Hanseníase: pesquisadores encontram potenciais marcadores para diagnóstico da doença

Publicação: 8 de outubro de 2022

Estratégia de diagnóstico e tratamento precoce são fundamentais para a cura, o que diminui a chance de sequelas

Estudo contou com 82 voluntários e avaliou anticorpos para uma proteína da bactéria causadora da hanseníase

A hanseníase persiste como problema de saúde pública global, sendo responsável por aproximadamente 200 mil casos novos diagnosticados em todo o mundo anualmente. Além disto, milhões de pessoas ainda convivem com algum tipo de incapacidade física ou deficiência em decorrência da doença. O Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior número de casos no mundo, atrás apenas da Índia. Segundo dados do boletim epidemiológico do Ministério da Saúde Hanseníase 2022, entre 2016 e 2020, foram diagnosticados 155.359 novos casos no Brasil. Em 2021, foram registradas 18.318 novas notificações no País, uma redução de 34% comparado com 2019 devido ao impacto da pandemia nos programas de controle da doença. Historicamente apresenta mais ocorrências nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O diagnóstico continua um grande desafio, os testes são limitados e atualmente não há kits ou técnicas que permitam o diagnóstico laboratorial da doença em toda a sua complexidade de manifestações clínicas.

Pensando nisso, pesquisadores do Laboratório de Cicatrização e Hanseníase do Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária e Hanseníase (CRNDSHansen) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/SP), avaliaram os níveis de anticorpos contra uma proteína da bactéria causadora da doença em amostras de pacientes recém-diagnosticados com hanseníase, casos tratados com a poliquimioterapia (PQT), contatos intradomiciliares dos pacientes e indivíduos saudáveis residentes na cidade endêmica de Parnaíba (PI). O artigo Serological Immunoassay for Hansen’s Disease Diagnosis and Monitoring Treatment: Anti-Mce1A Antibody Response Among Hansen’s Disease Patients and Their Household Contacts in Northeastern Brazil foi publicado na Frontiers in Medicine.

Para o estudo, os pesquisadores coletaram sangue de 82 voluntários para avaliar os anticorpos contra a proteína Mce1A da bactéria Mycobacterium leprae, causadora da doença. Eles foram divididos em quatro grupos: novos casos de hanseníase em Parnaíba, pacientes tratados na ex-colônia do Carpina (PI); pessoas que moraram com uma pessoa com a doença por, pelo menos, seis meses antes do diagnóstico; e outro formado por pessoas saudáveis, sem diagnóstico ou contato com hanseníase e que residem na região endêmica de Parnaíba. De acordo com o biomédico patologista clínico e primeiro autor do estudo, Dr. Filipe Rocha Lima, o objetivo foi buscar novos marcadores que tenham a sensibilidade necessária para diagnosticar o maior número de pacientes e para rastreio de contatos mantendo a especificidade satisfatória para um teste sorológico.

“Demonstramos que os anticorpos IgA contra a proteína Mce1A são importantes marcadores de contato com o bacilo, devido a sua positividade nos pacientes casos novos, tratados e contatos. Resultados positivos para sorologia IgM foram associados a doença ativa, pois foram negativos nos casos tratados e presente nos casos novos da doença. Por outro lado, uma maior frequência de exames positivos para sorologia IgG foi identificada em pacientes já tratados”, explica o Dr. Lima. Segundo ele, os dados ratificaram a importância dessas moléculas para diagnóstico de todas as formas clínicas da doença, monitoramento terapêutico e rastreio de contados, assim como, seu melhor desempenho e acurácia comparado com o exame que dosa anticorpos contra a substância PGL-I da bactéria.

Os anticorpos estão sendo testados em regiões do Brasil com diferentes endemicidades para a doença e com maiores grupos de pacientes, contatos e controles para garantir a qualidade do ensaio proposto e avaliar o efeito da circulação do bacilo no ambiente nos níveis dos anticorpos desses indivíduos e para os parâmetros de avaliação de um teste sorológico, como o limiar de positividade do ensaio por região.

