Maior risco de complicações cardíacas por Covid-19 do que vacinas, reafirma estudo

Publicação: 9 de fevereiro de 2022

Infecções causadas pela Covid-19 são mais propensas a desencadear complicações cardiovasculares raras, como inflamação do coração e batimentos cardíacos irregulares do que vacinas

Estudo comparou os riscos de miocardite, pericardite e arritmia cardíaca após primeira e segunda dose das vacinas AstraZeneca-Oxford, Pfizer-BioNTech e Moderna com infecções pelo coronavírus

Artigo publicado recentemente na revista científica Nature intitulado Risks of myocarditis, pericarditis, and cardiac arrhythmias associated with COVID-19 vaccination or SARS-CoV-2 infection reafirma o que já é bem entendido com outras vacinas: os benefícios superam os eventos adversos. O trabalho da Dra. Martina Patone e colaboradores informa de maneira clara e criteriosa que a vacinação para SARS-CoV-2 em adultos foi associada a um pequeno aumento no risco de miocardite dentro de uma semana após o recebimento da primeira dose da vacina de ambas as vacinas de adenovírus e mRNA, e após a segunda dose de ambas as vacinas de mRNA. Por outro lado, a infecção pelo SARS-CoV-2 foi associada a um aumento substancial no risco de hospitalização ou morte por miocardite, pericardite e arritmia.

Para o estudo, os cientistas analisaram dados de cerca de 38 milhões de pessoas vacinadas. As conclusões foram obtidas avaliando as taxas de hospitalização ou morte pelas condições dentro de 28 dias após a vacinação ou um teste PCR positivo para indivíduos com 16 anos ou mais e vacinados entre 1º de dezembro de 2020 e 24 de agosto de 2021. Os pesquisadores estimam um a 10 eventos extras de miocardite em um milhão de pessoas vacinadas com uma primeira ou segunda dose e 40 casos extras em um milhão de pessoas infectadas com a Covid-19.

A Dra. Dorcas Lamounier Costa, médica pediatra e professora titular da área de Pediatria da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ressalta que mesmo sabendo que os riscos de complicações neurológicas e cardíacas após as primeiras doses das vacinas são raros, os médicos devem estar cientes desses eventos adversos indesejados, e informar adequadamente a população, sem contudo, alimentar o pânico vacinal que temos visto no País. Ainda de acordo com a epidemiologista, este estudo exemplifica o papel da ciência quando as dúvidas aparecem. Para ela, o grupo, baseado em adequada metodologia e cuidadosa análise dos dados, trouxe importantes informações, sem vícios de interpretações ideológicas, que contribuem para a desmistificação da doença pós-vacinal. “Infelizmente houve muita propaganda contrária à vacinação e isto trouxe ceticismo e dúvidas para a população. Poucos avanços da medicina tiveram um impacto tão grande na vida das pessoas quanto as vacinas. Dezenas destes produtos são disponibilizados a milhões de pessoas de todas as idades em todos os lugares do mundo e o resultado é sempre a melhoria da qualidade de vida, o aumento da expectativa de vida”, destaca a Dra. Costa.

Ainda segundo a pesquisadora, as vacinas são, sem dúvidas, uma das mais bem-sucedidas medidas de saúde pública para prevenir doenças, salvar vidas e reduzir sequelas. “Doenças que já foram muito comuns tornaram-se raras no mundo pós-vacinal. Centenas de milhões de vidas foram salvas às custas delas, que são o investimento mais rentável que a humanidade conhece”, assinala ao atentar que, se por um lado, as vacinas podem aumentar a expectativa de vida, reduzir a chance de sequelas, erradicar certas doenças, trazer benefícios sociais e econômicos, por outro lado, podem provocar eventos adversos. “Contudo, os riscos de complicações graves causadas por elas são muito menores que os das doenças que elas protegem”, acrescenta. A Dra. Costa enfatiza que é preciso ter imensa cautela ao contraindicar as vacinações em virtude do risco da ocorrência de eventos adversos, pois as pessoas não imunizadas correm maiores riscos de adoecer e apresentar as mesmas temidas complicações, em maior incidência, além de contribuírem para a disseminação da doença na comunidade.

