Além dos brasileiros, pesquisadores na Califórnia fazem experimentos para desenvolver vacina contra malária

Publicação: 13 de julho de 2012

malaria

A malária é uma doença praticamente de países tropicais ou de países em desenvolvimento e 1/3 da população mundial vive em área de risco de infecção pelo Plasmodium falciparum

 

Reportagem do ScienceDaily revelou que biólogos da Universidade da Califórnia, San Diego (EUA), estão fazendo experimentos para a produção de uma potencial vacina contra o Plasmodium falciparum, causador da forma mais letal da malária, a base de um tipo de alga. O feito promete abrir caminho para o desenvolvimento, com custo mais reduzido, de um imunobiológico capaz de proteger bilhões de pessoas de uma das doenças mais prevalentes no mundo.

Para o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador da Fiocruz, Ricardo Gazzineli, o grande avanço do estudo foi descobrir que a expressão da proteína na alga resulta em uma proteína mais próxima àquela expressa no parasita e, portanto, capaz de produzir uma resposta imune muito mais adequada para combater o parasita do que os métodos mais tradicionais de produção de proteínas recombinantes.

O especialista revela que hoje 1/3 da população mundial vive em área de risco de infecção pelo P. falciparum. Isso representa bilhões de pessoas. “Obviamente, têm aquelas que estão em áreas mais próximas. Mas é importante deixar claro que uma vacina contra a malária tem que ter uma produção enorme para imunizar toda a população de risco”, avalia Gazzineli ao salientar que a malária é uma doença praticamente de países tropicais ou de países em desenvolvimento. “Classificaria mais como um problema de países em desenvolvimento, entretanto esses países estão, em sua maioria, nas áreas tropicais”, completa.

Como teria que ser produzida em grande escala, devido a significativa parcela da população que pode ser acometida pela doença, o pesquisador realça que outra questão relevante no trabalho dos biólogos da Universidade da Califórnia, é o baixo custo para a produção do imunobiológico. “Existem outros sistemas de expressão que talvez produzam eucariotos – a bactéria é procarioto. Eucariotos se aproximam mais do Plamodium, produzindo uma proteína mais parecida, entretanto são sistemas muito caros. Com isso a expressão na alga seria um meio de produzir mais próximo, uma proteína mais semelhante, com um sistema relativamente barato”, acredita Gazzineli.

“Em nosso instituto, temos um grupo que está desenvolvendo uma vacina contra a malária. Ela já foi testada em primatas e é voltada para o Plasmodium vivax, que é o Plasmodium mais comum no Brasil”, comenta o especialista que assegura que o desenvolvimento dessa vacina teria grande aplicação no mundo – são 200 milhões de pessoas infectadas com P. vivax no mundo. “Desenvolver uma vacina eficaz contra a malária, realmente é algo que vai ter uma aplicação ampla. Obviamente trará um impacto enorme na área de saúde pública, mas, também, pode trazer muitas divisas, uma vez que os países em desenvolvimento vêm aumentando seu poder econômico”, analisa o pesquisador da Fiocruz ao elogiar o estudo norte americano.

A produção da vacina no Brasil
Gazzineli explica que, hoje, o que mais limita o avanço das pesquisas no Brasil são as dificuldades para a realização de testes clínicos. “No caso do nosso grupo, a barreira é passar do laboratório, do camundongo, do primata, dessa primeira etapa do desenvolvimento da vacina, para testar em humanos”, aponta. Ele afirma que o processo implica em uma série de dificuldades, como a produção de reagentes para a vacina em condições de boas práticas de laboratório, para que possam ser testadas em humanos. Para isso, é preciso ter o licenciamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O pesquisador ressalta que essa é uma área que o país precisa ampliar as ações para que se possa passar, rapidamente, dos testes de laboratório para testes em pessoas.

“Temos hoje para ser testada a vacina de malária, de dengue – que foi desenvolvida na Fiocruz (biomanguinhos) – a vacina de leishmaniose – que foi desenvolvida pelo meu grupo – essa vacina já foi testada em cães e, obviamente, nossa próxima etapa seria testar em humanos”, reconhece o especialista. Ele revela ainda que, por meio da associação de instituições de pesquisas com indústrias farmacêuticas, já começa a se tornar possível a realização de testes clínicos. Para Gazzineli, isso é bom. Ele garante que há um movimento no sentido de que, uma vez que se tenha o produto para teste, se estabeleça uma cooperação com os laboratórios. “Porém, o que ocorre é que essas vacinas estão órfãs, ou seja, não há interesse das indústrias”, aponta. Segundo Gazzineli, é preciso fazer duas coisas: estimular a interação com empresas e ter independência, para quando necessário se possa fazer testes, dentro do setor público.

Segundo o pesquisador, existe uma força, uma mobilização geral, ciente desse problema. Sob sua ótica, às vezes falta infraestrutura e também quem tenha experiência para fazer esse serviço. “Vejo que há uma mobilização, mas não virá uma coisa imediata. Acredito que deve demorar. É preciso consciência por parte dos nossos gestores, pois é uma área que requer um investimento significativo para que a gente vença essa barreira e os testes fiquem mais fáceis”, avalia.

A Malária
A malária é uma infecção que afeta, no mundo, aproximadamente 200 a 300 milhões de pessoas por ano. Existem duas formas, duas espécies principais, do Plasmodium que causa a malária, o vivax – responsável por 2/3 dos casos – e o P. falciparum – responsável por 1/3 dos casos, sendo a forma mais letal da malária e mais comum na África.  “Grande parte das mortalidades causada por malária é por infecção pelo P. falciparum. Hoje, estima-se que um milhão de crianças morre de malária por ano”, destaca Gazzineli.

No caso do P. vivax, apesar de ser uma infecção mais branda, há um impacto grande no setor produtivo. A pessoa infectada pelo P. vivax fica um período sem trabalhar, devido à febre alta e dores, causando impacto nas atividades produtivas e na saúde pública.…