Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas é destaque no MEDTROP Play

Publicação: 8 de dezembro de 2021

Fórum Social resgata lutas históricas, reflete sobre a atual crise político-institucional e socioeconômica no País e busca futuro com menos iniquidades e mais acesso à saúde

As discussões da sexta edição do Fórum Social levaram à elaboração do documento, reunindo demandas e reivindicações dos participantes

O MEDTROP Play 2021 alcançou grande sucesso em termos das atividades realizadas, incluindo eventos satélites, como também do número de  participantes entre os dias 25 e 28 de outubro, com quase 3.300 inscritos. A edição deste contou com a integração das atividades do 6º Encontro Brasileiro de Movimentos Sociais de Luta contra Doenças Infecciosas e Negligenciadas, dentro do Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas. A transversalidade da temática do Fórum com o Tema Central do Congresso em 2021: “Doenças tropicais e populações negligenciadas: o desafio de conhecer, vigiar e cuidar” foi ressaltada pelo Professor Alberto Novaes Ramos Jr, da Universidade Federal do Ceará (UFC), o que ampliou a responsabilidade coletiva e comum a partir deste Fórum.

Em dois dias de atividades em plataforma virtual, o espaço acolheu representações diversas e atuantes. Foram 2.250 mil acessos no Youtube e pessoas inscritas representando Brasil, Guiné-Bissau, Portugal e Paraguai, com escopo ampliado de representações, o evento trouxe forte construção coletiva, tendo como tema central: “O Brasil de ontem, de hoje e de amanhã para as populações negligenciadas: enfrentamento às desigualdades e ao abismo social”. Todas as atividades foram transmitidas pelo Youtube do MEDTROP Play 2021 e contaram com a participação de organizações, movimentos sociais, lideranças, profissionais de saúde, estudantes e pesquisadores que lidam com os temas das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs), como hanseníase, doença de Chagas, hepatites virais, esquistossomose, leishmanioses, filariose e tuberculose.

De acordo com José Alexandre Menezes da Silva, diretor nacional da Netherlands Hanseniasis Relief, NHR Brasil, foram registradas mais de 250 inscrições prévias e mais de 2.550 visualizações, pelo canal do YouTube ao longo do MEDTROP Play 2021. “A NHR Brasil é uma das organizações à frente do Fórum, que é realizado desde 2016 e conta também com a articulação da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), Universidades Aliadas por Medicamentos Essenciais (UAEM), Médicos sem Fronteiras (MSF), Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal da Bahia (UFBA)”, complementa.

A programação do domingo, 24 de outubro, abriu espaço ao longo de todo o dia para discussões a respeito da urgência para inovação tecnológica para o enfrentamento das DTNs, considerando-se os contextos mundial e brasileiro. A condução geral e as sínteses foram mediadas pelas professoras Maria do Socorro de Sousa (UFC) e Eliana Amorim de Souza (UFBA). Em um primeiro momento, além da apresentação e boas vindas por Alexandre Menezes e de um resgate rápido sobre os percursos do Fórum Social até 2021, apresentado por Marina Certo, da DNDi, houve a apresentação de Cordel de Anne Caroline: “atenção poetizada às doenças negligenciadas”. Em seguida, a Dra. Maria Cristina Soares Guimarães, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), sob a mediação da Dra. Eloan dos Santos Pinheiro, discutiu os caminhos para alcance da produção de conhecimento científico para inovação tecnológica no enfrentamento das DTN, além da dependência internacional versus produção local de insumos farmacêuticos para tratamento deste grupo de doenças, com a participação do Dr. Luiz Antônio Marinho, da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil (ALFOB). Na segunda parte do encontro, sob coordenação do Professor Alberto Novaes, após interpretação de “Pra não Dizer que não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, foram debatidos os contextos para ampliação e superação da negligência de pessoas, populações e territórios no Brasil, abrindo-se a discussão sobre as políticas sociais em contextos de austeridade e desigualdade no Brasil, sob a coordenação da Professora Carmen E. Leitão Araújo (UFC).

