Vacina contra os diversos tipos de Leishmanioses ainda está longe de ser realidade

Publicação: 14 de abril de 2013

Dr. AlexandreO conjunto das doenças infecciosas tropicais é responsável por um número enorme de mortes no mundo e, o controle delas, a exemplo das Leishmanioses, tem sido dificultado pelo surgimento de cepas resistentes. Portanto, a prevenção por meio da vacinação representa, atualmente, a melhor alternativa para combatê-las. No entanto, Dr. Alexandre Reis, professor de Parasitologia Clínica da Escola de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto (EF/UFOP) e pesquisador do Laboratório de Imunopatologia, (NUPEB/UFOP), atenta que mecanismos de fuga e evasão do sistema imune por patógenos, muitas vezes tornam difícil o desenvolvimento de vacinas.

“Além disso, a maioria das vacinas atualmente disponíveis foi empiricamente projetada. Desta forma, é desejável e necessário rever as existentes dentro de uma visão contemporânea, conhecida como vacinologia racional. Nesta, vários pontos são pensados em conjunto no desenho de uma potencial vacina, que se espera como efeito final a proteção”, aponta o pesquisador.

Em entrevista concedida à Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) o especialista atesta que a comunidade científica, e mais ainda, a população, aguardam que, em um futuro próximo, se tenha uma vacina contra Leishmaniose Visceral Canina (LVC), sendo usada na imunoprofilixia em massa em nosso País. Dr. Reis lembra que somos o único País que pratica a eutanásia de cães soropositivos como medida de controle para LV e que mesmo realizando esta prática o número de casos humanos e caninos tem aumentado assustadoramente. Na opinião do professor da UFOP, é preciso rever algumas condutas para avaliarmos se estamos na direção certa para o controle da LV no Brasil.

 
SBMT: Porque vacinas para cães e não para humanos?

AR: Quando falamos em vacinas para LVC estamos nos referindo àquelas capazes de proteger cães da infecção por Leishmania infantum (Syn. de L. chagasi), agente infeccioso da Leishmaniose Visceral no Brasil. Atualmente, existem candidatos vacinais – ou mesmo vacinas – para LVC comercializadas no Brasil e em alguns países da Europa. Já, com relação à Leishmaniose Visceral Humana (LVH) ainda não temos nenhum imunoprofilático ou candidato vacinal na mesma situação.

No contexto epidemiológico e de controle e profilaxia, a doença canina é mais importante do que a humana. A prevalência da LVC pode ser 10, 20 ou até 30 vezes superior que a prevalência da doença humana, atingindo, portanto, proporções em torno de 10:1, 20:1 e até mais de 30 casos caninos para um caso humano, dependendo da área endêmica em questão. Outro fator que contribuiu para chamar a atenção dos vacinologista para LVC é que o parasitismo cutâneo em cães naturalmente infectados com L. Infantum é extremamente superior do que o observado na pele de pacientes com LVH. Além disto, temos que considerar que fêmeas de flebotomíneos são mais atraídas para fazer seu repasto sanguíneo em animais domésticos (porcos, cavalos, cães, galinhas etc) que em humanos. Desta forma o cão foi incriminado como reservatório do parasito sendo considerado a principal fonte de infecção para os vetores, principalmente no ambiente doméstico e peridoméstico.

Todos estes fatores fizeram os parasitologistas e epidemiologistas classificarem a LVH como uma zoonose ou antropozoonose, principalmente a que ocorre no continente Americano, Europa e algumas regiões da África causadas por L. infantum. Já a LVH causada por L. donovani (Índia, Sudão etc), foi classificada como uma antroponose, onde a infecção é transmitida entre humanos pela picada de flebotomíneos e, neste caso, o homem é considerado o próprio reservatório da doença. Desta forma, na década de 80 alguns pesquisadores parasitologistas Brasileiros (Dr. Mauro Marzochi, Dr. Wilson Mayrink e o Dr. Odair Genaro), passaram a chamar a atenção da importância de vacinas para LVC. Assim, estes pesquisadores e outros acreditavam que se conseguíssemos produzir vacinas eficazes capazes de proteger os cães em áreas endêmicas, automaticamente protegeríamos a população nestas localidades, pois reduzindo a prevalência e incidência canina não teríamos os reservatórios, e consequentemente, reduziríamos a incidência da LVH. Foi a partir desta época que emergiram na literatura alguns trabalhos propondo potenciais antígenos vacinais para serem empregados na imunoprofilaxia da LVC.

