Luiz Hildebrando: um brasileiro

Publicação: 2 de outubro de 2014

Foi utilizando a pedagogia do exemplo que, mais que parasitologia, saúde pública, genética, biologia molecular e imunologia, ele ensinou preciosas lições de vida e de ética para gerações de aprendizes

O chefe da portaria do Instituto Pasteur de Paris examinou cuidadosamente a lista dos pesquisadores que lá trabalhavam e dirigiu-se para mim: – Sinto muito, mas não existe nenhum Professor Luiz Hildebrando na instituição. Fiquei atônito e disse-lhe que o Prof. Luiz Hildebrando Pereira da Silva havia me convidado para passar um tempo em sua Unidade de Parasitologia Experimental no Instituto Pasteur e para isto eu havia vindo do Brasil. – Ah! O senhor procura Monsieur Perrerrá da Silvá? Este trabalha conosco há muitos anos e é figura muito importante aqui! Fui recebido com muito afeto por Luiz Hildebrando, que me cedeu uma escrivaninha igual à sua em seu escritório na Unidade que chefiava e, no fim de minha estada em Paris, brindou-me com um delicioso jantar preparado por ele no apartamento que compartilhava com a esposa e o filho. Meses antes, durante a Reunião Nacional de Pesquisa em Malária que acontecia em Brasília, havia comentado com Luiz Hildebrando sobre minha intenção de instalar na Universidade de Brasília uma unidade para síntese de peptídios candidatos a vacinas antimaláricas. Ele nada comentou. O convite para conhecer sua Unidade no Instituto Pasteur foi sua resposta: lá conheci muitos de seus colaboradores que detinham várias patentes de potenciais vacinas antimaláricas. Foi sua maneira sutil e eficiente de me mostrar que preparar peptídios é relativamente fácil, o difícil é fazê-los funcionar adequadamente como vacinas antimaláricas, algo que até hoje ninguém conseguiu. Desisti de preparar vacinas e me dediquei a tentar entender porque elas não funcionavam.

Assim era Luiz Hildebrando, para quem, mais importante que as palavras eram o fato e o ato. E o maior de todos os atos: o exemplo. Foi utilizando a pedagogia do exemplo que, mais que parasitologia, saúde pública, genética, biologia molecular e imunologia, ele ensinou preciosas lições de vida e de ética para gerações de aprendizes. Foi comovente o exemplo de resistência e integridade que nos deu durante o tempo em que ficou preso e, posteriormente, enxotado do País por duas vezes pela ditadura militar, em 1964 e em 1969, por pensar diferente daqueles que haviam tomado o poder. No exílio em Paris, fez carreira científica e alcançou notoriedade internacional no Instituto Pasteur de Paris, além de atuar como líder dos 800 exilados brasileiros e participante ativo do Comitê Brasileiro de Anistia entre 1974 e 1979. Mostrou, com seu exemplo, que ciência e responsabilidade social se complementam e, apesar de chefiar uma unidade de pesquisa de alta sofisticação em Paris, jamais perdeu o foco na razão maior de seu ofício: ajudar a população mais sofrida e tornar o mundo melhor. Em nome desta coerência, mantinha pesquisas de campo no Senegal, Gabão, Madagascar e Guiana Francesa. Esta preocupação social, calcada na ideologia política a que se manteve fiel por toda a vida, foi decisiva para moldar sua trajetória de vida a partir de 1996, quando se aposentou do Instituto Pasteur. Em mais um ato de coragem e compromisso social, abdicou de viver das glórias acadêmicas merecidamente alcançadas, no conforto da vida em Paris com sua família, e retornou ao Brasil para instalar no seio da área endêmica de malária, o Instituto de Pesquisa em Patologias Tropicais de Rondônia, em Porto Velho, onde passou a viver.

Apesar de sua maneira direta e franca de tratar as pessoas ter sido, algumas vezes, interpretada como sinal de arrogância, Luiz Hildebrando nunca se deixou contaminar pela vaidade e tratava com a mesma consideração as autoridades e os pequeninos de suas áreas de campo. Acumulou, durante sua longa e profícua vida profissional, as mais altas manifestações de reconhecimento: a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, a Comenda da Ordem do Mérito Médico do Ministério da Saúde, era Professor emérito da Universidade Federal de Rondônia e da Universidade de São Paulo, Professor honorário do Instituto Pasteur, Professor convidado da Harvard University, Pesquisador emérito do Ministério de Ciências e Tecnologia, detentor do Prêmio UNESCO, do Prêmio Peter Muraniy, da Medalha UNESCO-Pasteur, o Prêmio Averroes e do Prêmio Conrado Wessel. Todas essas honrarias não impediram de, em uma ocasião em que o visitei em seu Instituto de Pesquisa em Porto Velho, encontrá-lo varrendo o chão do laboratório porque o faxineiro havia faltado.

Luiz Hildebrando foi muitos: o médico sanitarista, o professor, o educador, o cientista, o líder de pesquisa, o idealizador, o inspirador de políticas públicas, o provocador de novas idéias, o filósofo da ciência, o militante político, o escritor, o gourmet, o pianista, mas, acima de tudo, foi um brasileiro que viveu e se manteve fiel a um ideal. Sua morte em 24 de setembro de 2014, aos 86 anos de idade, a partir de uma pneumonia que não pode ser controlada, deixou-nos a todos órfãos de uma figura humana ímpar e grandiosa.

Brasília, 25 de setembro de 2014

Eduardo Tosta

Professor emérito da Faculdade de Medicina

Universidade de Brasília