Poluição intradomiciliar: uso desregrado de lenha nas casas brasileiras trará conseqüências, alerta pesquisadora

Publicação: 9 de agosto de 2019

No Brasil, 14 milhões de famílias utilizaram lenha ou carvão para cozinhar em 2018. O número representa quase 20% das famílias, ou seja, uma a cada cinco

Para a professora Adriana Gioda, a substituição da lenha e outros combustíveis sólidos por combustíveis mais limpos deve ser a meta do governo para minimizar custos com a saúde

O povo do interior diz que feijão preparado com lenha é mais gostoso, mas apesar da atmosfera acolhedora que o crepitar que ela confere à cozinha, o aumento desregrado de sua utilização nas casas brasileiras trará consequências negativas tanto à saúde quanto ao meio ambiente. É o que alerta o estudo desenvolvido pela professora do Departamento de Química do Centro Técnico Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CTC/PUC–Rio), Dra. Adriana Gioda.

No artigo intitulado “Exposição ao uso da lenha para cocção no Brasil e sua relação com os agravos à saúde da população” , a professora enfatiza que a poluição do ar em ambientes fechados é agravada pela queima de lenha em fogões rústicos e ambientes pouco ventilados. A exposição aos poluentes emitidos por este tipo de combustível resulta no aumento da morbidade e da mortalidade.

Apesar dos perigos que confere à saúde, a utilização da lenha permanece no País nos dias atuais, principalmente no Nordeste e nas regiões rurais. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em maio deste ano, com dados de 2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), revelou que 14 milhões de famílias brasileiras utilizaram lenha ou carvão para cozinhar no ano passado. O número representa quase 20% das famílias, ou seja, uma a cada cinco.

O Pará (57,5%) é o estado com maior percentual de domicílios que ainda utiliza lenha ou carvão como combustível no preparo de alimentos. Em 2016, a taxa era de 44,9%. Em seguida vem Maranhão (52,2%), Piauí (41,5%), Rio Grande do Sul (34,8), Tocantins (29,9%), Mato Grosso (29,3%). O menor percentual foi registrado no Rio de Janeiro (1,8%). Já em números absolutos, Minas Gerais liderou o uso de carvão e lenha em 2018 (1,7 milhão de famílias fizeram uso desses combustíveis para cozinhar). O Rio Grande do Sul e o Pará aparecem em seguida, com 1,47 milhão e 1,41 milhão de famílias, respectivamente. O Amapá apresentava o menor número (28 mil).

Os resultados do estudo da professora Adriana Gioda corroboram os dados da pesquisa IBGE/PNAD e apontam que a lenha é o segundo combustível mais usado para cozinhar, sendo utilizada por uma parcela significativa da população, em torno de 30 milhões de brasileiros. Segundo ela, a expansão do uso da lenha no preparo de alimentos no País está relacionada ao aumento do preço do botijão de gás liquefeito de petróleo (GLP). “O desemprego também contribuiu para o aumento do consumo de lenha nas casas. Neste caso, a situação é agravada pela utilização de lenha catada, não comercial, utilizada em fogões rústicos, com queima ineficiente, o que provoca aumento do seu consumo e expõe às pessoas a uma quantidade maior de partículas”, ressalta.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o fogão a lenha o fator ambiental responsável pelo maior número de mortes, no mundo inteiro. Mulheres e crianças que vivem em pobreza extrema correm risco mais alto, porque ficam mais expostas, os homens tendem a passar menos tempo em casa. A possibilidade de aliviar o sofrimento e de salvar milhões de vidas por meio de uma intervenção de baixo custo, capaz de reduzir as emissões de carbono e a velocidade com que as florestas são devastadas, além de estimular o crescimento econômico, merece um esforço global.

Para a pesquisadora, a substituição da lenha e outros combustíveis sólidos por combustíveis mais limpos deve ser a meta do governo para minimizar custos com a saúde. “É necessário desenvolver políticas públicas que favoreçam o acesso a energia mais limpa e barata para a população mais pobre. Algumas alternativas são os investimentos nas áreas de extração e produção de GLP, um programa governamental específico de compra de energia ou a implementação de energias alternativas, como solar, eólica, biogás ou biomassa sustentável, aproveitando o grande potencial florestal brasileiro. No entanto, é necessário realizar um estudo aprofundado, uma vez que todas as alternativas têm suas próprias vantagens e desvantagens” assinala.

Para a classe mais rica, o aumento do consumo de lenha deve-se a outros fatores, como a melhoria das cozinhas e varandas e novos modelos de fogões e churrasqueiras. “Importante salientar que há uma relação direta entre o consumo de lenha residencial e regiões com baixos índices de desenvolvimento humano e alta desigualdade”, acrescenta.

Em relação ao impacto ambiental, a professora Adriana Gioda destaca que o uso de lenha no País tem acarretado no aumento do desmatamento em algumas regiões, como é o caso da Caatinga. A lenha, para fins de cocção, é considerada uma fonte de energia renovável, quando esta é proveniente de reflorestamento. Atualmente, mais de 90% da lenha utilizada nas atividades domésticas mundiais é proveniente de fontes não renováveis, portanto, o uso deste combustível nas atividades culinárias contribui significativamente para o impacto no aquecimento global. Dentre os principais combustíveis usados para a cocção, e com base no consumo da população brasileira, a lenha é a maior responsável pela emissão de gases de efeito estufa.

Saiba mais sobre o assunto:

Residential fuelwood consumption in Brazil: Environmental and social implications

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