Hantavirose: uma patologia de baixa prevalência e com alta mortalidade

Publicação: 5 de junho de 2019

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de mortalidade dessa doença é de 38% e não há nenhum tratamento, cura ou vacina para a infecção

No Brasil, entre 2007 e 2015 foram notificados 13.181 casos da doença, dos quais 8% foram confirmados e 410 evoluíram para óbito

Doença viral grave transmitida por roedores, a hantavirose chamou a atenção recentemente no Sul da Argentina. O que surpreendeu foi a alta concentração de casos em uma mesma localidade, com grande número de mortes em curto espaço de tempo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a emitir alerta sobre surto letal de hantavírus e advertiu autoridades de saúde do país a ficarem vigilantes e a intensificarem os esforços para detectar, investigar, gerir e controlar os casos. A OMS recomendou ainda atenção especial para viajantes das áreas afetadas.

Para debater o tema, os principais especialistas no assunto da Argentina e do Chile se reuniram em Bariloche, no primeiro Congresso Patagônico de Hantavírus, onde discutiram os diferentes estágios de aproximação da doença. Entre as atividades que ocorreram entre os dias 23 e 24 de maio, foi elaborado um documento de consenso entre as partes, que inclui recomendações transparentes de alta qualidade metodológica que serão utilizadas para a tomada de decisões.

O diretor médico do Hospital Zonal Bariloche (em espanhol), Dr. Fernando Tortosa, explicou que o congresso abordou diversos temas relacionados aos problemas de hantavírus em termos de prevenção, saúde ambiental, epidemiologia, detecção precoce e abordagem terapêutica. Ainda segundo ele, o objetivo final era a criação de uma comissão binacional para resolver este subtipo de vírus e desenvolver um documento de consenso com recomendações elevadas de qualidade metodológica transparente que ajudem na tomada de decisões.

Quanto à metodologia de trabalho, o Dr. Tortosa informou que estão trabalhando em diferentes grupos com muito treinamento e experiência na Argentina e no Chile, cujo objetivo é reunir os diferentes grupos temáticos, como epidemiologia, abordagem de campo, biologia molecular, virologia, desenvolvimento de novas terapias. De acordo com o especialista, a ideia é conectar pessoas que estão trabalhando em diferentes campos em todas as fases da doença.

Em relação às dificuldades de acesso ao financiamento para pesquisa, ele reconheceu que a indústria farmacêutica opta por aqueles tratamentos que têm alta demanda, por isso é importante estabelecer apoio colaborativo entre os governos regionais e incentivar a pesquisa. Ele ressaltou a importância de estabelecer protocolos que permitam uma resposta rápida para a doença, bem como conseguir uma rede de vigilância epidemiológica entre os dois países.

“Ainda durante o último Congresso realizado na cidade de San Carlos de Bariloche, foi desenvolvido com o apoio de especialistas da Argentina e do Chile, recomendações com metodologia GRADE sobre o uso de Ribavirina em pacientes em fase virêmica ou incubação com detecção viral por PCR em tempo real (RT-PCR) ou em pacientes em fase prodrômica com ELISA para IgM positiva ou RT-PCR positiva. Da mesma forma, continuará na região com o desenvolvimento de pesquisas sobre o uso dessa droga. Além disso, um guia de consenso sobre o hantavírus dos Andes do Sul foi desenvolvido neste espaço com esta metodologia moderna para o desenvolvimento de recomendações”, acrescentou o Dr. Tortosa.

