Impacto da Covid-19 na notificação de Doenças Tropicais Negligenciadas

Publicação: 8 de dezembro de 2021

Estudo que verifica o perfil epidemiológico de algumas DTN no Brasil atenta para cenário desafiador no pós-pandemia em relação a essas doenças que já apresentam números brutais no Brasil

Número de internações por leishmaniose visceral, leptospirose e malária em 2020 apresentaram um decréscimo de 32,87%, 43,59%, 29,31%, enquanto dengue um acréscimo de 29,51% em comparação as médias de 2017 a 2019

Além de todo o impacto causado pela covid-19 propriamente dito, outras consequências danosas à saúde, indiretamente geradas, são verificadas como resultado da pandemia sob seus diferentes aspectos. Os reflexos se tornaram evidentes à medida que houve atraso no diagnóstico das patologias em geral, com a prevenção e o acompanhamento das doenças endêmicas sendo negligenciadas por uma proporção significativa da população. Além disso, a emergência de saúde pública criada pela Covid-19, impactou a notificação das doenças tropicais negligenciadas (DTN), enfermidades que acometem 1 bilhão de pessoas no mundo e afetam principalmente as populações mais pobres, as quais sofrem com falta de saneamento básico, moradias inadequadas e vivem com condições precárias de saúde.

A queda abrupta da notificação de novos casos, de pessoas acometidas pelas DTN, o que pode levar à explosão de casos no pós-pandemia, foi identificada no estudo intitulado “Análise das internações e da mortalidade por doenças febris, infecciosas e parasitárias durante a pandemia da COVID-19 no Brasil“.

O estudo verificou a evolução dos casos de leishmaniose visceral, leptospirose, dengue e malária em 2020, com base em informações epidemiológicas registradas em bancos de dados oficiais, no caso do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). De acordo com o levantamento, entre 2017 e 2019, a média mensal de internações ocorridas nos meses de janeiro a agosto foi de 222,25 internações por leishmaniose visceral, 220,5 por leptospirose e 160,67 por malária. Já em 2020, entre janeiro e agosto, a média mensal foi de 125,38 internações por leishmaniose visceral, 155,87 por leptospirose e 113,25 por malária, números que representam uma queda na média de internações na ordem de 43,59%, 29,31% e 29,51%, respectivamente, em comparação com as médias dos três anos anteriores à pandemia.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o Dr. Stefan Vilges de Oliveira, epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e um dos autores do estudo. Doutor em Medicina Tropical, o Dr. Stefan Vilges de Oliveira também atuou como consultor técnico da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS/OMS) e na Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS).

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: Qual foi o principal impacto da Covid-19 na notificação de doenças endêmicas?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: A partir da análise de dados epidemiológicos de um conjunto de doenças endêmicas, infecciosas e parasitárias (Leptospirose, Malária, Leishmanioses, Hantaviroses e Riquetsioses) nós observamos uma redução nas notificações dessas doenças que foi acompanhada da redução do número de casos confirmados e do crescimento da taxa de letalidade. Esses resultados, provavelmente têm na sua causa a priorização do enfrentamento da Covid-19, onde toda a rede de saúde foi mobilizada para atender as demandas da pandemia, e consequentemente, doenças de menor incidência foram deixadas de lado. Isso trouxe impactos na detecção dessas doenças, gerando subnotificação e piorando os desfechos clínicos. A detecção tardia dos casos de doenças endêmicas de baixa incidência foi responsável pelo aumento da taxa de letalidade.

SBMT: Poderia falar um pouco sobre o controle de doenças endêmicas em tempos de Covid?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: A Vigilância Epidemiológica que tem entre seus objetivos realizar ações de prevenção e controle é uma estratégia que tem como uma das suas principais premissas a necessidade de ser realizada de forma regular e sistemática. Isso significa que os serviços de saúde precisam estar preparados para manter as ações de vigilância, prevenção e controle de forma continuada para todas as doenças e agravos do escopo da Vigilância em Saúde.

Nesse sentido, mesmo entendendo que os recursos públicos de saúde são finitos e que já há alguns anos o Sistema Único de Saúde (SUS) sofre com o subfinaciamento é necessário buscar garantir a integralidade do cuidado e das ações que são preconizadas pelo Ministério da Saúde. Dessa forma, a manutenção das ações de rotina para os demais programas de vigilância deve ser também priorizada.