No segundo dia, também sob condução geral e sínteses das professoras Socorro de Sousa e Eliana Amorim, após breve apresentação de ciranda, debateu-se o Brasil do amanhã: caminhos para efetivação das políticas públicas no enfrentamento das desigualdades sociais. Nele foram apresentados os impactos sociais e o depoimento de lideranças a respeito da mobilização de ações para apoio de populações afetadas por doenças infecciosas e negligenciadas. Josefa de Oliveira Silva representou a Rio Chagas e todos os movimentos brasileiros de luta contra a doença de Chagas, enquanto Patrícia Soares representou o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) e o Grupo de Apoio às Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Gamah). Já Dircilene Mendonça representou pessoas acometidas pela filariose, enquanto Fábio Correia apresentou as ações do Comitê Pernambucano de Mobilização Social para o Controle da Tuberculose. Neide Barros, presidente do Movimento Brasileiro de Luta Contra as Hepatites Virais, completou as apresentações das lideranças. Na ocasião, a Professora Eliana Amorim salientou que o Fórum também foi importante espaço por albergar o encerramento do Curso de Fortalecimento de Lideranças coordenado pela NHR-Brasil, um processo de formação estratégica para fortalecimento dos Movimentos Sociais do Fórum para o exercício da cidadania e na luta por maior acesso a direitos e fundamentada em sua constituição em método participativo. Acesse o documento aqui.

Ao final, João Victor Pacheco e Maurineia Roseno, representando as pessoas acometidas pela hanseníase, fizeram a leitura da primeira versão da Carta, seguida por debate. A versão final lida durante a cerimônia de encerramento do MEDTROP Play 2021, 27 de outubro, foi apresentada por João Victor Pacheco (Morhan, Mato Grosso) e esteve aberta em consulta pública às pessoas participantes do Fórum para contribuições ao longo do MEDTROP. O documento sintetiza perspectivas, pautas e demandas do Fórum e deverá ser enviada a autoridades governamentais, gestores, movimentos sociais, organizações, meios de comunicação e sociedade em geral.

Sobre o Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas

Foi constituído no Brasil em 2016 durante o 52º MEDTROP, em Maceió (AL), como resultado de ampla articulação democrática de movimentos e organizações sociais, associações de pessoas afetadas por diferentes doenças, juntamente com universidades, fundações e institutos de pesquisa, estudantes, profissionais de saúde e cidadãos e cidadãs apoiadores(as). Em 2018, também durante o MEDTROP, o Fórum Social Brasileiro para Enfrentamento de Doenças Infecciosas e Negligenciadas pactuou e divulgou a sua Carta de Princípios. Ao longo dos seis anos de sua existência, tem atuado como espaço de representação, apoio, aprendizado, empoderamento, articulação e visibilidade com foco na luta pela defesa dos direitos humanos e sociais das pessoas e comunidades afetadas e/ou vivendo com doenças infecciosas e negligenciadas. Representações para enfrentamento da doença de Chagas, da leishmaniose, da hanseníase, da esquistossomose, das hepatites virais, da filariose linfática e da tuberculose têm unido esforços e experiências coletivas, desde então, particularmente na defesa do Sistema Único de Saúde (SUS).

Com abrangência global, esse grupo de DTN destaca-se no Brasil pela grande carga de doença e morte, bem como por estarem fortemente atreladas à baixa priorização política de seu controle pelo Estado, à pobreza estrutural, ao estigma associado, ao preconceito, ao limitado acesso ao diagnóstico e ao tratamento em serviços de saúde, ao baixo investimento em pesquisas e avanços tecnológicos para novos métodos diagnósticos, marcadores evolutivos, fármacos e acompanhamento das pessoas afetadas em todas as fases do adoecimento. A negligência a pessoas e territórios vulnerabilizados abre espaço para a sua persistência, ano após ano, em diferentes níveis.

O Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas segue em seus movimentos e luta, e estará compondo mais uma vez em parceria com a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) o 57º MEDTROP, entre os 13 e 16 de novembro de 2022 na cidade de Belém (PA).