Tratamento com ribavirina

Após o surto de hantavírus que teve início no dia 3 de dezembro, na cidade de Epuyén, pequeno vilarejo montanhoso situado na província de Chubut, sul da Argentina, onde moram 3.500 pessoas, considerado o mais grave da história da saúde local, quatro pessoas tratadas com uma droga antiviral conhecida como “ribavirina” apresentaram uma evolução positiva. De acordo com reportagem veiculada no site argentino Perfil, após consulta a organizações internacionais sobre a aplicação de ribavirina diante do cenário que se apresentava, foi decidido em conjunto com os Ministérios da Saúde do La Nación, Chubut e Río Negro, a utilização do medicamento. A ribavirina é um antiviral prescrito para combater condições como hepatite ou casos graves de algumas infecções respiratórias que impedem a disseminação do vírus dentro do organismo. No momento, não há recomendação global para o uso em casos de hantavírus, uma vez que não há evidências científicas para apoiar seu uso. Entretanto, o fato pode oferecer às autoridades uma possível investigação sobre o tratamento dessa condição na ausência de um medicamento específico para combatê-la.

Teste rápido para detectar Hantavírus pode ajudar reduzir mortalidade

Até o final deste ano, a criação de um teste rápido de alta precisão para a detecção do vírus Hanta pode se tornar realidade. Pesquisadores chilenos, do Centro de Referencia de la Macrozona Sur (em espanhol), usam reagentes identificados na região de Los Ríos para melhorar os protocolos de detecção da doença. Este é o resultado de um projeto iniciado em 2015 por meio do laboratório de virologia do Instituto de Microbiologia da Universidade Austral do Chile, que em 2016 detectou os sistemas reagentes da cepa hantavirus andes. Esta variante da doença é transmitida através da espécie Oligorizomys longicaudatus, mais conhecida como rato de cauda longa, presente na região do Atacama (sul). Após sua aprovação pelo Instituto de Saúde Pública (ISP), espera-se iniciar sua fase de patente e seleção de um modelo de distribuição no Chile e na Argentina, onde esta cepa do vírus está presente.

Não há nenhum tratamento, cura ou vacina para a infecção por hantavírus e, segundo a OMS, a taxa de mortalidade é de 38%. É comum que sejam registrados casos de contágio por hantavírus a cada ano em países da América do Sul, inclusive o Brasil. De acordo com o artigo Magnitude e distribuição dos óbitos por hantavirose no Brasil, 2007-2015, dos pesquisadores em epidemiologia Lidsy Ximenes Fonseca, Stefan Vilages de Oliveira e Elisabeth Carmen Duarte, no Brasil, neste período, foram notificados 13.181 casos de hantavirose, dos quais 8% foram confirmados e 410 evoluíram para óbito. Os autores concluíram que a alta letalidade em certos grupos populacionais, meses do ano e regiões do Brasil aponta para baixa suspeição clínica da doença em grupos pouco expostos, o que pode comprometer seu manejo adequado.

Fonte: Portal MS

Saiba mais:

O Hantavírus está presente na urina, saliva ou excrementos de certos roedores selvagens, em especial na América do Norte e na América do Sul. Ele é transmitido ao homem por inalação de pó ou de gotículas provenientes de animais infectados, seguidas de contato direto da pela (com ferimento) com matéria contaminada ou então pela ingestão de alimentos ou água contaminados. A enfermidade é caracterizada por dores de cabeça, tontura, febre, náusea, diarreia e dor de estômago, seguidas pelo repentino desencadeamento de severos sintomas respiratórios.

Na Argentina, de 2013 a 2018, uma média de 100 casos anuais de hantavírus foram registrados. Durante estes anos, houve um total de 111 mortes devido, que tem uma taxa de letalidade próxima de 20%, mas que atinge em algumas regiões do sul do país a uma taxa de 40%. Para mais informações, acesse o artigo da Dra. Leticia Ceriani publicado no site da Sociedad Iberoamericana de Información Científica (SIIC) intitulado Hantavirus: como um estado ausente agrava as situações epidemiológicas.

Médicos de Argentina y Chile, unidos contra el hanta. El brote del verano pasado en Epuyén disparó la necesidad de compartir experiencias y unificar tratamientos. La falta de pacientes es el principal obstáculo.

RECOMENDACIÓN PARA EL USO DE RIBAVIRINA EN PACIENTES CON HANTAVIRUS: DE LA EVIDENCIA A LA DECISIÓN.