SBMT: Quais os desafios se a covid se tornar uma doença endêmica?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: O principal desafio será incluí-la nas pactuações junto a uma grande lista de doenças e agravos à saúde que já são objeto de atuação da Vigilância em Saúde e da Assistência.

Garantir recursos (humanos e financeiros) para ações preventivas que busquem a redução na taxa de transmissão será objeto de intervenção para ser resolvido a curto prazo.

A longo prazo, espera-se que com a ampliação das taxas de coberturas vacinais tenhamos uma redução na circulação da infecção. A Covid-19 poderá ser mantida de forma endêmica em pequenos surtos em nichos populacionais não vacinados. Sobre esse aspecto, os maiores esforços deverão ser no sentido de promover educação em saúde o que inclui o entendimento de que a vacina é necessária para o controle da doença. Paralelo a essas ações uma vigilância proativa de casos junto do fortalecimento da vigilância genômica deverá ser capaz de monitorar possíveis mutações virais que possam ameaçar a proteção que as vacinas estão conferindo.

SBMT: O senhor acredita que o Brasil está vivendo uma epidemia de doenças endêmicas?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: O que se observa é um grande silêncio epidemiológico para grande maioria das doenças endêmicas que têm sido proporcionado pela pandemia. Para doenças febris infecciosas e parasitárias observamos que a pandemia afetou significativamente nos registros dessas doenças e as estatísticas apresentadas refletem só a “ponta do iceberg”. Para doenças crônicas existe também uma grande demanda represada de problemas de saúde que só agora com a retomada gradual das atividades é que começará a impactar no SUS.

SBMT: Em sua opinião, a pandemia aumentou ou diminuiu a vigilância de doenças endêmicas em áreas urbanas e rurais?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Para grande maioria das doenças endêmicas a vigilância foi descontinuada durante a pandemia. Historicamente a Vigilância em Saúde trabalha com um contingente reduzido de profissionais e recursos financeiros limitados (quando comparados aos recursos do SUS destinados a Assistência) o que faz com que muitas vezes os gestores de saúde, que são os responsáveis pela execução das atividades tenham que priorizar uma ou outra atividade a ser executada.

Nessa priorização, as doenças endêmicas de menor incidência são as mais afetadas. A descontinuidade das ações de vigilância traz grandes impactos na proposição de políticas públicas, pois essas são planejadas a partir dos dados epidemiológicos coletados e isso agrava-se mais quando falamos de doenças endêmicas que são consideradas negligenciadas.

No entanto, é possível que para outras doenças, como exemplo as respiratórias (Influenza e seus subtipos) com a pandemia pode ter melhorado a Vigilância. Já que no contexto do diagnóstico diferencial, casos de Influenza antes não detectados, com a pandemia e um sistema de vigilância mais ativo e sensível para detecção de doenças respiratórias, essas podem ter sido beneficiadas com melhores registros.

SBMT: O que fazer para combater as doenças endêmicas e eliminar a disseminação dos vírus no Brasil?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Fortalecer o SUS! Precisamos ter uma Atenção Primária resolutiva que garanta o acesso e que integradamente promova a Vigilância de doenças endêmicas do seu território.

Fortalecer a Vigilância Epidemiológica e compreender que no contexto pandêmico da Covid-19, a Vigilância Epidemiológica deve anteceder as ações de Assistência e de forma mais resolutiva salvar vidas.

Garantir a notificação, a testagem e o monitoramento epidemiológico realizado de forma regular e sistemática. Utilizar os dados epidemiológicos produzidos para atuar de forma preditiva antecedendo os casos das doenças.

SBMT: Em sua opinião, por que a Covid-19 impactou na cobertura vacinal? O que fazer para reverter isso?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: No início da pandemia a principal mensagem que foi passada foi a de “Fique em casa”. A população em parte atendeu a esse pedido e isso foi refletido nas baixas coberturas vacinais subsequentemente observadas. Para melhorar estes indicadores de cobertura vacinal precisamos trabalhar na educação em saúde, buscando promover o entendimento da necessidade de estar com a caderneta de vacinação em dia. As pessoas precisam compreender que estão sujeitas a outras doenças que são endêmicas e que podem ser tão danosas a saúde quanto à COVID-19. Dessa forma, uma comunicação adequada com a população é fundamental.

