Malária: estudo revela redução drástica de casos graves e de mortes entre crianças africanas

Publicação: 8 de outubro de 2021

Combinação de vacina e remédio reduziu em 70% as mortes por malária em ensaio clínico

Para o estudo, duplo-cego, randomizado e controlado, foram recrutadas quase 6 mil crianças entre 5 e 17 meses em Burkina Faso e Mali, dois países com alta carga de malária

Um ensaio randomizado descobriu que a vacinação sazonal e a combinação de medicamentos preventivos reduzem as hospitalizações e as mortes de crianças por malária em aproximadamente 70%. Os resultados do ensaio clínico de fase 3 foram publicados no New England Journal of Medicine. Intitulado Seasonal Malaria Vaccination with or without Seasonal Malaria Chemoprevention, o estudo acompanhou quase 6 mil crianças entre 5 e 17 meses em Burkina Faso e Mali – dois países com carga muito alta da doença –, e onde a quimioprofilaxia sazonal é o esquema terapêutico vigente.

Coordenado por pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM) em parceria com Institut de Recherche en Sciences de la Santé (Burkina Faso); Malaria Research and Training Center (Mali) e Universidade de Ciência, Tecnologia e Técnicas de Bamako (Mali), o estudo que envolveu a primeira vacina (RTS,S/AS01) contra malária do mundo descobriu que a administração associada, em vez de isolada, da vacina e do medicamento antimalárico antes da estação das chuvas poderia reduzir substancialmente os casos com risco de vida no Sahel (grande faixa Subsaariana que cruza a África), região em que o aumento da transmissão da malária é sazonal. Após três anos, a combinação de administração sazonal de antimaláricos, conhecida como quimioprevenção sazonal da malária (SMC) e vacinação diminuiu os episódios clínicos, as internações hospitalares com malária grave definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), bem como as mortes provocadas pela doença. A SMC é a abordagem usada atualmente em Burkina Faso e Mali. “Esta é a primeira vez que uma combinação de quimioprevenção e vacinação demonstrou ser sinérgica na redução da incidência de malária não complicada e grave”, destaca o professor da LSHTM e membro da equipe de pesquisa e Dr. Daniel Chandramohan.

Para este estudo duplo-cego, randomizado e controlado, as crianças foram divididas em três grupos de intervenção, sendo que um deles recebeu a vacina RTS,S / AS01E sozinha; outro recebeu a quimioprevenção sazonal da malária sozinha, e o terceiro grupo recebeu uma combinação de vacina e SMC. Com isso, a equipe descobriu que uma combinação da vacina RTS,S / AS01E e SMC foi mais eficaz do que a vacina ou a SMC sozinha. A associação com a vacina reduziu a incidência de casos de infecção em 62%, de malária grave em 70% e de morte pela doença em 73%.

O Dr. Chandramohan explica que as crianças receberam três doses da vacina antes da estação de transmissão da malária no primeiro ano e, em seguida, uma dose de reforço antes da estação das chuvas nos anos subsequentes. Questionado se houve alguma evidência de que a eficácia da intervenção combinada contra a malária clínica foi maior nos poucos meses após a série primária de vacinações do que após as doses de reforço, o Dr. Chandramohan confirma e diz que o efeito após as doses primárias da vacina foi maior do que as doses de reforço no ano 2 e no ano 3. “No entanto, o efeito da combinação da vacina e quimioprevenção foi significativamente maior do que a SMC isolada. Estamos acompanhando as crianças do estudo para avaliar o efeito das doses de reforço 3 e 4. Os resultados estarão disponíveis em 2022”, acrescenta.

Para o pesquisador, esta combinação, com resultados surpreendentes, tem o potencial de prevenir a malária em grandes partes da África, onde os casos permanecem altos e onde a doença é transmitida sazonalmente. “a vacinação sazonal com quimioprevenção sazonal será uma nova abordagem para reduzir o fardo da malária nas áreas de transmissão sazonal”, ressalta. Ainda segundo o o Dr. Chandramohan, se a resistência aos medicamentos usados atualmente para SMC aumentar, a vacinação sazonal com RTS,S / AS01 pode ser uma solução potencial. “Se a resistência a Sulfadoxina-pirimetamina + amodiaquina (SP + AQ) se tornar alta e se não houver uma combinação alternativa de medicamentos, a vacinação sazonal por si só é uma opção”, aponta.

