Leishmaniose visceral: algoz impune e a vítima condenada, diz protetora de animais de Porto Alegre

Publicação: 26 de agosto de 2017

Determinação da justiça do Estado do Rio Grande do Sul proíbe o abate de animais com suspeita de leishmaniose. Entretanto, Secretaria Municipal de Saúde garante que não há a possibilidade de suspender a medida, já que é recomendação de órgãos de saúde humana e veterinária

Este cão resgatado, que estava vagando em Porto Alegre, tinha teste reagente leishmaniose. Foi sacrificado, porque não respondeu mais ao tratamento. Em situações como esta há dilema para os protetores de animais, pois ao mesmo tempo em que são contrários ao abate, perante o sofrimento do animal a decisão de eutanásia se torna inevitável

O processo de urbanização do calazar (a leishmaniose visceral humana) é uma das mais notáveis e intrigantes transformações epidemiológicas já registradas no País. Os motivos ainda são pouco conhecidos, mas as periferias urbanas sem planejamento, com falta de infraestrutura, em condições precárias de saneamento, são alguns dos muitos fatores de risco associados ao fenômeno. Infelizmente, o Brasil ainda aposta no abate de animais para combater a doença. O óbito de uma menina de 1 ano e 7 meses por calazar, registrado na capital gaúcha no final de setembro de 2016 e mais dois outros este ano deixaram o Estado em alerta. Em julho deste ano, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Porto Alegre confirmou o abate em cães com leishmaniose. De acordo com a matéria, a Pasta garantiu que não há a possibilidade de suspender a medida. Argumenta que esta é a decisão dos órgãos responsáveis pela saúde humana e animal, uma vez que é improvável a erradicação da infecção pelo agente causal, o protozoário L. infantum.

Entretanto, uma determinação da justiça gaúcha acabou por proibir o sacrifício dos animais com suspeita da doença. Segundo a reportagem, apesar de reconhecer que o sacrifício de animais com objetivo de proteger a saúde de humanos é “mais do que justificada”, o juiz destaca que o exame ao qual os cães foram submetidos “não é confiável”, e que o medicamento Milteforan pode curar os animais e evitar o contágio. O magistrado diz ainda que a Fiocruz, do Rio de Janeiro, poderia realizar um teste mais confiável.

Mas, a protetora de animais de Porto Alegre (RS) Leila Vizzotto, alerta que permanece a ameaça da política de abate. “O agravo foi aceito pela desembargadora, mas o processo seguirá seu curso para julgamento final”, observa, ao complementar que atualmente existem quatro cães com teste reagente para leishmaniose. Os animais estão recebendo tratamento em clínica veterinária sem custo algum e veterinários os estão monitorando semanalmente. A protetora conta que, na Unidade de Medicina Veterinária, estão outros 27 cachorros que foram recolhidos pela Secretaria Especial dos Direitos dos Animais (SEDA) e Vigilância Sanitária, onde foram feitos os testes com resultado reagente. Alguns, contudo, não foram submetidos ainda ao teste definitivo. “E são estes que estão com a espada em suas cabeças”, ressalta, assinalando que nas ruas de Porto Alegra perambulam muitos outros cães que podem estar com leishmaniose. Sem o tratamento, estes animais irão definhar e morrer. Além disso, o local onde o foco é maior, as pessoas vivem em situação vulnerável.

O médico veterinário Luiz Eugênio de Miranda Sá, de Bonito (MS), concorda com a protetora de animais. “Quantas vidas (de animais) perdidas por erro de estratégia de controle do Governo Federal!” A pedra angular do controle é o vetor, o flebotomíneo Lutzomya longipalpis, conhecido por mosquito-palha (que, na verdade, não é um mosquito, mas uma mosca hematófaga que prolifera em locais sombreados e ricos em matéria orgânica). Estes, diz, é que deveriam ser combatidos assim que fossem detectados casos em cães, argumenta. Ao invés disso, diz, só autorizam o bloqueio químico após notificação de casos em humanos. Afirma que preferem promover assassinatos indiscriminados de vítimas inocentes e, não satisfeitos, impõem terror aos cidadãos menos esclarecidos dizendo que o tratamento é proibido, que não há cura e que ainda que podem ser responsabilizados se algum familiar ou vizinho vir a adoecer. O médico veterinário lembra que já existe medicamento de uso veterinário registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Tratamento de cães com LVC fica autorizado com o Milteforan®.

A protetora de animais conta que caminhou por todos os locais onde há maior transmissão da leishmaniose. “Conversei com as pessoas que tiveram seus cães recolhidos pela vigilância, vi suas casas, vi a precariedade de suas vidas. Um mundo dentro de outro mundo. Esgotos a céu aberto, matas derrubadas, o lixo se perpetuando com a natureza. Não sou graduada em nada, mas até mesmo para uma leiga como eu, o caos grita por socorro. Enquanto isso, o mosquito-palha, livre, recebe a chave da cidade de Porto Alegre. Estranho ver o algoz impune e a vítima condenada. As fotos mostram porque o mosquito-palha está tão à vontade para procriar e o porquê esses bairros comporem o berçário desse vetor. Se tivessem buscado estudá-lo, como vive, qual seu predador, talvez Porto Alegre, hoje, não estivesse passando por esta situação”, lamenta. Segundo a Vigilância Sanitária, este inseto não diminui sua reprodução no inverno, o que poderia ser uma esperança, tendo em vista o rigor do inverno no Sul.

De acordo com relatos de Leila, nestes locais existem três postos de saúde, e até as mortes ocorrerem nenhum deles tinha orientação sobre o calazar, apesar da doença estar no Estado (em São Borja) desde 2010, com o conhecimento da Secretaria da Saúde/Vigilância Sanitária. “O que não disseram é que se as pessoas tivessem tido atendimento imediato e competente não teriam ido a óbito. A criança foi medicada para tudo, inclusive acharam que tinha leucemia, o outro paciente era idoso, e o terceiro, portador de HIV, e todos demoraram em ter o diagnóstico correto”, sustenta.

Enquanto isso, um questionamento inquieta a proteção animal gaúcha: será se matarem todos os cães, o inseto vetor irá desaparecer? E, sem ajuda nenhuma do poder público, os protetores se viram diante de centenas de dúvidas, poucas certezas e muito desespero. “Quem tem dinheiro paga tratamento, quem não tem, os cães morrem”, finaliza Leila.

Campo Grande e a leishmaniose

Situação parecida já ocorreu no estado de Mato Grosso do Sul, quando a Sociedade de Proteção de Bem Estar Animal – Abrigo dos Bichos, de Campo Grande, ingressou com ação em favor do não sacrifício de animais com leishmaniose. O advogado responsável pela ação, Dr. Wagner Leão do Carmo, lembrou à época que os veterinários estão aparelhados a ministrar tratamento nos cães infectados: Vitória no STF garante tratamento de cães com leishmaniose. Conforme assegurou, também à época, a doutora Sibele Cação, veterinária e ex-presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul (CRMV/MS), em matéria da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, primeiro é preciso buscar um diagnóstico correto. Segundo a especialista, muitos cães são mortos erroneamente, sem de fato terem a doença. Ela argumentou que os exames de rotina hoje utilizados pelo poder público para o diagnóstico não são precisos.

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