Casos acendem alerta para diagnóstico desafiador

O Brasil ocupa o segundo lugar em número de casos novos no mundo e cerca de 93% dos registrados nas Américas. O diagnóstico precoce e a administração do tratamento efetivo são fundamentais para a cura, diminuindo assim a chance de sequelas. O diagnóstico é principalmente clínico por meio de uma avaliação dermatológica e neurológica. Os testes laboratoriais disponíveis são ferramentas complementares, mas possuem importantes limitações para identificação de todas as formas clínicas da doença, monitoramento terapêutico e principalmente na identificação de indivíduos apenas infectados, ou seja, antes do aparecimento de sinais e sintomas.

“Com a utilização dos anticorpos contra a proteína Mce1A, tivemos a oportunidade de identificar casos da doença mesmo em estágios precoces e com sinais majoritariamente neurológicos, principais dificuldades dos outros testes estudados”, destaca o Dr. Lima. Ainda de acordo com ele, a incorporação de novas tecnologias diagnósticas permite eliminar as principais lacunas do diagnóstico laboratorial da hanseníase e contribuem com os objetivos da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a identificação dos casos iniciais paucibacilares, contatos infectados e consequentemente para a interrupção da transmissão bacilar, atingindo efetivamente a incapacidade física zero e eliminando o estigma da doença.

O pesquisador ressalta que até hoje não existem kits comerciais capazes de diagnosticar efetivamente indivíduos que entraram em contato com o bacilo Mycobacterium leprae e foram infectados, ou seja, identificação de pacientes antes dos sinais e sintomas da doença. “Sem dúvidas, a falta de tecnologia com essa sensibilidade não nos permite controlar a doença, tendo em vista a continuidade da circulação bacilar proporcionada pela ausência de diagnóstico precoce e posterior prescrição da poliquimioterapia. Diante desse cenário, investimos na avaliação desses anticorpos anti-Mce1A para rastreio dos contatos e de um padrão de positividade que permita predizer o surgimento da doença e identificar contatos prioritários para implementação de uma avaliação dermatoneurológica de maior complexidade”, acrescenta.

Por fim, o pesquisador revela que o objetivo final das pesquisas é a implementação de plataformas de diagnóstico de baixo custo, fácil execução e interpretação e disponíveis não apenas aos centros de referência, os quais já contam com um aparato de avaliação superior aos disponíveis em unidades de menor complexidade e básicas de saúde, mas para todos os serviços de assistência, controle e busca ativa da hanseníase.

Teste rápido

Desde o início de julho, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) incluíram um teste rápido para a detecção de anticorpos contra a bactéria que causa a hanseníase no rol de procedimentos obrigatórios. Ele é um reforço inédito na detecção dos anticorpos contra o bacilo, sendo o Brasil o primeiro país do mundo a ofertá-lo. A inclusão do teste rápido auxiliará também no monitoramento populacional em áreas de maior incidência e na classificação de pacientes suspeitos, pois, em alguns casos, a doença pode levar vários anos para se manifestar. A versatilidade do teste é uma das vantagens da utilização, uma vez que as condições para testagem são ampliadas, ele pode chegar a locais de difícil acesso, já que a hanseníase é uma doença negligenciada que acomete populações vulneráveis.

Para o dermatologista Dr. Maurício Lisboa Nobre, assessor para hanseníase na OMS e pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da UFRN (IMT), no Rio Grande do Norte, a grande vantagem do teste rápido é aumentar as chances de diagnóstico precoce da doença, o que permite identificar indivíduos infectados, os quais devem ser melhor investigados e acompanhados. Ou seja, se esses casos vierem a apresentar sinais de sintomas da hanseníase, vão estar alertas sobre essa possibilidade diagnóstica e a equipe de saúde também. “Outra vantagem é que os comunicantes com teste positivo, durante cinco anos, podem fazer um segimento mais próximo, na unidade de saúde”, salienta. Contudo, o assessor da OMS lamenta a enorme carência de exames complementares que ainda não são acessíveis à maioria da população, nem mesmo nas unidades da atenção especializada, como eletroneuromiografia e ultrassonografia de nervos periféricos. Segundo o Dr. Nobre, isso realmente precisa melhorar no Brasil, tendo em vista, inclusive, as últimas publicações de Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde.