A quimioprevenção sazonal com a vacina tem um impacto positivo ao reduzir o efeito da doença nas crianças. Entretanto, as atividades de prevenção devem ser uma prioridade para o apoio internacional. “Esperançosamente, a reunião do Grupo Assessor Estratégico de Expertos (SAGE, na sigla em inglês) da OMS / Grupo Consultivo de Políticas de Malária (MPAG, na sigla em inglês) em outubro recomendará o aumento da vacinação contra a malária e possivelmente a combinação de quimioprevenção associada à vacinação sazonal”, comemora.

Por fim, o professor detalha que está sendo avaliada a possibilidade de malária “rebote ou retardada” em sua coorte de estudo. Também estão modelando e planejando realizar estudos para avaliar diferentes abordagens para fornecer a combinação de vacinação sazonal e quimioprevenção. Ambas as intervenções podem ser entregues no modo de Programa Expandido de Imunização (EPI) ou em campanhas ou uma combinação dessas duas abordagens. Além disso, um estudo de custo-benefício está em andamento para estimar quantos dólares foram gastos por criança/ ano. “Ainda não sabemos o preço exato da vacina por dose, mas teremos ideia em alguns meses”, enfatiza.

Uma solução econômica

De acordo com o estudo Effectiveness of seasonal malaria chemoprevention at scale in west and central Africa: an observational study, o tratamento com a SMC foi associado a uma eficácia protetora de 88,2%, com custo econômico médio de US $ 3.63 por criança/ano. O estudo intitulado Cost-effectiveness of district-wide seasonal malaria chemoprevention when implemented through routine malaria control programme in Kita, Mali using fixed point distribution ratifica a informação.

Sobre a malária

Doença febril aguda, a malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada do mosquito Anopheles sp, popularmente conhecido como mosquito-prego. A doença, que provoca uma série de sintomas, incluindo dores de cabeça, mal-estar, problemas gastrointestinais, dores nas costas, tosse e problemas neurológicos, desde tonturas e convulsões e até coma, está presente em 87 países. Em 2019, foram 229 milhões de pessoas infectadas no mundo, e 409 mil mortes. Crianças com menos de 5 anos na África Subsaariana representam aproximadamente dois terços desses óbitos. Em 2000, foram reportados 238 milhões de infecções. Para saber mais, clique aqui. Há cinco espécies de parasitas que causam malária e duas dessas – P. falciparum e P. vivax – são as maiores ameaças.

Sobre a vacina

RTS,S / AS01 (nome comercial Mosquirix) é uma vacina recombinante à base de proteína. Aprovada para uso pelos reguladores europeus em julho de 2015, é a primeira vacina licenciada contra malária do mundo e também a primeira licenciada para uso contra qualquer doença parasitária humana de qualquer tipo. A RTS,S / AS01 foi concebida e criada no final dos anos 80 por cientistas que trabalhavam nos laboratórios SmithKline Beecham Biologicals (hoje GlaxoSmithKline Vaccines) na Bélgica. Ela foi desenvolvida através de uma colaboração entre a GSK e o Instituto de Pesquisa do Exército Walter Reed e foi financiada em parte pela Iniciativa de Vacinas contra a Malária PATH e pela Fundação Bill e Melinda Gates. Sua eficácia varia de 26 a 50% em bebês e crianças pequenas. Em 23 de outubro de 2015, o Grupo Consultivo Estratégico da OMS para a Imunização (SAGE) e o Comitê Consultivo para Políticas da Malária (MPAC) recomendaram em conjunto uma implementação piloto da vacina na África. Este projeto-piloto de vacinação foi lançado em 23 de abril de 2019 no Malawi, em 30 de abril de 2019 no Gana e em 13 de setembro de 2019 no Quênia.