Mortes por Ebola na Guiné acende alerta

Publicação: 9 de março de 2021

Para evitar a disseminação da doença, o ministério da Saúde local declarou oficialmente uma epidemia de Ebola no sudeste do país

A cidade de N’Zerekore foi a primeira a ter um surto da doença em meados de 2013. Na ocasião, os casos se espalharam rapidamente para outros países, como Libéria e Serra Leoa

O governo da Guiné confirmou em meados de fevereiro a existência de uma epidemia de Ebola no sudeste do país. Os primeiros casos foram registrados após um velório, na subprefeitura de Gouecke, de uma enfermeira que faleceu no fim de janeiro em N’Zerekore. Esta é a primeira vez que a doença reaparece desde o pior surto de Ebola no mundo, registrado na África Ocidental entre 2013 e 2016. A proximidade às movimentadas fronteiras dificultou os esforços para conter o vírus. No total, a doença matou pelo menos 11.300 pessoas, sendo a maior parte dos casos identificados na Guiné, na Libéria e em Sierra Leoa.

Em novembro, a República Democrática do Congo (RDC) anunciou o fim de uma epidemia de seis meses, que totalizou 130 casos e matou 55 pessoas. A diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a África, Matshidiso Moeti, informou que os casos registrados na Guiné e na República Democrática do Congo têm origens diferentes. A OMS acompanha com atenção os novos casos de Ebola desde 2016, para evitar um novo surto da doença. Recentemente, a República Democrática do Congo (RDC) foi considerada em estado de emergência.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), entrevistou o Richard Reithinger, vice-presidente de saúde global na RTI International, um instituto sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento global.

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: O senhor poderia nos contar sobre a situação atual do Ebola na Guiné?

Dr. Richard Reithinger: Em 14, de fevereiro de 2021, o Ministério da Saúde da Guiné informou à Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre um conjunto de 7 casos de doença pelo vírus Ebola no município (subprefeitura) de Gouécké, localizado na região de Nzérékoré no parte sul/sudeste da Guiné. Os casos apresentaram sintomas de diarreia, vômitos e sangramento após comparecer ao enterro de um parente. O primeiro caso (“índice”) foi de uma enfermeira de 51 anos, que se apresentou no centro de saúde em Gouécké em 18 de janeiro de 2021, e que foi inicialmente diagnosticada com febre tifóide e malária, falecendo 10 dias depois. Análises laboratoriais estão em andamento para identificar as espécies do vírus Ebola e, em 15 de fevereiro de 2021, cerca de 200 contatos – pessoas que provavelmente foram expostas – foram identificados.

Após a declaração do surto de Ebola, o Ministério da Saúde guineense convocou uma reunião de crise, e o Ministério da Saúde, a OMS e os parceiros da Rede Global de Alerta e Resposta a Surtos iniciaram medidas para controlar e prevenir a propagação do surto. Equipes multidisciplinares foram implantadas para buscar ativamente e fornecer atendimento aos casos, rastrear e acompanhar contatos e sensibilizar os profissionais de saúde e as comunidades sobre a prevenção e controle de infecções.

Além disso, a OMS coordenou o embarque de 11.000 mil doses da vacina contra o Ebola, que chegaram recentemente à Guiné. As vacinas serão administradas aos profissionais de saúde da linha de frente e outras pessoas com maior risco de terem sido ou ficarem expostas. Os fundos estão sendo mobilizados para uma resposta concertada na Guiné e garantir que o surto seja contido de forma rápida e eficaz.

Dado que Nzérékoré é a segunda maior cidade da Guiné e um importante centro de transporte para outras partes da Guiné, bem como para as vizinhas Libéria e Costa do Marfim, existe uma grande preocupação com a exportação de casos de Ebola da Guiné para os países vizinhos. Neste momento, nenhum dos contatos do caso índice teria viajado para países vizinhos.

SBMT: Novo surto de Ebola cria desafios sem paralelo durante uma pandemia. Quais o senhor destacaria?

Dr. Richard Reithinger: Os sistemas de saúde da Guiné são frágeis e certamente a pandemia colocou um estressor adicional nesses sistemas. No entanto, em comparação com países como os Estados Unidos ou Brasil, o número de casos de COVID-19 na Guiné tem sido limitado, com aproximadamente 15.000 casos e menos de 100 mortes relatadas. Embora haja preocupações com relação às capacidades de diagnóstico do COVID-19 e, portanto, subnotificação, a carga menor é provavelmente devido a outros fatores, como idade (quase metade da população da Guiné tem menos de 15 anos de idade), bem como a melhora da capacidade do sistema de saúde para gerenciar ameaças de pandemia emergentes, como COVID-19 após os investimentos substanciais que foram feitos durante o surto de Ebola de 2013–2016.

