Sarampo: Brasil corre o risco de ter o retorno com força, caso crianças e adultos não sejam imunizados

Publicação: 14 de agosto de 2018

Até 07 de agosto, foram confirmados 1.100 casos da doença, 97% deles em Roraima e Amazonas, onde a situação é de surto. Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rondônia, Pará, Amazonas e Roraima também registram casos da doença

Casos se multiplicam desde fevereiro. De acordo com informações do Ministério da Saúde, os surtos, relacionados à importação, foram comprovados pelo genótipo do vírus (D8), mesmo que circula na Venezuela

Após dois anos da erradicação do sarampo, o vírus voltou a afetar o País. De acordo com análises da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o vírus que circula no Norte do Brasil coincide com o que afeta a Venezuela, país que enfrenta desde julho de 2017 um surto da doença, sendo a maioria dos casos provenientes do estado de Bolívar. A atual situação sociopolítica econômica enfrentada ocasiona um intenso movimento migratório que contribuiu para a propagação do vírus a outras áreas geográficas.

Este ano no Brasil, foram registrados mais de 1.069 casos somente nos estados do Amazonas (AM) e de Roraima (RR). De acordo com a última atualização divulgada pelo Ministério da Saúde, até o dia 07 de agosto, 788 casos de sarampo foram confirmados no AM e 5.058 permanecem em investigação. Já o estado de Roraima confirmou 281 casos da doença e 111 continuam em investigação. Além destes dois estados, alguns casos isolados e relacionados à importação foram identificados nos estados de São Paulo (1), Rio de Janeiro (14); Rio Grande do Sul (13); Rondônia (1) e Pará (2). Segundo informações da Pasta, o Brasil tem cinco mortes confirmadas e o estado do Amazonas é o líder em casos.

A médica infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Dra. Marília Santini de Oliveira atribui a volta de doenças já erradicadas pela vacinação, como o sarampo, à queda na cobertura vacinal. Para ela, o controle do surto depende da eficiência da resposta à doença, que envolve vários fatores, incluindo capacitação das equipes de saúde para diagnóstico e notificação dos casos rapidamente, vacinação de bloqueio, além de disponibilidade, acesso e aceitação da vacina.

“A eficácia e a segurança da vacina, que foram os argumentos para acabar com o sarampo no passado, continuam altas, assim como seu impacto no controle da doença, entretanto, a continuidade da circulação do vírus em algumas regiões do mundo exige cobertura vacinal adequada para que novos casos e surtos não ocorram. O que mudou nessa equação foi a diminuição da cobertura vacinal”, destaca.

Com relação à expertise brasileira no controle do sarampo, a infectologista ressalta que o conhecimento sobre prevenção, detecção e controle da doença é de domínio dos gestores responsáveis por essas ações. Ela lembra que esse conhecimento foi adquirido em nossa região durante os 22 anos que se levou até a obtenção do certificado de eliminação da doença nos Américas, conferido pela Organização Mundial da Saúde, em 2016. “Sabemos o que fazer, talvez tenhamos que desenvolver novas formas de como fazer, adaptando serviços de saúde, capacitação profissional e formas de comunicação com a população que acompanhem as tecnologias em constante e rápido desenvolvimento e disseminação”, aponta.

Motivos que diminuem cada vez mais a eficácia das campanhas de vacinação no Brasil

A reemergência de doenças imunopreviníveis previamente controladas, como é o caso do sarampo, na opinião da infectologista, é resultado de aumento da população susceptível, geralmente por diminuição da cobertura vacinal. Os fatores que levam a essa queda, porém, não são tão simples de se determinar e provavelmente são múltiplos. A Dra. Santini explica que algumas dessas razões podem estar relacionadas ao sistema de saúde, como por exemplo, localização e horários de funcionamento dos postos de saúde, dificultando o acesso aos pais que trabalham. Outras ligadas à aceitação da vacina pela população. “A diminuição do número de casos nos últimos 20 anos faz com que a maioria dos adultos nunca tenha visto pessoas com sarampo e não acreditem na necessidade de vacinar suas crianças”, observa.

A especialista reconhece que para entender os reais fatores envolvidos na queda do número de pessoas vacinadas no País é necessário um estudo incluindo grande número de entrevistados, representando as diferentes características sócio-demográficas brasileiras. “Enquanto pesquisas sobre o tema não forem realizadas não é possível afirmar com certeza as causas, apesar de se poder instituir práticas visando a melhora da situação com base nos fatores cogitados”, acrescenta.

Sarampo atinge indígenas Yanomami

A epidemia de sarampo atingiu também indígenas Yanomami, tanto no Brasil quanto na Venezuela. Até o dia 13 de julho, 67 casos da doença foram confirmados somente entre indígenas da região, segundo o Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena Yanomami e Iekuana (Dsei-Y). De acordo com Rousicler de Jesus Oliveira, coordenador do Dsei-Y, o avanço no número de casos é preocupante e está diretamente relacionado à baixa vacinação entre os indígenas venezuelanos. Há relatos de que muitos caminham por dias para cruzar a fronteira e buscar atendimento médico no Brasil.

Já o coordenador da Hutukara, Davi Kopenawa Yanomami, afirmou que 14 indígenas já morreram na região de fronteira em decorrência da doença. Mas, segundo informações do Ministério da Saúde, até o dia 11 de junho, foram confirmados apenas dois casos em indígenas brasileiros e 24 em indígenas da Venezuela.

A Dra. Santini assinala que a forma de controlar a doença e evitar surtos de grandes proporções é a vacinação de bloqueio (feita nos contrastantes de casos de sarampo) e a cobertura vacinal adequada da população geral. “Se não conseguirmos fazer isso pode se esperar que o número de casos aumente”, lamenta.

Mais de 2 mil casos de sarampo são registrados nas Américas

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o Brasil é segundo país com mais episódios da doença, atrás apenas da Venezuela.

A Dra. Santini reitera a importância da imunização, uma vez que é praticamente certo que todas as pessoas não imunizadas que entrem em contato com o patógeno serão infectadas, já que o vírus possui alta competência de infecção, pela facilidade de transmissão (via respiratória) e alta taxa de infecciosidade. A Campanha de vacinação começou no dia 6 de agosto, em todo o País. A vacinação é a principal e a melhor forma para se proteger contra a doença. A imunização pode ser feita em qualquer idade.