Melhor vacina é aquela segura e eficaz

Publicação: 5 de fevereiro de 2021

Nenhum país vai conseguir vacinar sua população escolhendo uma única vacina

SBMT

Brasil perde brilho e trilho ao ficar para trás na corrida por vacinas, deixando o povo a espera de uma luz no fim do túnel

Enquanto parte do mundo coloca em prática campanhas de vacinação contra a COVID-19, o Brasil, que já foi referência mundial em produção de vacinas e ao longo dos anos se destacou internacionalmente com o Programa Nacional de Imunizações (PNI) no que tange à política pública de saúde, vive um imbróglio em torno de qual campanha ou qual imunizante deverá ser utilizado. O Brasil, que já erradicou, por meio da vacinação, doenças de alcance mundial como a varíola e a poliomielite (paralisia infantil), perde brilho e trilho ao ficar para trás na corrida por vacinas, deixando o povo a espera de uma luz no fim do túnel.

Enquanto países vizinhos, como Argentina e Chile, anunciaram o início da vacinação contra a COVID-19, o Brasil vive a incerteza da previsão de uma data para a campanha de imunização. Para a Dra. Marta Heloísa Lopes, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), isso reflete pelo menos a fragilidade da política nacional de combate à COVID-19. Ainda segundo ela, o desempenho das autoridades políticas brasileiras em relação à pandemia e as sucessivas mudanças no Ministério da Saúde contribuíram para o retardo da adoção de medidas efetivas para o seu combate, entre as quais a imunização. Em sua opinião, o governo federal deveria ter se antecipado nas negociações para aquisição de vacinas, de diferentes plataformas, formuladas por diferentes empresas produtoras. “A criação de um plano de imunização é competência do PNI, cuja equipe técnica, mesmo contando com relativamente poucos colaboradores, vem formulando excelentes programas nacionais de imunização nos últimos anos. Já a aquisição das vacinas contra Covid-19 para que o plano de imunização seja efetivado cabe ao governo federal, orientado pela equipe técnica do PNI”, acrescenta.

Questionada se o PNI, especificamente no caso da COVID-19, perdeu protagonismo, a Dra. Lopes lembra que o Programa tem em seu quadro técnicos de grande experiência e competência, responsáveis por ações de sucesso em anos anteriores, respaldadas pelo Ministério da Saúde. “São técnicos, que necessitam de apoio político. Em período de grave crise na saúde pública mundial, decorrente da pandemia, o Ministério da Saúde enfrentou situações de instabilidade, com ministro interino por tempo relativamente longo, além das trocas de ministro. Esta situação afeta o desempenho de seus programas. Recentemente sociedades médicas e profissionais da saúde assinaram um documento de apoio ao PNI, enfatizando sua importância e sua interação com instâncias estaduais e municipais para garantir equidade de acesso à vacinação Covid-19 em todo o território nacional”, aponta a professora.

E as vacinas, será que serão aprovadas para uso emergencial no Brasil? A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Dra. Isabella Ballalai, está confiante que sim, no entanto, segundo ela, para que isso ocorra alguns pontos que estão em discussão precisam ser revistos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de forma a facilitar, pelo menos para as vacinas que já estão em uso, em larga em escala, em outros países. “Já temos milhões de pessoas que usaram algumas das vacinas e a expectativa é que a Anvisa encontre uma forma de dar celeridade ao processo de liberação para uso emergencial neste momento de crise global. Esperamos que os critérios para aprovação dessas vacinas encontrem uma maneira mais simples e mais rápida para o licenciamento”, diz.

Em relação a melhor vacina para o Brasil, a Dra. Ballalai é categórica ao afirmar que todas as vacinas que se mostrarem seguras e eficazes para a população são bem-vindas e precisam ser bem recebidas pelo país. Segundo ela, nenhum país vai conseguir vacinar sua população escolhendo uma vacina. “O Brasil, por exemplo, tem uma população de mais de 210 milhões de pessoas e não podemos nos dar o luxo de contar com um único fabricante e muito menos de escolher a vacina”, justifica ao frisar que a melhor vacina é aquela segura e eficaz e todas só estarão disponíveis se apresentarem essas condições.

