De Harvard, Edward Ryan comenta a epidemia de cólera que matou 5 mil pessoas no Haiti

Publicação: 13 de fevereiro de 2013

Lack of access to clean water and sanitation kills more than 100,000 per year

Programas integrados de controle e prevenção necessitam envolver todas as ferramentas possíveis, incluindo suporte de infraestrutura, acesso a um sistema portátil de água potável, saneamento adequado e programa de vacinação

 

Em 2012, surtos de cólera surgiram no Caribe, Costa Oeste Africana, e, como sempre, no Subcontinente Indiano. O surto, que matou muitos haitianos, foi trazido pelas forças da Organização das Nações Unidas (ONU) vindas do Nepal. Neste ínterim, o cólera desmoralizou o bem organizado sistema de saúde cubano e mostrou, mais uma vez, o quão vulnerável o mundo em desenvolvimento ainda é, apesar dos avanços tecnológicos modernos. Além disso, o cólera é um dos melhores exemplos de como a vida é terrível nas favelas onde, talvez, viva mais da metade da população tropical.

Para o professor do departamento de imunologia e doenças infecciosas da Escola de Saúde Pública de Harvard (EUA), Edward Ryan, o cólera é um grande desafio do mundo tropical em desenvolvimento. Assunto que ele aborda em entrevista concedida à Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT).

SBMT: Qual a situação atual de cólera no Haiti?

Ryan: O surto no Haiti continua em ondas, após sua fase explosiva inicial. É o maior desde o registro histórico, envolvendo mais de meio milhão de pessoas e resultando em mais de cinco mil mortes. Casos ligados ao Haiti também ocorreram na República Dominicana e em alguns países nas Américas, embora não tenha havido nenhuma transmissão nesses outros locais. Muito esforço tem sido empregado para fornecer água potável e saneamento adequado, e já se caminha para avaliar a implantação de uma vacina contra cólera que seja segura e pré-qualificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). É muito provável que o cólera se torne endêmico nos rios do Haiti, e que os surtos sejam contínuos e repetitivos, embora esperemos que em intensidade decrescente.

SBMT: O que podemos aprender com a experiência do Haiti?

Ryan: É chocante perceber que o surto de cólera no Haiti ocorreu cerca de 10 meses após o terremoto devastador. Devido a este fato, muito esforço já havia sido feito para se obter infraestrutura, água, saneamento, habitação etc. O fato de o maior surto de cólera já registrado pudesse ocorrer – apesar dos 10 meses de vantagem de todos os investimentos, recursos e esforços –nos mostram o quão difícil o problema pode ser. Cólera é uma doença de pobreza severa, de privação de direitos e instabilidade social. Uma das grandes lições do Haiti é a enorme quantidade de esforço que será necessário para minimizar o risco de cólera e doenças relacionadas para aqueles sem acesso à água potável e saneamento adequado, aqueles mais esquecidos pela globalização.

SBMT: Outros países estão em risco de cólera?

Ryan: Atualmente, a doença é endêmica em mais de 50 países e envolve milhões de pessoas anualmente, matando mais de 100 mil. Países com maior risco de cólera são aqueles onde uma parte da população não tem acesso à água potável ou saneamento adequado. Infelizmente, estima-se que mais de 800 mil pessoas não tenham acesso à água potável e, mais de 2,5 bilhões de indivíduos não têm saneamento básico adequado. Fornecer água potável a pessoas em maior risco de cólera e de doenças relacionadas, infelizmente, requer décadas.

SBMT: Algo de “bom” aconteceu recentemente?

Ryan: A epidemia no Haiti levou a comunidade internacional a tratar de forma mais abrangente as dificuldades que nós, como população global, tivemos no controle da pandemia de cólera em curso. Cólera é um sintoma de uma situação de doença global (água contaminada e pobreza). A pandemia atual é a 7ª no registro histórico, tendo começado em 1961, e também a mais longa registrada. A experiência do Haiti chama atenção para o fato que os programas integrados de controle e prevenção necessitam envolver todas as ferramentas possíveis, incluindo suporte de infraestrutura, acesso a um sistema de água potável, saneamento adequado e programa de vacinação. Em grande parte, por causa da experiência do Haiti, muitos na comunidade global ampliaram a indicação para o possível uso de vacina contra cólera, e a OMS propôs a instituição de um estoque de vacina contra a doença.

Vacina – Para vacinação contra cólera são disponibilizadas no mercado duas opções: oral e injetável. A Dukoral, uma das vacinas orais, apresenta 85 a 90% de eficácia na proteção contra a doença, embora esta proteção tenha duração média de três anos. Esta vacina é recomendada pela OMS para aplicação em viajantes com destino às áreas onde ocorrem casos de cólera, mas não é disponibilizada pelo Programa Nacional de Imunização (PNI) do Ministério da Saúde (MS) por não prover imunidade duradoura.…