Uma preocupação desse novo surto de Ebola é que – assim como em 2013–2016 e particularmente se se espalhar para outras regiões do país – terá impacto na prestação de serviços de saúde de rotina se as pessoas perceberem que não é seguro frequentar as unidades de saúde. Os serviços afetados podem variar de imunizações infantis à prestação de serviços de cuidados pré-natais e ao diagnóstico e tratamento de doenças transmissíveis, como a malária, que – se afetadas – podem agravar o número de vítimas dessas doenças/condições.

SBMT: Como lidar com a falta de financiamento, a falta de recursos humanos, a falta de um sistema de vigilância forte e robusto para detectar, isolar, testar e tratar novos casos suspeitos para prevenir uma maior disseminação do vírus?

Dr. Richard Reithinger: É verdade que os sistemas de saúde da Guiné e dos países vizinhos são frágeis. No entanto, o surto de Ebola de 2013–2016 levou a investimentos substanciais nos sistemas de saúde dos países, particularmente em vigilância e resposta a surtos. Na verdade, pode-se provavelmente dizer que a baixa carga de COVID-19 na Guiné, Libéria e Serra Leoa pode ser atribuída a este investimento. Além disso, a população tem a experiência de ter passado pelo surto anterior e está bem ciente dos perigos que esse novo surto representa. Ao contrário de 2013, o surto foi notificado cedo e uma resposta foi mobilizada rapidamente.

Por último, uma mudança significativa em comparação com 2013 é claro, é a disponibilidade de uma vacina, o que deve permitir ao Ministério da Saúde guineense conter o surto de forma rápida e eficaz.

SBMT: A epidemia de Ebola pode ser ainda mais complicada pelo coronavírus e outras crises humanitárias na África. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Dr. Richard Reithinger: Se contido de forma rápida e eficaz, este novo surto de Ebola não deve causar muitos transtornos ao sistema de saúde da Guiné e da África Ocidental ou ao espectro socioeconômico mais amplo. As prioridades de saúde da Guiné e da África Ocidental – variando de doenças evitáveis por vacinas; malária; tuberculose; ao planejamento familiar; saúde materna e reprodutiva; e nutrição – são muito maiores do que o Ebola. Esses serviços precisam de um investimento substancial contínuo para que esses países prosperem.

Um problema maior é garantir que as vacinas COVID-19 estejam disponíveis para países de baixa renda, como a Guiné, para que a pandemia possa ser efetivamente contida e que a ruptura socioeconômica que a pandemia tenha causado possa ser interrompida.

SBMT: O senhor acredita que um dia será possível quebrar todas as cadeias de transmissão do vírus Ebola?

Dr. Richard Reithinger: O vírus Ebola é transmitido principalmente pelo contato de pessoa para pessoa com fluidos corporais infectados e cadáveres e causa doença sistêmica aguda e severa com alta mortalidade. Embora possa ter potencial epidêmico substancial, como mostrado pelo surto da África Ocidental de 2013 não se pode esquecer que a doença do vírus Ebola tem uma origem zoonótica, ou seja, a fonte do surto na população humana é devido a um evento de transbordamento de um reservatório de animais, como morcegos e carne de caça.

Por exemplo, no Brasil, você tem doença de Chagas e leishmaniose visceral (calazar), ambas com reservatórios de animais domésticos e silvestres. Romper todas as cadeias de transmissão de tais doenças zoonóticas significaria evitar eventos de transbordamento ou circulação do vírus no reservatório animal – o que é impossível.

SBMT: O senhor gostaria de acrescentar algo que considera importante?

Dr. Richard Reithinger: Mesmo em meio ao surto de Ebola, é importante continuar a financiar e fornecer serviços para tratar de doenças e questões relacionadas ao HIV, tuberculose, malária, saúde reprodutiva e saúde materno-infantil. As autoridades de saúde na Guiné também devem continuar os esforços em andamento para conter a propagação da pandemia de COVID-19. Dada a resposta rápida e as ações já tomadas, o novo surto de Ebola não deve causar muitos transtornos ao sistema de saúde da Guiné e da África Ocidental ou ao espectro socioeconômico mais amplo.