A Dra. Lopes concorda. “As melhores vacinas são aquelas cujos estudos de eficácia e segurança mostrarem resultados razoáveis. É provável que em um país da dimensão do Brasil possa ser necessário utilizar simultaneamente vacinas de plataformas diferentes, produzidas por laboratórios diferentes”, ressalta. Ainda de acordo com ela, uma campanha de imunização cuidadosamente elaborada e bem conduzida pode tirar vantagens dessa situação: a) distribuindo vacinas de acordo com as condições do local, por exemplo, utilizando vacinas que requeiram condições de armazenamento a baixas temperaturas, em centros que tenham condições para tal, e vacinas que possam ser armazenadas entre 2 e 8 graus Celsius em locais mais remotos, sem infraestrutura para armazenamento a baixas temperaturas; b) comparando resultados de diferentes vacinas aplicadas em diferentes regiões; c) investigando o uso sequencial de vacinas diferentes, por exemplo, fazendo a primeira dose com um produto e uma segunda dose com outro. Tudo isso, se bem planejado, poderia ampliar a oferta de vacinas e permitir que os conhecimentos adquiridos fossem aplicados também em outros países.

A vacinação é uma das estratégias de política pública mais eficazes para a prevenção de infecções e epidemias. Os séculos passaram e infelizmente o Brasil está entre os países em que uma parcela da população não confia na eficácia e ainda teme as vacinas. As teorias são praticamente as mesmas, que as vacinas têm efeito contrário, mesmo com números mostrando o oposto. A guerra de narrativas e de desinformação afeta o trabalho de cientistas e profissionais da área de saúde.

Sobre a Coronavac, que tem gerado desconfiança de que algo está errado, a Dra. Ballalai a vê como uma boa vacina, promissora como todas as outras, mas que está envolta em uma disputa política que gera dúvidas e mitos na população em geral. Ela explica que a China já usa e já aplicou milhões de doses – passou a vacinar sua população antes mesmo do licenciamento – sem que houvesse nenhum relato de evento adverso grave em relação a ela até o momento. “Entendo que o Brasil não fará isso nesse momento e que publicação dos dados de fase 3 são muito importantes para que a Coronavac seja uma realidade para o nosso País”, ressalta. Sobre o atraso da AstraZeneca para revisão de dados, a Dra. Ballalai não vê com preocupação e nem que signifique um grande atraso. Essa é uma boa notícia, já que essa é a principal aposta do Brasil – maior número de doses em relação aos outros fabricantes. “Mas o que chama a atenção é a desistência da Pfizer diante do licenciamento emergencial por considerar que as exigências da Anvisa tornaria mais fácil o licenciamento final”, observa a vice-presidente da SBIm.

Questionada sobre o processo de vacinação, que será longo e desigual pela falta de recursos para o acesso às doses e à infraestrutura necessária à manutenção e à distribuição, a Dra. Ballalai lembra que o PNI tem grande experiência em campanhas e o processo de vacinação não precisa ser tão longo. Segundo ela, tudo vai depender dos insumos e das vacinas que teremos para que o PNI redefina as fases que já apresentou. O público-alvo não vai mudar, o que pode ser alterado são algumas estratégias de distribuição de diferentes vacinas, para diferentes regiões, considerando cadeia de frio, acesso, curva epidemiológica, são alguns fatores que talvez sejam necessários caso não tenhamos as 100 milhões de doses da AstraZeneca, desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Vale lembrar que a pandemia inverteu os processos de compra de vacina, que geralmente chegavam nas redes privadas e depois eram disponibilizadas no Sistema Único de Saúde (SUS). Desta vez, será o contrário, já que os acordos estão sendo realizados entre empresas e governos.