Mortes por tuberculose aumentam pela primeira vez em mais de uma década, aponta relatório global

Publicação: 9 de novembro de 2021

Aumento de mortes se deu pela interrupção do acesso aos serviços de combate à tuberculose e à redução dos recursos

OMS estima que cerca de 4,1 milhões de pessoas atualmente sofram de tuberculose, mas não foram diagnosticadas com a doença ou não notificaram oficialmente às autoridades de saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou em meados de outubro que as mortes por tuberculose, uma das doenças infecciosas que mais mata no mundo, aumentaram pela primeira vez na década, como um resultado direto da pandemia. Os novos dados demonstram como anos de progresso na prevenção da doença foram revertidos desde que a pandemia sobrecarregou os sistemas de saúde em 2020, o que impediu as pessoas de procurarem ajuda médica. O relatório global de tuberculose da OMS de 2021 evidenciou que fechamentos em todo mundo dificultaram o acesso aos serviços de saúde de boa parte da população. Segundo a organização, a taxa de mortes da doença pode ser ainda maior em 2021 e 2022. O documento apresenta dados sobre as tendências das doenças e a resposta à epidemia de 197 países e áreas, incluindo 182 dos 194 Estados-membros da OMS.

De acordo com o documento, cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram por conta da doença em 2020, mais do que em 2019, ao analisar a resposta epidêmica em 197 países e regiões. Ainda segundo o relatório, cerca de 1,5 milhão de pessoas morreu de tuberculose em 2020, número que não era alcançado desde 2017, incluindo 214 mil entre pessoas HIV positivas, (em comparação com 209 mil em 2019) e 1,3 milhão de mortes por tuberculose entre outros pacientes (em comparação com 1,2 milhão em 2019). No mesmo ano, o Brasil teve 66.819 registros novos de tuberculose e foi o segundo país com mais casos no mundo.

A presidente da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, Dra Ethel Maciel, lamenta os dados apontados no relatório, que demostram o quão expressivo foi o impacto da pandemia nos indicadores de tuberculose, bem como os impactos relacionados à diminuição do acesso aos serviços de saúde, diminuição de consultas, de exames diagnóstico. “Além disso, por conta da pandemia, houve também aumento da pobreza no mundo, principalmente em países que têm a mais alta carga da doença, e que são países em desenvolvimento, que ainda sofrem com problemas de desigualdade social”, ressalta ao lembrar que a tuberculose, por ser uma doença relacionada à pobreza, tem relação direta com esses indicadores econômicos.

O aumento no número de mortes ocorreu, principalmente, nos 30 países com a maior carga da doença. Os países com o maior número incluem Índia, China, Indonésia, Filipinas, Nigéria, Bangladesh e África do Sul. Segundo o documento, o número de novos diagnosticados caiu de 7,1 milhões, em 2019, para 5,8 milhões, em 2020. Isto significa que menos pessoas foram diagnosticadas, tratadas ou receberam tratamento preventivo contra a tuberculose em 2020. As principais quedas de notificações da doença entre 2019 e 2020 aconteceram na Índia (41%), Indonésia (14%), Filipinas (12%) e China (8%). A agência de saúde da ONU ressaltou ainda que esses e outros 12 países somaram 93% do total de quedas de notificações globalmente. A OMS estima que cerca de 4,1 milhões de pessoas atualmente sofrem de tuberculose, mas não foram diagnosticadas ou não relataram oficialmente às autoridades. Este número é superior aos 2,9 milhões em 2019.

Os gastos com os serviços essenciais para a tuberculose caíram, assim como no tratamento preventivo da doença. O relatório revela que cerca de 2,8 milhões de pessoas tiveram acesso ao cuidado preventivo em 2020, uma redução de 21% se comparado a 2019. Além disso, o número de pacientes tratados que são resistentes a medicamentos diminui 15%, de 177 mil, em 2019, para 150 mil, em 2020, o que equivale a um em cada três dos necessitados. A queda nos casos notificados é observada principalmente na Índia, Indonésia, Filipinas e China. Os gastos globais com diagnóstico, tratamento e prevenção da tuberculose caíram, de US$ 5,8 bilhões para US$ 5,3 bilhões em 2020, menos da metade da meta de financiamento global, definida em US$ 13 bilhões por ano até 2022. De acordo com a Dra. Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a pandemia trouxe essa dupla carga para a tuberculose, além do impacto no acesso e na diminuição dos serviços de saúde em si, os problemas relativos às questões econômicas, com consequente diminuição de renda, desemprego, os quais acabam também influenciando e impactando para que esses indicadores piorem.

Mas o relatório também aponta sucesso. Globalmente, o número de pessoas que adoecem com tuberculose a cada ano (em relação à população) caiu 11% de 2015 a 2020, um pouco mais da metade do caminho para a marca de 20% em 2020. No entanto, a Região Europeia da OMS superou a marca de 2020, com uma redução de 25%. Isto se deu principalmente ao declínio na Federação Russa, onde a incidência caiu 6% ao ano entre 2010 e 2020. A Região Africana da OMS esteve perto de atingir o marco, com uma redução de 19%, o que reflete reduções impressionantes de 4%-10% ao ano na África do Sul e em vários outros países da África Meridional, após um pico na epidemia de HIV e a expansão da prevenção e cuidados com a tuberculose e o HIV.

As metas globais de tuberculose não foram atingidas em 2020 e parecem cada vez mais fora de alcance. Globalmente, a redução no número de mortes por tuberculose entre 2015 e 2020 foi de 9,2% — cerca de um quarto do caminho para a marca de 2020, de 35%. O relatório pede aos países que implementem medidas urgentes para restaurar o acesso aos serviços essenciais de tuberculose. Além disso, pede pela duplicação dos investimentos em pesquisa e inovação em TB, bem como ação concertada em todo o setor de saúde e outros para abordar os determinantes sociais, ambientais e econômicos da doença e suas consequências. Para a Dra. Maciel, se faz necessário e urgente ampliar os esforços para que a tuberculose seja efetivamente uma prioridade do ponto de vista de ter maior aporte financeiro para a melhoria da assistência, bem como a melhoria da proteção social para aquela população que mais precisa.

Sobre a Tuberculose

Aproximadamente 90% das pessoas que adoecem com tuberculose a cada ano vivem em 30 países, entre eles o Brasil. A maioria que desenvolvem a doença são adultos. Em 2020, os homens representaram 56% de todos os casos, as mulheres representaram 33% e as crianças, 11%. Muitos novos casos da doença são atribuídos a cinco fatores de risco: desnutrição, infecção por HIV, transtornos relacionados ao uso de álcool, tabagismo e diabetes. A tuberculose é evitável e curável. Cerca de 85% das pessoas que desenvolvem a doença podem ser tratadas com sucesso com um regime de medicamentos de 6 meses; o tratamento tem o benefício adicional de reduzir a transmissão progressiva da infecção.