Pesquisa estuda uso de parasita da doença de Chagas para prevenir diabetes

Publicação: 10 de junho de 2012

Dr-Cleudson
Caso os resultados da pesquisa no homem
confirmarem os do camundongo, será sem
duvida uma grande conquista para a
humanidade

Cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, descobriram que o parasita causador da doença de Chagas pode ser usado na prevenção de outra doença sem cura: o diabetes tipo 1, que atinge 1 milhão de brasileiros. A descoberta ainda precisa ser testada em seres humanos, mas os pesquisadores estão otimistas.

A descoberta da Fiocruz foi por acaso. Enquanto pesquisavam a doença de Chagas, os cientistas perceberam que camundongos que recebiam o parasita Trypanossoma cruzi no laboratório não desenvolviam diabetes, apesar de geneticamente propensos à doença.

Na avaliação do Dr. Cleudson Nery de Castro, professor de doenças infecciosas da Universidade de Brasília (UnB) esse estudo pode ser considerado uma conquista, mas lembra que a pesquisa, inédita, está em fase experimental. “Suponho que os investigadores pesquisarão como o T.cruzi, protege os animais do diabetes tipo I. Falta confirmar os efeitos benéficos no homem e isso leva algum tempo”, acredita o especialista. Ele explica que a pesquisa relembra uma experiência feita, há muito tempo, pelo parasitologista brasileiro Samuel Pessoa. Ele conta que, conforme relato, o pesquisador injetou o parasita no pai de um colega que estava com câncer, e, inicialmente, teve bons resultados. “Se os resultados da pesquisa no homem confirmarem os do camundongo, será sem duvida uma grande conquista para a humanidade”, confessa o professor.

Os testes começaram em 2005 e a equipe da Fiocruz, que desenvolve o estudo em parceria com a Faculdade de Medicina de Petrópolis, está otimista com os resultados. O diabetes não se manifestou em nenhum animal testado.

Segundo José Mengel, pesquisador da Fiocruz, o parasita mostrou ser “uma proteção extremamente robusta”. “Você continua tendo uma proteção muito alta, em torno de 100%, mesmo quando você usa uma droga que desencadeia o diabetes nesses camundongos”, afirma Mengel.

O segundo passo do estudo é identificar e isolar a substância produzida pelo parasita, capaz de proteger o organismo, para poder usá-la em pacientes sem infectá-los com a doença de Chagas. Segundo Dr. Cleudson, alguns pesquisadores acreditam que doença de Chagas crônica tenha um componente imunológico. “Algumas moléculas existentes no T. cruzi, estão presentes também no tecido humano, assim o processo inflamatório contra o parasita transmissor da doença de Chagas atacaria, também, os tecidos humanos, destruindo lentamente o coração e outros órgãos. Para os que pensam assim, injetar partículas ou substâncias produzidas pelo T cruzi como vacina pode ter implicações desfavoráveis”, alerta o especialista.

Mas Dr. Cleudson assegura que o trabalho da Fiocruz não muda em nada a necessidade de combate aos triatomíneos dentro e ao redor das habitações. “Barbeiro dentro de casa e arredores devem ser sempre combatidos. Viver em uma casa sem barbeiro é questão de dignidade humana”, frisa o especialista. “Não existe, até o momento, nenhuma perspectiva de controle da doença de Chagas por meio de vacinas. O controle da transmissão está sendo feita pelo combate aos vetores, dentro e ao redor das habitações, controle do sangue transfundido, melhoria das habitações e esclarecimento da população”, pontua. Ele esclarece que a manutenção destes serviços é importante e repercute no controle da doença.

O professor da UnB, explica que a certificação da erradicação da transmissão pelo T. infestans, em 2006, tem confundido as pessoas. No seu ponto de vista, soa para ao povo como se a doença tivesse sido erradicada. “O certificado é válido para a interrupção da transmissão pelo T. infetans, barbeiro que vivia dentro das residências e era o maior transmissor da doença. Ainda existe a transmissão por outros vetores diferentes do T. infestans e a transmissão oral. A mídia hoje divulga muito mais a transmissão oral que está ocorrendo na Amazônia. Essa transmissão provavelmente já ocorria, mas era obscurecida pela transmissão vetorial e transfusional que era incomparavelmente maior”, relata. Ele considera que como estes dois últimos tipos de transmissão diminuíram – vetorial e transfusional – a oral aumentou relativamente. “O problema não voltou, ele continua em menor dimensão”, salienta.

Questionado se o combate ao barbeiro causador da doença não comprometeria o trabalho da Fiocruz, ele assegura que o controle dentro das habitações e seus arredores deve ser feito, sempre; mesmo que a pesquisa seja bem sucedida. “Existem meios de cultura artificiais nos quais se pode manter o parasito no laboratório por tempo indefinido por meio de repiques sucessivos. Se a pesquisa for bem sucedida não faltará Trypanosoma, para obter o imunobiológico”, garante.

A doença hoje no Brasil
A transmissão da doença de Chagas hoje é muito menor. Na década de 70, estimava-se que 100 mil casos novos ocorriam a cada ano. “Hoje, talvez tenhamos no máximo 150 casos notificados por ano. Deve estar havendo transmissão por outros triatomíneos diferentes do T. infestans, transmissão congênita e por transplante de órgãos, embora em menor quantidade, por isso percebemos menos”, acredita. Mas Dr. Cleudson destaca que se deve levar em conta que a maioria dos casos agudos não tem sintomas e passam despercebidos.

Chagas X diabetes
Considerada uma doença tropical, porque nesta região do globo estão as condições favoráveis à sua predominância, podemos afirmar que a doença de Chagas é predominante na região tropical das Américas. Por isso é também chamada Tripanossomíase Americana. Devido à intensa migração, a doença está se difundido pelo mundo, mas os milhões de casos ainda estão nos trópicos.

A forma mais letal da doença de Chagas é a cardíaca devido à morte súbita e a insuficiência cardíaca. Cinquenta por cento dos portadores permanecem a vida inteira sem a doença ou com pequenas alterações. Destes, 30% com a forma cardíaca – a maioria tem cardiopatia leve, poucos têm a forma mais grave.

Já o diabetes tipo 1, não é uma doença tropical. Dispersa em todo o mundo, o problema metabólico é mais frequente nos países ricos que nos tropicais. “Em 2005, estimava-se 171 milhões de diabéticos no mundo. Para 2025, a estimativa é que atinja 350 milhões de casos. A África, o mais tropical dos continentes, tem muito menos diabéticos que nos demais,” analisa Dr. Cleudson.

Ao afirmar que o risco de letalidade é maior no diabetes tipo 1 que na doença de Chagas, o professor da UnB lembra que o diabetes está entre as cinco doenças que matam mais no mundo. “O diabetes tipo 1 é uma doença mais frequente em criança. O tratamento se dá por medicamento injetável e o controle da glicemia – mais difícil que o tipo 2”, comenta. Ao destacar que a expectativa de vida do diabético tipo 1 é 15 anos menos que na população geral, Dr. Cleudson explica que o diabetes mal controlado tem repercussão na visão, nas artérias, nos rins e no coração, entre outros.

A expectativa dos pesquisadores é que no futuro a descoberta feita no laboratório se torne o primeiro remédio capaz de prevenir o diabetes. “As pessoas que já têm pais que apresentam a doença, a gente sabe de antemão que eles têm mais chances de desenvolver o diabetes tipo 1, ou seja, você poderia vacinar essas pessoas contra o futuro aparecimento do diabetes tipo 1”, pondera o pesquisador da Fiocruz.…