Registro de casos aumentam na Índia

O distrito de Deoghar, uma grande cidade em Jharkhand, na Índia, registrou aumento acentuado no número de casos de hanseníase recentemente. Segundo dados do governo, 250 novos pacientes foram identificados entre abril e agosto deste ano, os quais são classificados operacionalmente em duas categorias com base nos achados das lesões de pele e nos nervos: aqueles com menos manchas são mantidos na categoria Paucibacilar (PB) enquanto os que têm mais são classificados como Multibacilares (MB). O número de pacientes PB chegam a 145, enquanto os pacientes MB somam 105. Um programa nacional para a identificação de pacientes com hanseníase está em andamento no distrito e a equipe de campo está realizando um árduo trabalho para descobrir os pacientes acometidos.

O Dr. Nobre lembra que a Índia diagnostica por ano, em torno de 115 mil casos novos de hanseníase, enquanto a média do Brasil é 25 mil casos novos. “Entretanto, quando olhamos o indicador, ou seja, o coeficiente de detecção (número de casos é dividido pela população), o nosso indicador atinge níveis mais altos do que a Índia, pois, embora a Índia tenha quatro vezes mais casos, a população é muito maior do que a do Brasil. Ou seja, proporcionalmente, temos um indicador, um coeficiente, uma taxa de hanseníase mais elevada do que a Índia”, assinala. Questionado por que mantemos indicadores tão elevados, o dermatologista é categórico ao afirmar que isso ocorre porque ainda registramos desigualdade social muito grande, as pessoas não têm acesso fácil ao diagnóstico e, portanto, os indicadores aumentam. “Como a hanseníase é uma doença com determinantes sociais muito claros e ocorre principalmente em populações desfavorecidas do ponto de vista socioeconômico, que vivem especialmente nas periferias das grandes cidades, em aglomerados populacionais, com pouca ventilação, com condições inadequadas de higiene, isso facilita a transmissão do Mycobacterium leprae”, enfatiza.

Sobre a doença

A hanseníase é uma doença endêmica, infectocontagiosa, crônica, transmitida por gotículas de saliva eliminadas na fala, tosse, espirro e secreções nasais, em contatos próximos e frequentes com pessoas que não iniciaram o tratamento e estão em fase adiantada da doença. Mãos, braços, pés, pernas e olhos podem sofrer com alteração, diminuição ou perda da sensibilidade térmica, dolorosa, tátil e redução da força muscular. Os nervos dos membros inferiores, superiores e face são comprometidos lentamente, alterações que podem passar despercebidas. O tratamento varia de 6 a 12 meses, dependendo da forma clínica apresentada. Os medicamentos são fornecidos gratuitamente nas unidades de saúde e devem ser tomados diariamente. O tratamento interrompe a transmissão e previne incapacidades físicas.

A hanseníase é considerada uma doença silenciosa, com sintomas iniciais  inespecíficos. Já os sintomas avançados incluem: manchas com perda ou alteração de sensibilidade para calor, dor ou tato; formigamentos, agulhadas, câimbras ou dormência em membros inferiores ou superiores; diminuição da força muscular, dificuldade para pegar ou segurar objetos, ou manter calçados abertos nos pés; nervos engrossados e doloridos, feridas difíceis de curar, principalmente em pés e mãos; áreas da pele muito ressecadas, que não suam, com queda de pelos, (especialmente nas sobrancelhas), caroços pelo corpo; coceira ou irritação nos olhos; entupimento, sangramento ou ferida no nariz. A doença pode afetar qualquer indivíduo e gerar incapacidades permanentes. Diagnosticar precocemente evita a transmissão, complicações e deficiências.