Moçambique sofre pior tragédia humanitária no Hemisfério Sul

Publicação: 17 de abril de 2019

Prováveis surtos de cólera e outras doenças infecciosas, bem como de sarampo, devem afetar extensas zonas do sudeste da África, em particular Moçambique


Situação em Moçambique é uma coisa nunca vista. Nem Moçambique e nem outro país do mundo está preparado para responder a uma tragédia desta dimensão

A passagem do ciclone Idai em Moçambique, no Zimbabué e no Maláui fez pelo menos 1005 mortos e afetou 2,9 milhões de pessoas nos três países, segundo dados das agências das Nações Unidas. Para prevenir um segundo desastre em Moçambique, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou vacinas contra cólera e mosquiteiros para proteger contra malária. Também foram encaminhados suprimentos para tratar doenças diarréicas e testes de diagnóstico rápido. Para o coordenador de emergência do Programa Mundial de Alimentação (PMA) Pedro Matos, a situação em Moçambique é uma coisa nunca vista. Em declarações à ONU News, ele disse que nem Moçambique e nem outro país do mundo está preparado para responder a uma tragédia desta dimensão.

Quem conseguiu sobreviver ao ciclone terá agora que enfrentar novas consequências do desastre. De acordo com o ministro da Terra e Meio Ambiente de Moçambique, Celso Correia, é inevitável que apareçam casos de cólera e malária no país devido à grande concentração de água. O diretor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) da Universidade Nova de Lisboa, em Lisboa, Portugal, Paulo Ferrinho, compartilha da mesma opinião. Ele declarou que a malária é a grande ameaça à saúde pública no rescaldo da passagem do ciclone Idai, bem como a cólera. Zika, dengue e leptospirose são outras doenças que também podem se espalhar pelas regiões onde há água parada. A filariose, que normalmente já faz vítimas, e os casos de diarreias também devem se agravar.

As equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) utilizam todos os recursos disponíveis, materiais e humanos, para enfrentar os efeitos dessa catástrofe. A organização humanitária internacional enviou dezenas de profissionais experientes ao país, bem como mais de 40 toneladas de equipamentos e suprimentos médicos. Segundo informações de MSF, o desafio tem sido fazer reparos em centros de saúde danificados pelo ciclone para que possam voltar a operar, ao mesmo tempo em que não é possível esperar para oferecer assistência em meio a tantas demandas por cuidados médicos. Por isso, equipes estão trabalhando em clínicas móveis, procurando e atendendo pacientes com cortes infectados, infecções respiratórias, diarreia e infecções de pele. Há preocupações reais de que muitos dos poços foram contaminados durante o ciclone e que as pessoas estejam bebendo água contaminada.

Dr. Ferrinho alertou ainda que o colapso do sistema social talvez seja a maior tragédia que os moçambicanos vão ter que enfrentar. Para ele, a ajuda humanitária, que nesta primeira fase se destina a satisfazer necessidades imediatas de água, alimentos, cuidados básicos de saúde e tratamento das doenças mais prevalentes, terá que evoluir posteriormente para a reconstrução do sistema social e de saúde. Outro retrato de um país de língua oficial portuguesa destruído por uma das maiores catástrofes climáticas no hemisfério sul também já começa a aparecer: Em Chimoio, capital da província moçambicana de Manica, o saco de 25 kg de arroz, que custava o equivalente a R$ 57, passou para R$ 82. Já o litro de óleo que custava R$ 2,70 passou a custar R$ 4,26.

O abandono da África à sua própria sorte, gritante no caso de Moçambique, Malawi e Zimbabwe, seria uma amostra da profunda desigualdade por trás das mudanças climáticas? Para o professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Alexandre Costa a resposta é sim. No artigo “Moçambique e o preço pago pelos mais pobres pelo aquecimento global, o cientista do clima assinala que Moçambique é vítima do caos climático, do petróleo (que alguns lamentavelmente ainda sonham ser usado para produzir riqueza de forma justa), do carvão e do gás. É vítima da profunda desigualdade associada às mudanças climáticas. “O que precisamos não é de ‘ajuda humanitária’, mas do pagamento da dívida climática, que precisa ser cobrada, pelos pobres, dos países ricos e, principalmente, das corporações fósseis e dos bancos que as financiam”, diz.

Ciclone Idai

Com ventos que chegaram aos 220 km por hora, o ciclone Idai atingiu o coração de Moçambique na noite de quinta-feira, dia 14 de março. As notícias foram se espalhando ao resto do mundo enquanto a população resistia como podia nas zonas afetadas. A verdadeira dimensão da tragédia só agora começou a ser conhecida alguns dias após a tragédia e a recuperação pode levar anos. Folhas metal voaram e decapitaram pessoas. Os sobreviventes se agarraram desesperadamente nos telhados e também nas árvores em áreas inundadas, aguardando ajuda e salvamento. Reportagem exibida no programa Fantástico em 24 de março mostrou cenas impressionantes e conversou com brasileiras que ajudaram. Assista aqui.

Saiba abaixo como ajudar

As iniciativas de ajuda humanitária internacional se organizaram para levar alimentos, remédios, água potável e materiais que permitam abrigar as pessoas diretamente afetadas.

A ONU coordena respostas de emergência como a provocada pelo ciclone Idai por meio do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Doações podem ser feitas clicando aqui.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) é uma das agências da ONU que lideram a resposta de emergência na região. Para doar, clique aqui.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) abriu um canal direto para doações. Clique aqui.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está atuando na região. Para doações clique aqui.

A Central de Apoio, criada por entidades de Moçambique, aceita doações. Mais informações clique aqui.

A Junta de Missões Mundiais, ligada à Convenção Batista Brasileira, aceita doações. Saiba mais clicando aqui.

A Organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que cuida da saúde da população em situações de crise humanitária, recebe doações. Mais informações clique aqui.

A entidade internacional ActionAid leva suprimentos para sobreviventes do desastre. Informações sobre como doar, clique aqui.

Mais informações:

A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) se une em solidariedade aos irmãos africanos diante desta catástrofe. “Reconhecemos a dívida histórica que o mundo tem para com este continente, que teve seu povo social e economicamente subjugado e suas riquezas extraídas pelo colonialismo durante e após o período escravagista. Reconhecemos que, para se minimizar os efeitos de tragédias como esta, justamente em locais tão desprovidos de recursos como a África, a comunidade científica tropical tem papel fundamental. Neste cenário de pobreza extrema, de desigualdade social, a vulnerabilidade socioeconômica dos países tropicais se torna mais explícita ainda, enquanto as mudanças climáticas cobram o seu alto preço; suas consequências já afetam as provisões de comida e de água e ainda vão contribuir na propagação de doenças infecciosas. Salienta que, aqui, nos Trópicos, a pobreza aparece como um dos determinantes fundamentais de aparecimento e propagação de doenças. É hora de darmos as mãos”, destaca o professor Carlos Henrique Costa, ex-presidente da SBMT e doutor em Saúde Pública Tropical, pela Harvard University.

O Prof. Carlos Costa lembra que eventos regulares da SBMT com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) discutiram as doenças tropicais no contexto desses países e entende que essa contribuição amplia o papel da Medicina Tropical em prol dos povos dos Trópicos. De fato, a SBMT, em parceria com a IHMT, já organizou cinco versões do Encontro de Medicina Tropical dos Países de Língua Portuguesa (2005-2010), com a presença, inclusive, de médicos e cientistas de Moçambique, sob a organização decisiva do Professor Virgílio do Rosário, ex-diretor do IHMT.