Moçambique sofre pior tragédia humanitária no Hemisfério Sul

Prováveis surtos de cólera e outras doenças infecciosas, bem como de sarampo, devem afetar extensas zonas do sudeste da África, em particular Moçambique
Situation in Mozambique is unprecedented. Neither Mozambique nor any other country in the world is prepared to respond to a tragedy of this dimension
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Situação em Moçambique é uma coisa nunca vista. Nem Moçambique e nem outro país do mundo está preparado para responder a uma tragédia desta dimensão

A passagem do ciclone Idai em Moçambique, no Zimbabué e no Maláui fez pelo menos 1005 mortos e afetou 2,9 milhões de pessoas nos três países, segundo dados das agências das Nações Unidas. Para prevenir um segundo desastre em Moçambique, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou vacinas contra cólera e mosquiteiros para proteger contra malária. Também foram encaminhados suprimentos para tratar doenças diarréicas e testes de diagnóstico rápido. Para o coordenador de emergência do Programa Mundial de Alimentação (PMA) Pedro Matos, a situação em Moçambique é uma coisa nunca vista. Em declarações à ONU News, ele disse que nem Moçambique e nem outro país do mundo está preparado para responder a uma tragédia desta dimensão.

Quem conseguiu sobreviver ao ciclone terá agora que enfrentar novas consequências do desastre. De acordo com o ministro da Terra e Meio Ambiente de Moçambique, Celso Correia, é inevitável que apareçam casos de cólera e malária no país devido à grande concentração de água. O diretor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) da Universidade Nova de Lisboa, em Lisboa, Portugal, Paulo Ferrinho, compartilha da mesma opinião. Ele declarou que a malária é a grande ameaça à saúde pública no rescaldo da passagem do ciclone Idai, bem como a cólera. Zika, dengue e leptospirose são outras doenças que também podem se espalhar pelas regiões onde há água parada. A filariose, que normalmente já faz vítimas, e os casos de diarreias também devem se agravar.

As equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) utilizam todos os recursos disponíveis, materiais e humanos, para enfrentar os efeitos dessa catástrofe. A organização humanitária internacional enviou dezenas de profissionais experientes ao país, bem como mais de 40 toneladas de equipamentos e suprimentos médicos. Segundo informações de MSF, o desafio tem sido fazer reparos em centros de saúde danificados pelo ciclone para que possam voltar a operar, ao mesmo tempo em que não é possível esperar para oferecer assistência em meio a tantas demandas por cuidados médicos. Por isso, equipes estão trabalhando em clínicas móveis, procurando e atendendo pacientes com cortes infectados, infecções respiratórias, diarreia e infecções de pele. Há preocupações reais de que muitos dos poços foram contaminados durante o ciclone e que as pessoas estejam bebendo água contaminada.

Dr. Ferrinho alertou ainda que o colapso do sistema social talvez seja a maior tragédia que os moçambicanos vão ter que enfrentar. Para ele, a ajuda humanitária, que nesta primeira fase se destina a satisfazer necessidades imediatas de água, alimentos, cuidados básicos de saúde e tratamento das doenças mais prevalentes, terá que evoluir posteriormente para a reconstrução do sistema social e de saúde. Outro retrato de um país de língua oficial portuguesa destruído por uma das maiores catástrofes climáticas no hemisfério sul também já começa a aparecer: Em Chimoio, capital da província moçambicana de Manica, o saco de 25 kg de arroz, que custava o equivalente a R$ 57, passou para R$ 82. Já o litro de óleo que custava R$ 2,70 passou a custar R$ 4,26.

O abandono da África à sua própria sorte, gritante no caso de Moçambique, Malawi e Zimbabwe, seria uma amostra da profunda desigualdade por trás das mudanças climáticas? Para o professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Alexandre Costa a resposta é sim. No artigo Moçambique e o preço pago pelos mais pobres pelo aquecimento global”, o cientista do clima assinala que Moçambique é vítima do caos climático, do petróleo (que alguns lamentavelmente ainda sonham ser usado para produzir riqueza de forma justa), do carvão e do gás. É vítima da profunda desigualdade associada às mudanças climáticas. “O que precisamos não é de ‘ajuda humanitária’, mas do pagamento da dívida climática, que precisa ser cobrada, pelos pobres, dos países ricos e, principalmente, das corporações fósseis e dos bancos que as financiam”, diz.

Ciclone Idai

Com ventos que chegaram aos 220 km por hora, o ciclone Idai atingiu o coração de Moçambique na noite de quinta-feira, dia 14 de março. As notícias foram se espalhando ao resto do mundo enquanto a população resistia como podia nas zonas afetadas. A verdadeira dimensão da tragédia só agora começou a ser conhecida alguns dias após a tragédia e a recuperação pode levar anos. Folhas metal voaram e decapitaram pessoas. Os sobreviventes se agarraram desesperadamente nos telhados e também nas árvores em áreas inundadas, aguardando ajuda e salvamento. Reportagem exibida no programa Fantástico em 24 de março mostrou cenas impressionantes e conversou com brasileiras que ajudaram. Assista aqui.

Saiba abaixo como ajudar

As iniciativas de ajuda humanitária internacional se organizaram para levar alimentos, remédios, água potável e materiais que permitam abrigar as pessoas diretamente afetadas.

A ONU coordena respostas de emergência como a provocada pelo ciclone Idai por meio do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Doações podem ser feitas clicando aqui.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) é uma das agências da ONU que lideram a resposta de emergência na região. Para doar, clique aqui.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) abriu um canal direto para doações. Clique aqui.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está atuando na região. Para doações clique aqui.

A Central de Apoio, criada por entidades de Moçambique, aceita doações. Mais informações clique aqui.

A Junta de Missões Mundiais, ligada à Convenção Batista Brasileira, aceita doações. Saiba mais clicando aqui.

A Organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que cuida da saúde da população em situações de crise humanitária, recebe doações. Mais informações clique aqui.

A entidade internacional ActionAid leva suprimentos para sobreviventes do desastre. Informações sobre como doar, clique aqui.

Mais informações:

A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) se une em solidariedade aos irmãos africanos diante desta catástrofe. “Reconhecemos a dívida histórica que o mundo tem para com este continente, que teve seu povo social e economicamente subjugado e suas riquezas extraídas pelo colonialismo durante e após o período escravagista. Reconhecemos que, para se minimizar os efeitos de tragédias como esta, justamente em locais tão desprovidos de recursos como a África, a comunidade científica tropical tem papel fundamental. Neste cenário de pobreza extrema, de desigualdade social, a vulnerabilidade socioeconômica dos países tropicais se torna mais explícita ainda, enquanto as mudanças climáticas cobram o seu alto preço; suas consequências já afetam as provisões de comida e de água e ainda vão contribuir na propagação de doenças infecciosas. Salienta que, aqui, nos Trópicos, a pobreza aparece como um dos determinantes fundamentais de aparecimento e propagação de doenças. É hora de darmos as mãos”, destaca o professor Carlos Henrique Costa, ex-presidente da SBMT e doutor em Saúde Pública Tropical, pela Harvard University.

O Prof. Carlos Costa lembra que eventos regulares da SBMT com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) discutiram as doenças tropicais no contexto desses países e entende que essa contribuição amplia o papel da Medicina Tropical em prol dos povos dos Trópicos. De fato, a SBMT, em parceria com a IHMT, já organizou cinco versões do Encontro de Medicina Tropical dos Países de Língua Portuguesa (2005-2010), com a presença, inclusive, de médicos e cientistas de Moçambique, sob a organização decisiva do Professor Virgílio do Rosário, ex-diretor do IHMT.

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