SBMT: Existe uma vacina eficaz capaz de proteger os cães?

A.R: Acredito que sim. Algum tipo de proteção as vacinas existentes conferem aos animais imunizados, o que de fato precisamos saber é o potencial desta proteção em nível mais global, quer dizer, numa população de cães de área endêmica. Além disto, o quanto esta proteção irá interferir nos índices de incidência e prevalência tanto da infecção canina quanto humana ao longo de um período de campanhas de vacinação. Ou seja, não é tão simples assim, e uma vacinação individual, feita em clínicas não dará esta resposta. Isto somente será possível saber quando o governo incorporar alguma vacina numa campanha sistemática de imunoprofilaxia e, por longo tempo.

SBMT: Quais são os critérios a serem considerados para elencar uma vacina no patamar da eficácia?

A.R: Durante muito tempo acreditava-se que uma vacina eficaz teria que impedir a infecção em praticamente todos os cães vacinados ou num patamar próximo a isto. Este conceito de vacina “esterilizante” já caiu por terra há algumas décadas. Sabemos que uma vacina precisa ter um potencial de imunogenicidade e, principalmente, de proteção excelente, mas o benefício da vacinação somente será atingido em programas de vacinação em massa. Desta forma, se queremos ter efeito de redução da infecção canina e humana em uma área êndemica, somente iremos obtê-lo após uma ampla e sistemática campanha de controle e profilaxia. Isto demanda em uma cobertura de 100% dos cães da área endêmica e anos para que possamos reduzir a incidência, tanto da infecção canina com da humana.

Vários são os critérios que permitem definirmos se os candidatos vacinais tem potencial protetor ou não e muitos deles ainda não estão totalmente definidos. No meu ponto de vista, uma vacina não deve ser invalidada pelo simples fato de que ela soroconverte um teste de imunodiagnóstico sobre a prerrogativa de com isto dificultar o controle em regiões endêmicas. Assim,  se uma vacina se demonstrar eficaz, mesmo que soroconvertendo uma ELISA e IFAT ou qualquer outro teste, temos que buscar alternativas para manter este imunobiológico e ao mesmo tempo investir em técnicas que consigam distinguir os cães doentes dos vacinados.

 
SBMT: Quantos candidatos vacinais potenciais existem hoje no mundo para serem usados como vacinas para LVC?

A.R: Atualmente, existem três candidatos vacinais que já estão no mercado sendo usado por médicos veterinários, em clínicas particulares, para “imunizações individuais” de cães de proprietários. Destes, dois são produzidos e comercializados por empresas sediadas no Brasil, a Leishmune® produzida pela Fort Dodge Saúde Animal, a Leish-tec® produzida pela Hertape Calier – Saúde Animal, ambas no mercado brasileiro; e a CaniLeish® vaccine – produzida pela Virbac e atualmente comercializadas em alguns países da Europa. Até o momento nenhuma destas vacinas foram incorporadas oficialmente em programas de controle e profilaxia no Brasil, bem como em nenhum outro país endêmico.

SBMT: Desde quando existem essas vacinas? Qual o custo médio? Qual o tempo de imunização?

A.R: A Leishmune® foi a primeira vacina a ser comerciliazada há cerca de 15 anos e a Leish-tec® surgiu nos últimos 5 anos, aproximadamente. O custo médio das doses está em torno de R$80, mas este valor pode variar dependendo da clínica veterinária, podendo chegar a R$100/dose. Para ambas são utilizadas três doses num intervalo de 21 dias e é recomendada uma dose reforço/ano.


SBMT:
E para o ser humano, existe vacina? Qual? Existe alguma pesquisa em andamento? A vacina imuniza contra todos os tipos da doença?

A.R: Para humanos existem algumas vacinas e protocolos vacinais que são usados para Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), sendo as mais conhecidas aquelas produzidas pelo grupo de pesquisa do Dr. Wilson Mayrink no Brasil e pelo Dr. Convit na Venezuela. Ambas, atualmente são usadas como vacinas terapêuticas, ou seja, no tratamento de pacientes com LTA – como uma alternativa terapêutica ao tratamento quimioterápico com Glucantime – e que apresentam ótimos resultados.