SBMT: Quais os avanços necessários para superar o impacto global de doenças tropicais negligenciadas?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Precisamos utilizar das importantes experiências adquiridas na Pandemia para o enfrentamento de Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN). Tivemos vacinas desenvolvidas e validadas em tempo recorde e um volume de informações científicas produzidas em um curto espaço de tempo que salvaram muitas vidas. Acredito que podemos aproveitar parte destes conhecimentos adquiridos e replicar para as DTN que historicamente sofrem com o pouco incentivo financeiro e atenção por parte do poder público.

SBMT: O senhor poderia falar sobre a disseminação de doenças ligadas às alterações climáticas e a deslocalização de doenças endêmicas?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: No Brasil, junto da crise sanitária promovida pela Covid temos observado com temor, dados que mostram importante impacto ambiental em nosso território, em especial em áreas da Amazônia.

Os números mostram que nos últimos anos os desmatamentos, queimadas e áreas de garimpo ilegal têm avançado para áreas naturais preservadas.

É sabido que aproximadamente 75% das doenças emergentes são de origem zoonótica e tem como principal causa da sua origem as alterações climáticas e as mudanças do uso e ocupação do solo.

Esse movimento de ocupação de áreas naturais traz o risco iminente de novas epidemias diante do contato de populações humanas com áreas naturais e patógenos. A degradação ambiental observada também poderá modificar os padrões epidemiológicos-espaço-temporal de doenças já endêmicas, ampliando ou modificando suas áreas de ocorrência e com isso afetar maiores contingentes populacionais e novas populações susceptíveis.

SBMT: Podemos dizer que a pandemia e as mudanças climáticas e ambientais criaram um cenário de incertezas para o Brasil no que se refere às doenças endêmicas? Por quê?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Sim, os dados epidemiológicos das doenças endêmicas registrados no Brasil durante a pandemia não refletem o real impacto destas. Com isso, é provável que estejamos subestimando o risco de doenças que durante a pandemia estiveram “silenciosas” e que poderão emergir com mais força, pois estavam sem o monitoramento adequado.

SBMT: O Brasil tem um alto índice de doenças infecciosas e endêmicas. Discretas e perigosas, o senhor acredita que as doenças endêmicas vão continuar a afetar o País?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Sim, com certeza! Muitas das doenças infecciosas e endêmicas apresentam baixa incidência, acometem populações vulneráveis e por este motivo não são priorizadas dentro das políticas públicas brasileiras. É necessário que haja o entendimento de que as DTN são responsáveis por adoecimento, incapacitação e morte e que é dever do Estado garantir a integralidade e equidade de acesso a saúde da população brasileira.

SBMT: Gostaria de acrescentar algo?

Dr. Stefan Vilges de Oliveira: Eu acredito que os conhecimentos de Vigilância Epidemiológica foram subutilizados durante a pandemia. O Brasil tem grande experiência no controle e erradicação de diversas doenças e poderia ter contribuído de maneira mais qualificada nas políticas de prevenção e controle. A estratégia de fortalecer a Assistência Hospitalar foi priorizada em detrimento de garantir o controle da infecção.

Se observarmos, a grande maioria dos municípios brasileiros utilizou como indicador de “controle da pandemia” o % (percentual) de leitos ocupados. Nessa ação existe um grande equívoco, pois reconhecer esse indicador como forma de flexibilizar medidas restritivas é assumir que pessoas irão adoecer e consequentemente irão morrer dada a história natural de uma doença que ainda não tem um tratamento específico. Para as próximas pandemias, precisamos garantir que as ações de Vigilância Epidemiológica sejam mais bem implementadas. Que haja uma melhor testagem e monitoramento como estratégia de controle da disseminação da doença. Buscar fortalecer e integrar as ações de Vigilância e Assistência. Melhorar a comunicação de risco a qualidade da informação e a transparência. Fomentar o SUS, estimular pesquisa translacional e o desenvolvimento de políticas públicas baseada em evidência.