Fator de impacto: árbitro da excelência?

Publicação: 9 de março de 2021

Pesquisas e pesquisadores em doenças tropicais são subvalorizados pelas métricas bibliográficas pelo pouco impacto econômico que representam

Fator de impacto é cruel com algumas áreas do conhecimento que não estão na frente das descobertas de elevada repercussão

A ciência por trás da pandemia de COVID-19 fez disparar a pressão por publicações. Mas, se, por um lado, os pesquisadores acostumados a confiar e a valorizar a investigação científica, por outro lado demonstram sua decepção pelas revistas que aceitam divulgar estudos precipitados e muitas vezes sem comprovação científica clara. Ou seja, a revisão por pares (peer review), tida como um dos pilares, senão o mais importante, da comunicação científica, nunca foi tão necessária, mas também nunca esteve tão relegada a um papel tão secundário. Aperfeiçoamentos de artigos submetidos a partir da avaliação por pares não significam que o processo é totalmente confiável e livre de erros, ao contrário: é um trabalho extremamente especializado, moroso, não transparente ou excessivamente crítico, além disso não é livre de vieses e pode não detectar comportamentos antiéticos como plágio ou resultados fabricados. Assim, surgem críticas e mecanismos alternativos para substituí-la.

A ciência está aí e serve para desvendar a verdade e para contribuir com o conhecimento e as revistas científicas não podem abrir mão da ciência confiável. Assim como em outros segmentos, na área científica, existem revistas nacionais excelentes e outras de padrão científico insatisfatório. Hoje em dia, todo autor considera o valor do fator de impacto (FI) para escolher o periódico que possa dar maior visibilidade ao trabalho. Entretanto, levar em conta essencialmente o fator de impacto na avaliação do mérito da publicação ou do desempenho acadêmico, favorece a criação de um círculo vicioso. A supervalorização do fator de impacto e do número de publicações pode gerar um ambiente de tensão e de competição exacerbada entre pesquisadores, editores e professores.

O professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marco Aurelio Romano-Silva, explica que o fator de impacto é um dos itens que o autor deve considerar ao escolher o periódico, mas outros fatores são também importantes, tais como escopo do periódico, pagamento de taxas de publicação e a língua em que é publicado, pois obviamente o inglês dará maior visibilidade. Aspectos editoriais também são importantes, por exemplo, novos periódicos de grupos editoriais de boa reputação, como Science, Nature, Lancet, JAMA e etc podem não ter FI no momento da submissão, mas tem boas chances de alcançar prestígio científico em pouco tempo.

Apesar de ser um dos mais populares modos de medir o trabalho científico, o FI apresenta lacunas, que são comentadas até mesmo por seu criador Eugene Garfield, entre outros autores. Uma delas é que os periódicos com maiores FI costumam ser aqueles que publicam artigos de revisão, pois são artigos que recebem mais citações. Logo, a revista que valorizar os trabalhos inéditos e que precisam de tempo para mais análises pode se prejudicar em uma métrica como essa, pois terá menos impacto dentro dos dois anos avaliados após a publicação desses artigos. O Dr. Romano-Silva ressalta que essa é uma estratégia utilizada por periódicos que querem aumentar seu fator de impacto. “No entanto, as boas revistas conseguem fazer um balanço entre artigos originais e revisões, sem prejudicar os primeiros, algumas vezes publicando edições especiais somente com revisões”, acrescenta. Ainda de acordo com o professor, é preciso considerar, que as boas revisões também passam por um escrutínio sério para a avaliar sua relevância. “Novamente, vai depender muito da seriedade do journal e seu conselho editorial”, assinala.

Mesmo com prestígio e benefícios não se pode negar que o FI apresenta outros problemas que merecem atenção. Por exemplo, nos países em desenvolvimento, como o Brasil, onde a institucionalização das universidades, pesquisas e revistas científicas tardaram a acontecer, os periódicos têm menos visibilidade internacional e baixos FI. O professor Romano-Silva é categórico ao afirmar que um artigo de boa qualidade, realizado no Brasil, terá boas chances de ser aceito em um periódico de nível internacional. Para ele, a menor visibilidade e baixo FI dos periódicos nacionais tem mais relação com o fato de vários serem publicados em português. Ele menciona que algumas revistas, como o Brazilian Journal of Psychiatry, são publicadas em inglês e se encontram em curva ascendente de visibilidade internacional.

Entretanto o FI pode ser cruel com algumas áreas do conhecimento que não estão na frente das descobertas de elevada repercussão, como por exemplo, as áreas de biologia fundamental, de biotecnologia e de doenças com elevado valor comercial agregado, como obesidade, câncer, hipertensão arterial e diabetes mellitus, por exemplo, que são de elevado impacto bibliométrico. Enquanto as descobertas de ciência fundamental estão ligadas ao impacto que geram em todo o conhecimento, o valor econômico está ligado à prevalência das doenças, ao poder econômico das populações acometidas e ao potencial de gerar produtos comerciais. As doenças raras, as doenças de populações negligenciadas e as doenças tropicais não estão nesse escopo porque têm pouco impacto econômico e político. O FI dessas doenças, com exceção de uma das mais importantes doenças tropicais, a AIDS, é baixíssimo.

Com isso, pesquisadores e pesquisas em doenças tropicais acabam sendo subvalorizados pelas métricas bibliográficas, não pela menor contribuição ou menor importância de suas investigações e publicações, mas pelo pouco impacto econômico que representam. A realidade das revistas brasileiras, nas últimas décadas, demonstram que é possível a inclusão das publicações nacionais no ranking mundial, lado a lado com as estrangeiras, que aparecem entre as mais conceituadas e que, publicam os resultados das investigações mais impactantes, mas é preciso mudar o estado da avaliação da ciência a fim de que as investigações de seus cientistas não sejam desvalorizadas por critérios destinados aos enormes retornos econômicos das grandes editoras científicas dos países não tropicais.

Embora não seja unanimidade, o FI é um dos indicadores de qualidade para as revistas indexadas na Web of Science. O professor Romano-Silva reconhece que ele é um item importante na avaliação de pesquisadores e de suas publicações, mas não deve ser o único a ser considerado. Indicadores como o número de citações, área de publicação, público-alvo entre outros são também importantes.

Seu crescimento se deve a exigência do sistema Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) aos programas de Pós-graduação para que priorizem revistas de elevado FI para publicação; o Programa Editorial do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que financia as revistas a mais de trinta anos; a consolidação da biblioteca Scientific Electronic Library Online (SciELO) ao exigir padronização e qualidade; e a Associação Brasileira dos Editores Científicos (ABEC) que qualifica os editores brasileiros desde 1985.