Outro estudo publicado pelo mesmo grupo de pesquisadores já havia identificado e quantificado vários eventos adversos neurológicos raros que são específicos para as vacinas ChAdOx1nCoV-19 e BNT162b2, bem como pela infecção por SARS-CoV-2, mas também concluiu que os riscos de eventos neurológicos adversos após a infecção por SARS-CoV-2 são muito maiores do que aqueles associados às vacinas, destacando os benefícios dos programas de vacinação em andamento.

Risco/benefício da vacina é altamente favorável, evidencia documento

O boletim epidemiológico do Ministério da Saúde sobre o novo coronavírus, divulgado em novembro de 2021, mostra que foram identificados 90 casos de efeitos adversos com alguma menção a miocardite ou pericardite. Dentre esses casos, foram registrados sete óbitos. Nenhuma dessas mortes, no entanto, foi comprovadamente causada por miocardite decorrente da vacina. Em setembro, o Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis (DEIDT) da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, publicou uma nota técnica sobre os casos e evidenciou que o risco/benefício da vacina é altamente favorável. De acordo com o documento, os episódios de miocardite/pericardite, com provável associação à vacina ocorreram de forma leve e com boa evolução clínica.

Mesmo diante de todas essas informações, ainda há receio por parte dos pais em imunizar os seus filhos. Segundo a Dra. Costa, o clima de desconfiança sobre os benefícios das vacinas, e a ansiedade associada aos eventos adversos têm contribuído para que grupos mal-informados ou mal-intencionados ganhem espaço em uma campanha desumanitária antivacina. “Vivemos um momento de desordem de informação sem igual em nossa história: a falta de informação, a informação falsa e a informação maliciosa. As duas primeiras são as mais frequentes e podem ser combatidas com a boa informação, seja ela formal, transmitida por cientistas, profissionais de saúde, seja informal, transmitida pela população leiga bem informada, que acredita nas imunizações”, pontua.

A pediatra chama a atenção para a importância de disseminar informações verdadeiras para que as pessoas, de posse deste conhecimento, possam fazer boas escolhas (escolher vacinar, neste caso). “Os grupos antivacina, algozes da informação maliciosa, tão aclamada na mídia como fake news, devem ser combatidos pela justiça. Não entendo os grupos antivacina, porque eles não se apoiam em nenhuma informação. São diferentes das pessoas que não conhecem os benefícios das vacinas e por isto não levam seus filhos para recebê-las. Estes podem receber a informação correta e mudar de opinião. São diferentes também das pessoas que receberam informação falsa, e repassam a informação falsa sem a intenção de causar prejuízo. Estes também podem mudar sua opinião, se a informação adequada lhes for dada. Os grupos antivacina disseminam informações falsas, criadas deliberadamente para prejudicar uma pessoa, grupo social, organização ou país. Não consigo entender porque alguém faz isso”, diz a Dra. Costa, indignada.

Questionada sobre como contra-argumentar, a pesquisadora reforça que é preciso boa informação. “É isto que estamos fazendo aqui. Falar com clareza e honestidade sobre os benefícios (enormes) e os riscos das vacinas (raros). Vamos publicar quantas vidas foram salvas, quantas sequelas foram evitadas com as vacinas. Não vamos deixar que esta informação preciosa seja obscurecida pelo relato de raras complicações pós-vacinais. Para quem dissemina informação maliciosa não há contra-argumento, mas precisa haver justiça”, avalia. Como médica infectologista, epidemiologista, pediatra, pesquisadora, professora, mãe e avó, a Dra. Costa é categórica ao reverberar que toda criança tem o direito de ser vacinada e para isto, pais e responsáveis precisam ser conscientizados sobre os grandes benefícios e os raros adventos adversos. “As crianças vacinadas estarão mais protegidas contra a doença grave e letal, contribuirão para quebrar a cadeia de transmissão do SarsCov2 e estarão em muito menor riso de complicações do que se contraírem a doença natural. Vacinem seus filhos quando chegar a hora de cada um. Vacinem, eles merecem!”, clama.