Falta de infraestrutura compromete erradicação do cólera

Publicação: 8 de maio de 2013

Falta de infraestrutura compromete erradicação do cólera

A ocorrência da doença ainda é significativa em vários países da África e regiões tropicais da Ásia, de acordo com a OMS

casos confirmados de cólera

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2007), no Brasil a cobertura com abastecimento de água é de 91,3%, na área urbana, variando de 65% na região Norte a 95% na região Sul. Chama-se atenção para a cobertura na região Nordeste que apesar de ter 88,8%, ocorrem constantes intermitências em seu fornecimento para a população.

No que se refere a esgotamento sanitário a cobertura varia de 52% na região Centro-Oeste a 85% na região Sul do País. “O comportamento de cólera no Brasil sugere um padrão epidêmico, na dependência de condições locais que favoreçam a circulação do Vibrio cholerae. A vulnerabilidade à doença também pode ser constatada em áreas mais desenvolvidas do País, principalmente nos bolsões de pobreza existentes nas periferias dos centros urbanos (favelas)”, reconhece Dr. José Ricardo Pio Marins, coordenador-geral de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde (CGDT/MS).

“No mundo o cólera é endêmico nos países asiáticos e africanos. Na região das Américas, no momento, a doença se faz presente, desde outubro de 2010, no Haiti, com cerca de 639 mil casos e oito mil óbitos. Já na República Dominicana, de novembro de 2010 até o momento, houve 29.490 ocorrências e 426 óbitos. Em Cuba desde janeiro de 2013, foram confirmados até o momento 51 registros”, enumera o especialista.

O coordenador-geral de Doenças Transmissíveis explica que o cólera é considerado um sério problema de saúde pública devido a sua característica endêmica e capacidade de se tornar epidêmica. “Ele causa grande impacto na morbimortalidade, principalmente nas áreas indenes e com situação precária de saneamento e qualidade de vida”, comenta Dr. Pio Marins ao lembrar que a última introdução do cólera, no Brasil, ocorreu em 1991, pela Selva Amazônica, no Alto Solimões, se alastrando progressivamente pela região Norte, seguindo o curso do Rio Solimões/Amazonas e seus afluentes.

Mas o especialista chama a atenção para o fato de que a experiência internacional tem demonstrado que a introdução do cólera em um país não pode ser evitada, podendo a disseminação ser controlada com infraestrutura de saneamento adequada aliada a um sistema de vigilância epidemiológica atuante. “Por isso a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS), dentre outras ações, tem realizado a implantação da Monitorização das Doenças Diarreicas Agudas (MDDA) no País”, salienta Dr. Pio Marins.

Investigação permanente
A MDDA é um sistema de vigilância sentinela, que visa conhecer o comportamento das doenças diarreicas agudas e detecção precoce dos surtos de doenças de transmissão hídrica e alimentar com vistas à implantação das medidas de prevenção e controle de forma adequada e imediata. “Apesar da inexistência de casos, o cólera continua gerando atenção permanente da vigilância epidemiológica com a análise do comportamento das doenças diarreicas agudas pela MDDA, o monitoramento ambiental para identificação da cepa toxigênica do agente etiológico no meio ambiente e também nas ações preventivas, principalmente as relacionadas ao tratamento da água”, informa o profissional do Ministério da Saúde.

As regiões com maior risco para o cólera são as que apresentam condições de saneamento com maior precariedade, assim como as áreas de fronteiras, portos e aeroportos devido ao grande fluxo de pessoas. “A última epidemia foi introduzida, no Brasil, por meio da fronteira com o Peru. Por isto estas áreas têm ações integradas de vigilância, inclusive nos municípios de fronteira”, comenta Dr. Pio Marins ao assegurar que este ano, serão realizadas, como nos anos anteriores, atividades integradas entre a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, a Secretaria de Vigilância em Saúde e o Ministério da Saúde na região do alto Solimões, na perspectiva de dar continuidade ao monitoramento ambiental na região, além de reforçar a análise conjunta com a Monitorização das Doenças Diarreicas Agudas.

Vacina para prevenir
Existem, no mercado, duas opções de vacina: oral e injetáveis. A DUKORAL®, uma das vacinas orais, pré-qualificada e licenciada internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), oferece proteção maior que 50% contra o cólera, embora esta proteção tenha duração média de dois anos.

“Em indivíduos acima de 6 anos, deve ser administrada em duas doses, com intervalo de 10 a 15 dias. Para crianças de 2 a 6 anos, a administração é feita em três doses, com intervalo de uma semana. A última dose da vacina deve ser administrada pelo menos uma semana antes da data da viagem”, adverte o especialista ao antecipar que esta vacina é recomendada pela OMS para aplicação em viajantes com destino às áreas onde ocorrem casos de cólera e não como uma vacina que deva ser acrescentada à rotina de vacinação da população.

Segundo ele não há previsão de inclusão de vacina contra o cólera no calendário de vacinação.

O cólera no Brasil
A sétima pandemia de cólera chegou ao Brasil em 1991 e perdurou até 2001, atingindo todas as regiões do País, produzindo um total de 168.598 casos e 2.035 óbitos, com registro de grandes epidemias na região Nordeste.

“Entre 1992 e 1994, ocorreu uma importante redução no número de casos, sendo esta queda acentuada a partir de 1995. Em 2001, foram registrados sete casos confirmados (quatro no Ceará; um em Pernambuco; um em Alagoas; e um em Sergipe). Em 2002 e 2003 não foram detectados casos no Brasil. Já no primeiro semestre de 2004, foram registrados 21 no município de São Bento do Una, situado no agreste de Pernambuco. No primeiro trimestre de 2005, novos casos foram diagnosticados, no mesmo estado, sendo quatro em São Bento do Una e um no Recife”, diz Dr. Pio Marins ao garantir que no período de 2006 a 2012 não ocorreu no Brasil casos autóctones da doença.

Já em 2006 foi registrado um caso importado procedente de Angola, e no ano de 2011 foi notificado um – importado da República Dominicana.…