Leishmania pode se reproduzir sexualmente, revela estudo

Publicação: 9 de julho de 2019

Esse tipo de reprodução tem efeito direto nos processos evolutivos e de especiação

Tipo de reprodução influencia na transmissão de características dos organismos e pode influenciar na virulência, assim como na patogenicidade e na capacidade da espécie ou cepa de se relacionar melhor ou pior com determinado hospedeiro

Artigo publicado em maio na PLOS Genetics intitulado “Whole genome sequencing of experimental hybrids supports meiosis-like sexual recombination in Leishmania” revela a capacidade da Leishmania de se reproduzir sexualmente. Os pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis e do Instituto Nacional de Saúde (NIH) descobriram que os parasitas híbridos de Leishmania podem cruzar um com o outro para produzir descendentes férteis que carregam genes de ambos os parentais – sinais de um verdadeiro ciclo sexual reprodutivo. Os pesquisadores esperam agora usar sua remixagem genética como uma ferramenta para encontrar genes envolvidos na virulência da doença. O tipo de reprodução influencia na transmissão de características dos organismos e pode influenciar na virulência, assim como na patogenicidade e também na capacidade de uma espécie ou cepa de se relacionar melhor ou pior com determinado hospedeiro.

De acordo com o co-autor do estudo e professor de microbiologia molecular, Dr. Stephen Beverley, o que se espera saber é por que uma cepa provoca uma forma leve da doença e outra causa uma forma letal, ou como os parasitas evitam a resposta imunológica. “Ao gerar descendentes com características diferentes, podemos identificar os genes que causam doença grave ou resistência imunológica. Isso pode ser um passo em direção a um melhor tratamento ou prevenção”, completou o Dr. Beverley.

A especialista do Laboratório de Pesquisa em Leishmaniose do Instituto Oswaldo Cruz, que atua como referência na identificação e genotipagem da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Dra. Elisa Cupolillo, explica que o trabalho fornece evidências de que em algumas circunstâncias parasitas do gênero Leishmania podem realizar troca genética semelhante à recombinação sexual, com predominância de processo correspondente a meiose. Esse tipo de reprodução tem efeito direto nos processos evolutivos e de especiação. “Recombinação implica na transferência de traços epidemiológicos relevantes e permite o surgimento e ressurgimento de características que podem ser relacionadas, por exemplo, com a doença produzida por Leishmania spp e com o ciclo de transmissão desse parasita” completa. Ainda segundo ela, já se sabe que o processo de clonalidade é fundamental para a propagação de Leishmania; variantes clonais se dispersam com menor custo. Logo, o fato de Leishmania ter competência para se reproduzir sexuada e assexuadamente trás uma grande vantagem para esses parasitas.

Vários estudos já haviam demonstrado que existe troca genética em promastigotas de Leishmania, in vitro e nos flebotomíneos. No entanto, pela primeira vez foi demonstrado que recombinação sexual, envolvendo meiose, ocorre em Leishmania, embora sem a formação aparente de gametas. Além disso, a pesquisa abre novas possibilidades de estudo, pois pela primeira vez está sendo apresentado um mapa genético de Leishmania, muito importante para o desenvolvimento de diversos estudos com análises genéticas desses parasitas e clonagem de genes relevantes, ligados a características como virulência, resistência a fármacos, entre outros.

Parasitas híbridos raramente conseguem cruzar

A Dra. Cupolillo assinala que o estudo demonstra que os híbridos gerados entre espécies distintas não podem cruzar e isso vai de encontro com a filogenia destas espécies, que divergiram há bastante tempo e por isso espera-se que exista uma barreira reprodutiva. Isso reforçando que L. major e L. infantum são de fato espécies distintas. “No caso dos híbridos gerados entre cepas de uma mesma espécie, a capacidade de cruzamento fica reduzida. Existem algumas possibilidades que justificam uma redução na eficiência do cruzamento entre linhagens de uma mesma espécie, mas o estudo não apresenta nenhum ensaio e, consequentemente, resultado que possa explicar essa condição”, observa.

O estudo justifica usando dados da literatura para outros organismos que também apresentam essa situação e que são coerentes com o que se conhece sobre genética de Leishmania spp, como, por exemplo, rearranjo cromossômico e aneuploidia. “É importante mencionar que após os experimentos de cruzamentos os parasitas precisam ser cultivados em meio de cultura para que os novos ensaios sejam realizados. Sabemos que Leishmania se adapta as condições do cultivo in vitro através de mecanismos como amplificação de genes e de cromossomas, que provavelmente geram modificações que modulam a performance desses parasitas”, esclarece a especialista.