Brasil discute incorporação de nova tecnologia para diagnóstico de tuberculose

Publicação: 10 de janeiro de 2013

Brasil discute incorporação de nova tecnologia para diagnóstico de tuberculose

A superioridade do Genexpert em relação à baciloscopia e sensibilidade similar da cultura diz respeito ao tempo de realização do exame. No Genexpert o tempo estimado é de 2h, já na cultura sólida é de 30 a 60 dias e na líquida é de 10 a 20 dias

A incorporação de nova tecnologia para o diagnóstico de tuberculose, o Genexpert, tem sido pauta de discussão em diversas sociedades científicas e, por diversas ocasiões, no comitê técnico-científico de apoio ao Programa Nacional de Tuberculose (CTA-TB) do Ministério da Saúde. A principal diferença, entre o Genexpert e o atual método utilizado hoje no país, diz respeito ao tempo em que se tem o resultado do exame. Mas, apesar de ser uma promessa para agilizar o diagnóstico, o custo financeiro elevado divide opiniões quanto a sua implementação.

“O CTA-TB mantém uma posição bastante crítica em relação à implementação de novas tecnologias. Estudos de ensaios clínicos pragmáticos, que incorporem análises de custo-efetividade, são necessários para todo o Brasil, para as diversas situações epidemiológicas e grupos populacionais”, adianta o diretor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dr. Júlio Croda – representante da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) no grupo (CTA-TB), desde 2011. Ele defende que os encontros são de grande relevância, uma vez que técnicos do programa de tuberculose e sua coordenação podem interagir com a sociedade civil organizada, ouvir suas demandas, além de consultar profissionais e pesquisadores da área, para que seja possível tomar decisões que venham efetivamente ajudar no controle da doença.

“Em nosso país qual seria a medida mais efetiva: a implementação de Genexpert nos centros de acompanhamentos dos pacientes com HIV/aids? Em grupos populacionais que apresentam maior prevalência de infecção por cepas MDR? Em que nível de atenção à saúde?”, questiona o especialista ao afirmar que essas são apenas algumas perguntas ainda sem respostas. Dr. Júlio explica que o são o lobby e a pressão, criados por parte das grandes empresas da área de saúde, para a incorporação de novas tecnologias baseadas apenas em análises de sensibilidade e especificidade, dificultando a tomada de decisão pelos gestores no que diz respeito ao custo.

No dia a dia a utilização da nova metodologia é bem simples. Segundo Dr. Júlio, o paciente é convidado a colher a amostra de escarro em um cartucho que apresenta um compartimento especial com os reagentes necessários para a realização da PCR (reação de polimerase em cadeia), em tempo real. Esse cartucho é inserido na máquina, que faz todo o processamento, e disponibiliza o resultado em, aproximadamente, duas horas. “A infraestrutura necessária é apenas a disponibilidade de energia para que a máquina funcione”, observa. Ele atenta que algumas alternativas estão sendo desenvolvidas, para que isso não seja um problema em locais sem energia, a exemplo do uso de baterias. “O treinamento técnico para utilização do equipamento é bem simples, sendo necessário baixo nível de especialização e pouco tempo de capacitação”, lembra.

O Genexpert

Ele faz parte de uma tecnologia inovadora baseada no PCR, em tempo real, com o mínimo manuseio da amostra. O resultado sai em duas horas e pode determinar a resistência à Rifampicina, portanto, detecta as cepas MDR (multidrogarresistência). Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda a utilização de baciloscopia e cultura, seja ela em meio sólido ou líquido.

Entretanto, o especialista assinala que estudos têm demonstrado a superioridade do Genexpert em relação à baciloscopia e sensibilidade similar da cultura. “A diferença maior diz respeito ao tempo de realização do exame. Enquanto no Genexpert, o tempo estimado é de duas horas, na cultura sólida é de30 a 60 dias, e na cultura líquida10 a 20 dias. Essa diferença de tempo pode ser fundamental, principalmente com o aumento de cepas MDR”, aponta Júlio Croda ao revelar que, no estudo original, os grupos de pacientes que mais se beneficiaram com essa nova metodologia foram aqueles com cepas MDR e os coinfectados com o vírus HIV/aids.

O estudo para a implementação do novo exame começou a ser feito, no Brasil, em fevereiro de 2012, em Manaus (AM) e no Rio de Janeiro (RJ). O Ministério da Saúde avalia que o Genexpert representa, em escala, uma grande inovação tecnológica e a expectativa é que esteja disponível no SUS, no 2º semestre de 2013.

Novo método: realidade para poucos
Novas metodologias, geralmente, sempre trazem benefícios reais à população. Mas o especialista argumenta que a grande questão não é a aquisição dos equipamentos e cartuchos, e sim, o nível de atenção e para qual grupo populacional essa nova tecnologia será disponibilizada. “No último ano, houve um movimento bastante forte, liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no sentido de diminuir os custos de produção dos equipamentos e cartuchos relacionados a essa nova tecnologia. Entretanto, cada país, de acordo com a sua realidade, deverá decidir como ela será implantada”, comenta Dr. Júlio ao assegurar que, caso não se avalie adequadamente os custos relacionados, a aquisição dessa nova tecnologia pode ser desastrosa em locais com recursos limitados à saúde.

Dr. Júlio acredita que a implantação do Genexpert é bastante viável, no Brasil. “Mas, antes, é preciso responder algumas perguntas no que diz respeito aos estudos operacionais para que possamos decidir quais situações e populações mais se beneficiarão com essa nova tecnologia”, adverte.

CTA-TB
O Comitê presta assessoria ao Programa Nacional de Tuberculose para a tomada de decisões relativas à doença no Brasil. Ele é composto por profissionais da área da saúde, pesquisadores, funcionários do Programa, representantes de diversas sociedades científicas e membros da sociedade civil. As reuniões ocorrem semestralmente, em Brasília.…