HIV: Incremento das formas recombinantes ao longo do tempo, nas diferentes regiões, representa desafio adicional para desenvolvimento de vacinas, aponta Dra. Mariza Morgado

Publicação: 4 de fevereiro de 2019

Estudo publicado recentemente demonstrou que a distribuição dos subtipos e formas recombinantes mudaram ao longo do tempo em países, regiões e globalmente. Entre 2010 e 2015, o subtipo C representou 46.6% das infecções pelo HIV-1 no mundo, já o B correspondeu a 12.1%, enquanto o A equivaleu a 10.3%

Do ponto de vista da distribuição regional, a África Central, no continente africano, berço da epidemia, apresentou a maior diversidade de subtipos virais, recombinantes únicas e recombinantes circulantes

Um estudo publicado no The Lancet Infectious Diseases, em 30 de novembro, véspera do Dia Mundial de Combate à AIDS, celebrado em 1° de dezembro, mostrou a extraordinária diversidade genética global do HIV e destacou o quão grande é o desafio de desenvolver uma vacina para combater a sua disseminação global.

Considerado um dos estudos mais abrangentes de HIV em todo o mundo, a pesquisa de Hemelaar e cols intitulada “Global and regional molecular epidemiology of HIV-1, 1990–2015: a systematic review, global survey, and trend analysis se baseia na revisão sistemática de estudos de epidemiologia molecular do vírus em diferentes países e regiões do mundo, publicados na literatura e acessados por várias fontes de busca, além do acesso à informação nova, de dados não publicados, com base em um questionário encaminhado a diferentes líderes de pesquisa desta área no mundo, membros da Rede de Isolamento e Caracterização do HIV da Organização Mundial de Saúde/Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (WHO-UNAIDS Network for HIV Isolation and Characterisation), listados como coautores do artigo.

A Dra. Mariza Morgado, pesquisadora do Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica que com base nessas informações sobre a distribuição dos subtipos de HIV-1, das formas recombinantes únicas (URFs) e das formas recombinantes circulantes (CRFs), ajustadas pelo número de pessoas vivendo com o HIV-1 em cada região, por ano, pode-se estimar a frequência destes subtipos e recombinantes por região, distribuídos em quatro períodos: 1990-1999; 2000-2004; 2005-2009 e 2010-2015. “A partir da análise comparativa entre estes períodos foi possível realizar uma análise de tendência, a qual demonstrou que a distribuição dos subtipos e as formas recombinantes mudaram ao longo do tempo em países, regiões e globalmente”, observa.

A publicação aponta ainda, de modo geral, que no período entre 2010 e 2015, o subtipo C representou 46.6% das infecções pelo HIV-1 no mundo, enquanto o subtipo B correspondeu a 12.1% e o subtipo A equivaleu a 10.3%. “Para este mesmo período, verificou-se a expansão global do subtipo B, de URFs, do CRF01_AE e outros CRFs, enquanto que outros subtipos permaneceram estáveis (A e D), ou decresceram (C, G e CRF02_AG), quando comparados a períodos anteriores ao nível global. Variações regionais foram também identificadas, mostrando que a diversidade do HIV-1 é complexa e está evoluindo continuamente”, atenta a Dra. Morgado. Ainda segunda ela, chama a atenção o incremento das formas recombinantes ao longo do tempo, nas diferentes regiões do mundo, o que representa um desafio adicional para o desenvolvimento de vacinas.

A pesquisadora assinala que do ponto de vista da distribuição regional, no continente africano, como berço da epidemia, a África Central apresentou a maior diversidade de subtipos virais, URFs e CRFs, nos quatro períodos analisados, enquanto que na região sul predomina o subtipo C. “Distribuição diferenciada de subtipos virais é também observada ente os países do leste e oeste do continente africano, com predomínio do CRF02_AG na África do Oeste e do subtipo A na África do Leste. Já na América do Norte e Europa (central e oeste) predomina o subtipo B, enquanto que no Leste Europeu e Ásia Central prevalece o subtipo A, com incremento importante das formas recombinantes ao longo dos quatro períodos analisados”, detalha a especialista.

O artigo revela ainda que na América Latina a forma predominante é o subtipo B, com incremento do subtipo C e de formas recombinantes a partir de 2000. “Chama a atenção a presença de infecções pelo sub-subtipo F1, cuja frequência embora se reduza ao longo do tempo (7.8% 1990-1999 vs 4.4% 2010-2015), só é verificada também, em proporções similares na África Central”, destaca a pesquisadora ao ressaltar que na epidemia global o sub-subtipo F1, junto com H, J e K corresponde a 0.9% das infecções. Já no sul da Ásia, predomina o subtipo C na India, enquanto que no Sudeste Asiático, a forma predominante é o CRF01_AE, com o subtipo B aumentando sua frequência no período 2010-2015.

Outro ponto discutido no artigo é a dinâmica de distribuição de subtipos e formas recombinantes ao logo do tempo nas diferentes regiões e globalmente, que é multifatorial, refletindo tanto diferenças epidemiológicas locais, como frequência de novas infecções, grupos mais afetados, acesso a tratamento e patogênese associados às infecções pelos diferentes subtipos e formas recombinantes, assim como fatores socioeconômicos, viagens, migrações, urbanização, efeito fundador, redes de transmissão, dentre diversos fatores que podem favorecer essas modificações na dinâmica da epidemia ao longo do tempo. A pesquisadora reconhece que esses dados são de grande relevância na compreensão da epidemia global e regional do HIV-1 e reforça a necessidade de se manter um sistema continuado de vigilância dessa diversidade viral associada às características sócio demográficas, clínicas e comportamentais das populações sob maior risco.

A especialista é enfática ao afirmar que a ocorrência dessa grande variedade de subtipos e formas recombinantes do HIV-1 evoluindo continuamente e variando sua distribuição ao longo do tempo nas diferentes regiões do mundo traz um desafio importante não só para o desenvolvimento de vacinas, como de métodos diagnósticos e terapêuticos que dependem essencialmente de alvos moleculares específicos do vírus. “Mutações nessas regiões podem ter impacto na eficácia de vacinas e medicamentos, assim como na sensibilidade e especificidade de métodos de diagnóstico e de quantificação viral, reforçando a importância do monitoramento continuado das variantes de HIV-1 circulantes no nível local, regional e globalmente”, finaliza.