Grande desafio dos trópicos é a falta de pesquisas sobre como ocorrem acidentes de moto

Publicação: 13 de agosto de 2012

Motoqueiros

Melhorar o transporte coletivo, dar treinamento aos motociclistas, garantir infraestrutura e melhorar o sistema viário seriam boas ações para ruas menos hostis

O rápido crescimento da frota de motocicletas representa um dos maiores desafios na prevenção de acidentes de trânsito no país. Para o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em segurança de trânsito, David Duarte Lima, uma ação essencial seria melhorar a legislação. “O artigo nº 56 do Código de Trânsito diz que é proibido para o motociclista circular entre carros ou entre carros e meio fio, no corredor. Mas o artigo foi vetado”, alega o especialista ao afirmar que hoje o motociclista pilota a moto dele sem lei, “quase uma selvageria”.

Mas para reverter essa mortandade, o doutor em segurança de trânsito assegura que, além de leis, é preciso olhar no horizonte e promover ações variadas. “Melhorar o transporte coletivo, dar treinamento aos motociclistas, garantir infraestrutura e melhorar o sistema viário, para que as ruas sejam menos hostis”, pontua David Lima.

O especialista salienta que a motocicleta no Brasil, de certa forma, é hoje uma pseudo-solução para os problemas de mobilidade. Ele explica que as ruas nas grandes cidades já estão saturadas e o transporte coletivo é ruim. Com isso, apesar de ser um comportamento de risco, é usual no Brasil que as motocicletas passem entre o carro e o meio fio. “Isso, de um lado melhora a mobilidade, por outro, piora toda a questão da qualidade do trânsito, naquilo que toca a acidentalidade”, alerta.

“Sabemos que no caso do trânsito a solução individual é o caos social, coletivo”, lembra David Lima ao defender que a motocicleta é um subproduto do transporte coletivo. “De um lado devido ao déficit de mobilidade que existe, causado pelo transporte coletivo ineficiente. Por outro lado, especialmente nas grandes cidades, existe a saturação das vias. Também por déficit do transporte coletivo, todo mundo vai de carro”, realça o doutor em segurança de trânsito. Ele comenta ainda que, como as vias urbanas estão saturadas de carros, a motocicleta surge como um instrumento que facilita a mobilidade. “Especialmente para e entrega de documentos, equipamentos. Ou seja, a motocicleta surgiu como um instrumento para melhorar a mobilidade”, destaca.

Segundo David Lima, o grande desafio nos trópicos, especialmente na América Latina, África e Sul e Sudoeste Asiáticos, é a falta de pesquisas sobre como ocorrem os acidentes. Para ele, esse é o primeiro passo. “Desconhecemos os acidentes e quais são as circunstâncias mais frequentes. A primeira coisa a se fazer é entender esse fenômeno”, avalia ao frisar que, atualmente, no Brasil quem mais morre no trânsito são os motociclistas. “Ultrapassou os pedestres. Realmente é uma epidemia”, adverte.

Entretanto, o especialista acredita que nada pode ser feito sem sensibilização e educação, no sentido de treinamento dos motociclistas, que segundo ele estão muito mal treinados. “Uma boa parte, uns 20%, especialmente em cidades menores, não têm habilitação, nem treinamento prévio”, aponta. Ele observa que em cidades do Norte do país, onde é mais quente, os motociclistas não andam com capacete, colete ou um casaco de couro que possa servir como proteção. “Casaco de couro não é charme e, em caso de acidente, evita que a pele humana agarre no solo”, comenta. Ele recomenda ainda que o motociclista sempre use sapatos resistentes, que limitem as lesões, a exemplo das botas, que protegem os pés.

Uma das questões levantadas pelo professor é que a maioria dos motociclistas compra moto à prestação e itens de proteção como botas, coletes e casacos, são caros para a nossa realidade e pouca gente consegue ter acesso. “Outro dificultador é o calor, pois quando o clima está muito quente, em cidades pequenas, há uma resistência até mesmo quanto ao uso do capacete”, aponta ao garantir que é preciso, do ponto de vista imediato, um estudo de que tipo de acidente e mais frequente no Brasil. “Existe padrões de acidentalidade e a partir do levantamento podemos fazer campanhas para os motociclistas, mostrando as situações de risco que podem gerar acidente”, diz ao analisar que, paralelamente a isso, é preciso sensibilizar os motociclistas para que dirijam defensivamente.

De acordo com o especialista, proibir a circulação de motos não é a solução, até porque é inconstitucional, mas pontua que se pode limitar alguns tipos de veículos de circular em vias de trânsito rápido, como os de propulsão humana, bicicletas e carroças. Por fim David esclarece que a legislação brasileira garante que os motociclistas possam circular em todas as vias, sem restrição. “Para limitar o uso da moto seria preciso mudar o código de trânsito”, frisa.