafenoquina na dose escolhida, a partir da primeira parte do programa, em mais de 600 pacientes adicionais do Brasil, Peru, Tailândia e Índia.

No Brasil, estamos trabalhando com pesquisadores brasileiros da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, em Manaus.

A cura radical é uma necessidade urgente a ser alcançada. Enquanto o P. falciparum é curado quando o parasita está presente no sangue do paciente, P. vivax revelou-se mais fugaz a curar. O parasita P. vivax tem uma incrível capacidade de permanecer dormente no fígado do paciente em uma forma conhecida como o hipnozoíta. Este estágio hepático pode se reativar a qualquer momento, entre 2 e 3 semanas há vários anos, deixando suas vítimas vulneráveis à recaída com sintomas febris de malária, sem nenhum aviso.

Além da morte e problemas de saúde devido ao P. vivax, a contração e recidiva da doença também constituem barreiras para o desenvolvimento econômico em áreas altamente endêmicas. Estudos brasileiros mostraram que a malária está também associada ao mau desempenho escolar das crianças em áreas endêmicas, como a Amazônia.

A medicação atual, Primaquina, pode curar a malária recidivante, mas apenas se os pacientes tomarem o ciclo de tratamento completo de 7 ou de 14 dias. Os pacientes muitas vezes têm dificuldade para cumprir este regime e o que eles precisam é um medicamento de uso simplificado. Os estudos mostram que uma dose única de Tafenoquina proporciona uma melhor proteção contra a recaída do que a Primaquina – uma melhora significativa sobre os atuais 7 ou 14 dias. A Tafenoquina também pode proporcionar significativos benefícios para a saúde pública, aumentando a adesão e melhorando as taxas de cura.

SBMT: MMV está desenvolvendo uma droga específica para o tratamento da malária? Em que fase está? Qual é a expectativa?

David Reddy (MMV): Desde a sua fundação, a MMV criou o maior “pipeline”, jamais desenvolvido até hoje, com mais de 60 medicamentos antimaláricos e drogas candidatas para os países em desenvolvimento. De fato, entre 2009 e 2012, a MMV desenvolveu quatro novos medicamentos:

*Coartem® Dispersible (artemeter-lumefantrina) – a primeira ACT pediátrica a preços acessíveis, de alta qualidade, desenvolvida com a Novartis; 137 milhões de tratamentos distribuídos em 35 países com malária endêmica desde 2009.

*Artesunato injetável da Guilin Pharmaceuticals (Artesun®), para curar a malária grave, que recebeu a pré-qualificação da OMS em 2010; 3,2 milhões de frascos deste medicamento, que pode salvar vidas, foram entregues.

Dois novos tratamentos de dose única diária por 3 dias, ACTs de alta qualidade aprovados pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

*Eurartesim® (dihidroartemisinina-piperaquina) desenvolvido com Sigma-Tau, fornece a melhor e mais longa proteção contra novas infecções por malária, aprovado pela EMA em novembro de 2011.

*Pyramax® (pironaridina-artesunato), a nossa primeira nova entidade química desenvolvida com os parceiros coreano Shin Poong, recebeu um parecer favorável nos termos do artigo 58 da EMA para tratar a malária em áreas de baixa transmissão onde a resistência a Artemisinina foi confirmada. É o primeiro ACT com rótulo indicando seu uso para tratar as duas principais espécies de parasitas da malária.

Durante estes últimos quatro anos, com base em dados da distribuição da droga e de eficácia clínica, estimou-se que as drogas co-desenvolvidas pela MMV salvaram 350.000 vidas até o momento.

SBMT: Você acha que o Brasil tem a capacidade de produzir conhecimento para desenvolver ferramentas inovadoras para combater doenças negligenciadas? Em sua opinião, o que está faltando para que isso ocorra?

David Reddy (MMV): O Brasil é afetado por várias doenças negligenciadas como a malária, que é principalmente prevalente na região da Amazônia. Hoje, o Brasil tem pesquisadores especialistas, universidades de renome mundial e um setor privado proativo, todos trabalhando em soluções para doenças negligenciadas. O Brasil detém também atualmente a Presidência da Federação Internacional de Medicina Tropical. Devido a sua capacidade de pesquisa, desenvolvimento e conhecimento, o país tem um papel importante a desempenhar, em nível nacional e internacional, na luta contra as doenças negligenciadas e relacionadas à pobreza.

No entanto, muito mais pode ser feito para ajudar a controlar e derrotar doenças negligenciadas e alcançar os ODM. Trabalhar em parceria, com PDPs como a MMV, pode ajudar a acelerar a descoberta e desenvolvimento de ferramentas inovadoras e acelerar a disponibilidade de produtos de saúde acessíveis e de alta qualidade.

SBMT: Existe algum estudo que está sendo desenvolvido em parceria com o Brasil? Se não, há alguma possibilidade? Quais são as barreiras para que isso ocorra?

David Reddy (MMV): Em colaboração com a GSK, MMV está avaliando a segurança e eficácia da Tafenoquina, o medicamento principal de investigação para o tratamento de malária P. vivax (recidivante). Tafenoquina tem o potencial de curar a forma hepática dormentede da malária por P. vivax, evitando recaídas futuras. Ele está sendo desenvolvido como um tratamento potencial de dose única, o que representa uma melhoria significativa sobre os atuais 7 ou 14 dias dos ciclos de Primaquina.

Esta fase 2b/3 de ensaio clínico abrange quatro países com malária endêmica: Tailândia, Índia, Peru e Brasil. Esses países foram selecionados por suas cargas particularmente altas de malária – só no Brasil havia mais de 2,5 milhões de casos suspeitos de malária em 2010, principalmente atribuível a P. vivax. Além disso, cada país abriga locais de ensaios clínicos com a capacidade e estrutura para realizar ensaios de Boas Práticas Clínicas (BPC) mandatados por rigorosos reguladores, como o FDA, e será capaz de acompanhar pacientes durante 6 meses, o que é importante, dada a natureza recidivante da malária por P. vivax.

O teste com Tafenoquina inova para MMV com a inscrição, pela primeira vez, de pacientes da América do Sul em um experimento apoiado pela MMV. O número total de pacientes necessários para a fase 2b do estudo foi recrutado e estamos otimistas de que os resultados do estudo nos fornecerão uma dose eficaz de Tafenoquina a ser testado na fase 3 do ensaio clínico. Ao mesmo tempo, continuamos a avaliar um ponto de teste diagnóstico G6PD capaz de identificar os pacientes com esta deficiência enzimática, que podem ter problemas de tolerabilidade ao grupo particular de compostos ao qual a Tafenoquina pertence.…