Já para a LVH, o primeiro ensaio clínico de uma nova vacina vem sendo conduzido por pesquisadores do Infectious Disease Research Institute (IDRI), em Seattle/USA. A Fase 1 do experimento está ocorrendo em Washington, e em paralelo na Índia, um epicentro da doença. Segundo Franco Piazza, diretor médico da IDRI e líder de desenvolvimento clínico da vacina , com este ensaio clínico, espera-se lançar uma nova era na luta contra a LV. A vacina da IDRI, conhecida como Leish-F3 + GLA-SE, é uma vacina altamente purificada, recombinante. Incorpora duas proteínas fusionadas de Leishmania e um adjuvante potente para estimular uma resposta imune contra o parasita.

Já a segunda etapa dos experimentos de Fase 1 ocorrerão na India, onde o IDRI estará também transferindo sua tecnologia de vacina Leish-F3 + GLA-SE para a empresa Biopharmaceuticals Gennova. Subsequentes ensaios clínicos envolverão um maior número de pessoas que estão em alto risco de desenvolver LV com contato diário a picadas do vetor infectado, nas áreas endêmicas da Índia. Somente após estes ensaios clínicos que serão realizados em situações reais de exposição à doença, irão determinar a plena eficácia da vacina Leish-F3 + GLA-SE contra LV humana.

Ainda não acreditamos que esta vacina, mesmo que se mostre eficiente na Índia seja capaz de proteger contra LV no Brasil. Para termos certeza desta possibilidade é preciso que ensaios clínicos sejam realizadas em nossas áreas endêmicas cuja dinâmica de infecção e perfil epidemiológico é bem distinto e portanto, somente após estes ensaios é que podemos afirmar se esta vacina é também eficáz no Novo Mundo. Além disso, é complexo imaginar que esta vacina estaria protegendo contra LTA que possuí uma diversidade ainda maior de elementos envolvidos na cadeia epidemiológica, a começar pelos inúmeros agentes etiológicos.

SBMT: Existe a possibilidade da vacina contra a Leishmaniose ser produzida por algum laboratório oficial do MS e distribuída gratuitamente no SUS? Há algum estudo ou movimentação nesse sentido?

A.R: Acredito que exista não só a possibilidade como também o interesse do Ministério da Saúde para que isto ocorra. No passado, tivemos várias divergências e conflitos que levaram a uma demora muito grande na aprovação da vacina anti-LTA proposta pelo grupo do Prof. Wilson Mayrink e produzida pela Biobrás, a Leishvacin. Por volta de 2002, a Leishvacin foi autorizada como vacina terapêutica e a Biobrás já não existia mais, parece que a Leishvacin será produzida pela FUNED, que é um orgão público.

Particularmente, penso que independe se a vacina será produzida por um orgão público ou privado, o que importa é de fato que num futuro próximo possamos ter uma vacina inserida no Sistema Único de Saúde (SUS), gratuitamente para população humana, ou mesmo canina. Cabe aqui ressaltar, que estamos tratando de uma doença tropical negligenciada e altamente emergente e reemergente no Brasil e no mundo. Se não fizermos algo para mudar este panorama agora, cada vez mais ficará complexo para o Brasil dar sua contribuição científica e biotecnológica na resolução deste problema que também é nosso, e que temos total capacidade de contribuir com soluções inovadoras.

SBMT: É possível desenvolver uma vacina capaz de combater todos os tipos de Leishmanioses?

A.R: Quanto a uma vacina polivalente, pode até ser que sim, mas não para um futuro próximo. Acho que devemos ser mais otimistas e buscar soluções para cada uma delas e com a ajuda da ciência moderna, quem sabe, possa surgir uma vacina polivalente. Prefiro acreditar que futuramente teremos vacinas para LVH, pois para LT já temos a do Prof. Wilson Mayrink, do Dr. Convite, entre outras. Claro que precisamos de mais candidatas, mas já temos vacinas, mesmo que seja somente para fins terapêuticos e não profiláticos.…